Vietname: 40 anos depois da guerra

Cruel. Se pensarmos que há 40 anos o ser humano foi capaz de cometer atrocidades como aquelas vividas na guerra do Vietname. Saiba as razões deste conflito com repercussões até aos dias de hoje.

Mais do que as vítimas, mais do que os números. O conflito. Lembramos a vida daqueles que se tornaram não heróis mas sobreviventes de uma guerra que perdurou por quase duas décadas. Porque as verdadeiras vitórias não se conquistam em combate, mas através da capacidade de superação humana em situações extremas. Recordemos, para que jamais volte a acontecer.

A maior derrota da história dos EUA

19 anos, 5 meses, 4 semanas e 1 dia. Chegava ao fim, a 30 de abril de 1975, o mais longo conflito dos Estados Unidos, a guerra do Vietname. A força militar norte-americana saía derrotada de uma das maiores disputas armadas de todos os tempos. A Guerra do Vietname é o retrato de George C. Herring a uma batalha que deixou memórias indeléveis nos americanos. O que começou por ser uma guerra dos franceses na Indochina acabou por arrastar o aliado norte-americano para mais um conflito internacional, na tentativa de travar o avanço do comunismo.

Foi precisamente este avanço que serviu de razão para a intervenção dos Estados Unidos no Sudeste Asiático. No livro A Bandeira Vermelha, David Priestland relata a escalada do movimento comunista, uma influência que governou um terço da população mundial. Entre os principais líderes, o autor destaca a figura maior do avanço comunista do norte para o sul do Vietname: Ho Chi Minh.

Por sua vez, a guerra do Vietname germinou a partir de um conflito à escala global, a Guerra Fria. John Lewis Gaddis relata na sua obra, A Guerra Fria, um conflito que quase despoletou na sequência da Segunda Guerra Mundial. Estados Unidos e União Soviética procuravam assegurar a supremacia político-partidária e a complexidade dos assuntos envolvidos resultou em vários núcleos de guerra, entre as quais o conflito no Vietname.

Da literatura para a sétima arte

Ron Kovic, autor de Born on the Fourth of July, foi soldado na guerra do Vietname, conflito que lhe roubou a capacidade de andar. A história de mais um soldado que só queria cumprir o dever de servir o seu país. Alistou-se no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos logo depois de terminar o ensino secundário e foi destacado para duas missões no Vietname. Born on the Fourth of July é a autobiografia da realidade vivida pelo autor, publicada em 1976. Adaptada à sétima arte 13 anos depois, Nascido a 4 de Julho foi galardoado com dois Óscares da Academia.

Menos direto mas de resultado semelhante, O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, denuncia o colonialismo, a política e a angústia do homem no seu tempo. A obra remonta a 1902, mas os problemas políticos, sociais, étnicos e culturais são os mesmos da guerra do Vietname e de todo o conflito dos franceses na Indochina, razão pela qual Francis Ford Coppola a adapta ao cinema, intitulando o filme de Apocalypse Now. O resultado é um tributo à obra original, que evidencia a brutalidade e a necessidade de supremacia norte-americanas em conflitos internacionais.

As figuras e os testemunhos da história

O desenrolar da guerrilha em solo vietnamita imortalizou uma menina de 9 anos de idade, nua, a correr pela estrada em Trang Bang, no sudeste do Vietname. Phan Thị Kim Phúc ficou e ficará para sempre na História graças à fotografia de Nick Ut, vencedor do Prémio Pulitzer em 1973. A sua fotografia é uma das imagens mais chocantes do século XX. The Girl in the Picture: The Kim Phúc Story, the Photograph and the Vietnam War é o retrato de vida de Phan Thị Kim Phúc, por Denise Chong. O dia a dia de mais uma criança a quem foi retirado o conceito de infância. A sua recuperação, a coragem e superação até aos nossos dias. A síntese do conflito, do racismo, da repressão e da pobreza aos olhos de Kim Phúc e sua mãe.

Do lado americano, também não devem ser esquecidos aqueles que sofreram as repercussões da guerra do Vietname. Voices of a People’s History of the United States reúne algumas vozes perdidas na História e agora lembradas por Howard Zinn. Testemunhos de pessoas que viveram a realidade, pessoas comuns com vidas comuns, ativistas humanitários a quem a História deve igualmente o seu desfecho.


Por: Pedro Venâncio

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