Yann Martel: “A maravilha de Portugal deixou uma marca bem cedo em mim”

Fotografia: Emma Love

O canadiano Yann Martel fala sobre o seu mais recente livro, As Altas Montanhas de Portugal, e explica o que o levou a situar o enredo no nosso país.

As Altas Montanhas de Portugal

O mais recente livro de Yann Martel, autor do bestseller mundial A Vida de Pi, passa-se em Portugal e divide-se em três partes distintas, percorrendo parte do século XX aos olhos de um leque diverso de personagens. A edição em português será publicada em abril pela Editorial Presença.

 


Porque escolheu situar o seu novo livro em Portugal?

Portugal foi o primeiro país que visitei sozinho, enquanto mochileiro de 20 anos. Viajei do Sul para o Norte. Impressionou-me profundamente ver um país estrangeiro na solidão. Essa é a conexão pessoal. Mas a verdadeira razão que me leva a situar o meu romance em Portugal é a região curiosamente intitulada de Trás-os-Montes. Além ou atrás das montanhas – mas não tem montanhas. Ao descobrir isto, percebi como a geografia é um ato de contar histórias, como ao dar o nome a uma região estamos a começar a tecer uma história sobre ela e, neste caso, é a história de uma preocupação com algo além de montanhas que nem sequer existem. Por isso as montanhas do meu livro também não existem. As Altas Montanhas de Portugal são montanhas imaginárias, montanhas mágicas, montanhas na mente.

Qual é a sua ligação a Portugal?

Nenhuma familiar. Apenas gosto do lugar. Os países são um pouco como as gastronomias. Gostamos de algumas comidas e não gostamos de outras. Tal como acontece que gosto de comida indiana, acontece que gosto de Portugal. Claro que poderia falar das maravilhas de Lisboa e Porto, de Óbidos e da Batalha e por aí além, mas na verdade todos os países da Terra têm algo de maravilhoso. A diferença é que a maravilha de Portugal deixou uma marca bem cedo em mim.

O que acha do país?

É um país lindo. Claro que tem a sua quota de problemas e desafios – que país não os tem? – mas estes problemas e desafios situam-se num país de belas paisagens e cidades, com uma história rica e interessante.

Quanto tempo levou a concluir The High Mountains of Portugal?

Escrever o livro levou-me cerca de cinco anos. Eu não sou muito rápido a escrever. Tenho quatro crianças pequenas, o que explica em parte porquê. Mas também não vejo qualquer razão para me apressar.


“As Altas Montanhas de Portugal são montanhas imaginárias, montanhas mágicas, montanhas na mente.”


Escreveu-o em Portugal?

Retornei duas vezes para fazer alguma pesquisa. Na primeira vez, explorei Lisboa para perceber onde faria viver o tio rico de Tomás. Optei finalmente por uma casa senhorial que é agora a residência do embaixador da China, na Lapa. Também percorri a rota que Tomás faz, até ao Nordeste do país. Numa visita posterior, fiquei algum tempo na vila de Montesinho, no coração das minhas imaginárias Altas Montanhas.

Na nota de autor d’A Vida de Pi, refere que, em 1996, viajou para a Índia com planos de escrever um romance sobre Portugal? As Altas Montanhas de Portugal é esse romance, 20 anos depois?

Sim. Após a publicação de Beatriz e Virgílio, a história finalmente ganhou vida na minha cabeça.

Qual é o seu argumento de venda do livro?

Não tenho argumentos de venda para os meus livros. A arte é uma dádiva. Escrevo os meus livros e ofereço-os aos meus leitores.

Agatha Christie desempenha um papel no enredo do livro. Considera-se um fã?

Absolutamente. Adoro os seus mistérios. São tão extraordinariamente inteligentes e divertidos. E, embora não deseje revelar demasiado aos leitores que ainda não tenham lido o livro, há algo curioso a notar quando se examinam os seus mistérios junto aos Evangelhos.

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