O que é a up-lit?

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As histórias trágicas e pessimistas não são a tua cena? Descobre a up-lit, um género que vive do positivismo e que é apontado como a principal tendência literária para 2019.

Não será novidade para ninguém que o mundo está a passar por uma fase complicada. Todos os dias descobrimos nas notícias uma nova tensão política, uma nova crise económica, uma nova desigualdade social que nos tira o sono. Não é fácil escapar ao negativismo. Muitos de nós optam por se refugiar nos filmes, nas séries, nas músicas.

E nos livros.

Mas as histórias são por vezes tão ou mais perturbadoras do que a vida real. Foi assim que chegámos a um novo género literário que é, de acordo com os principais grupos editoriais, a maior tendência para 2019: a up-lit.

“Os leitores estão a gravitar em direção a histórias que os façam sentir esperançosos e tranquilos em relação ao mundo. Livros que nos relembrem de que nem tudo é mau”, explica Martha Ashby da Harper Collins, a editora que ainda recentemente ganhou a corrida pelo muito requisitado The Love Story of Missy Carmichael, um livro que alinha justamente pela bitola do positivismo, como explica a autora Beth Morrey: “Quis escrever um livro que fizesse as pessoas chorarem de alegria, não de tristeza. Senti que precisávamos de uma catarse.”

UP-LIT: NÃO VIMOS JÁ ISTO EM ALGUM LUGAR?

A up-lit (apropriação literária de uplifting, termo em inglês para “inspiradora” ou “edificante”) vive precisamente de uma catarse de alegria. As narrativas até podem ter os seus momentos mais sombrios, mas o tom geral é otimista e esperançoso. Os estereótipos mais negativos da sociedade são contrariados. E os protagonistas não se deixam cair com as dificuldades: lutam pelo que querem e suscitam nos leitores a vontade de se tornarem também pessoas melhores.

Claro que podemos sempre argumentar que isto não é novo e que aquilo a que agora chamamos up-lit já existe há anos, décadas, séculos. E teremos razão. Sempre existiram histórias otimistas. O que ainda não existia era um nome para as agrupar. E uma tendência a suportá-lo.

Um dos principais responsáveis foi Um Homem Chamado Ove, romance publicado em 2012 pelo sueco Fredrik Backman. É a história de um homem rabugento a quem acontecem os maiores azares – é despedido, a sua mulher morre, o seu melhor amigo está prestes a ser internado num lar. À primeira vista não parece uma narrativa muito otimista, certo? Mas acaba por ser. E apesar disso revelou-se um grande sucesso de vendas, ao ponto de ser transposto para o cinema.

Num ano em que imperavam os thrillers psicológicos e as distopias young adult também se fez notar outro pedaço de literatura feel good: A Improvável Viagem de Harold Fry, de Rachel Joyce, um livro sobre um reformado inglês que se obriga a responder em pessoa à carta de uma mulher que não via há anos – isto apesar de ela se encontrar a quase mil quilómetros de distância. Foi a inesperada popularidade destes romances que levou ao desenvolvimento da up-lit.

UP-LIT: UMA ASCENSÃO SUSTENTADA

Desde 2012 até agora têm aumentado exponencialmente o número de romances feel good no mercado. E estes têm-se assumido cada vez mais populares junto aos leitores.

Veja-se o bestseller A Educação de Eleanor, romance de estreia da escocesa Gail Honeyman, que conquistou o público, a crítica e um prémio Costa com a história de uma designer solitária e da amizade que forma com dois homens que a ajudam a descobrir o que ainda não sabia sobre ela própria. Ou Lincoln no Bardo, o romance de formato experimental que conferiu ao americano George Saunders o prémio Man Booker e que tem lugar numa única noite, assumindo como ponto de partida a morte do filho adolescente do antigo presidente americano Abraham Lincoln.

Estas duas obras mostraram que nem só de tragédia se faz o mundo dos prémios literários. Mais: mostraram a versatilidade da up-lit no que respeita a estilo e conteúdo.

Continua certamente a haver lugar neste género para narrativas mais focadas na autoajuda e no crescimento pessoal de uma maneira mais clássica, como A Tua Segunda Vida Começa Quando Percebes que Não Terás Outra, da francesa Raphaëlle Giordano, mas a up-lit está igualmente aberta à ocasional “loucura” da ficção científica, por exemplo, como o demonstram romances como O Homem que Foi para Marte Porque Queria Estar Sozinho (sobre um cientista rabugento que decide ir viver para Marte e se torna inadvertidamente um fenómeno mediático porque o associam ao tema “Space Oddity” de David Bowie) ou Como Parar o Tempo (sobre um homem que aparenta ter 40 anos mas que na verdade está vivo há séculos e conheceu pessoalmente algumas das mais emblemáticas figuras da história mundial mas está agora desejoso por uma vida banal).

Podemos assumir, portanto, que a up-lit é um género que extravasa géneros. Poderá realmente ser 2019 o seu ano de consagração?

Por: Tiago Matos

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