Editorial: Sérgio Godinho

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Como união de facto entre duas formas de expressão (chamemos-lhe artes, para simplificar), a canção começa a acontecer no conhecimento mútuo, no diálogo, nas zangas, nos gestos de amor e interrogação, no acasalamento improvável dessas duas entidades, palavra e música.

De la musique avant toute chose”, assim começava Verlaine a sua Art Poétique, música antes de tudo o resto. De facto, as palavras organizam-se em frases que, “antes de tudo o resto”, vão encontrando a sua música própria, aquela que andava pelos ares à espera de saber em que mão pousar.

E, da mesma maneira, a palavra pode atribuir à frase musical uma consciência poética insuspeitada, agarrando-a em imagens perenes, soltando-a em metáforas e convicções. Repare-se como se fala do “fraseado” de uma melodia, de um tema musical.
É como se ali se reconhecesse uma linguagem singular, ao mesmo tempo nova e já soando a definitiva. E é nisso também que se devem tornar inseparáveis, como se, a partir dessa união de facto, uma não pudesse existir sem a outra – para sempre.

Claro que, a partir desse “momento mágico”, as ideias e os conceitos e as palavras que os sustentam e poetizam tomam uma preponderância que torna a música quase invisível, como ela se quer e como ela é, aliás: apenas ondas lançadas no espaço e no tempo, nada que se consiga definir por si mesmo, excepto pelo poder de “comunicação das almas” de que falava Proust.

Comunicação dos corpos, também. Uma nota pessoal (entre outras que aqui tornei menos evidentes). Em meados dos anos 80, na canção Salão de Festas, escrevi: “Se agora danças, logo pensas, e mais…”, sublinhando a convivência do pensamento e da acção, desde sempre alimento dos homens. Para minha grata surpresa, descobri, muitos anos depois, uma frase de Beckett que dizia quase o mesmo: “Dança primeiro, pensa depois. É a ordem natural das coisas.”

As palavras das canções desvendam-nos, encantam-nos, fazem-nos ir atrás de utopias e dos seus limites, manipulam-nos também, criticam o mundo à volta e interpelam-nos (esperemos) nas nossas certezas. Para isso usam a rima, o adjectivo, a métrica. E ainda o refrão, o crescendo e o decrescendo, todas as artimanhas da sedução.
Para o bem e para o mal. Sabem que têm na música o seu parceiro evidente, a sua união de facto.

É a ordem natural das coisas.

Sérgio Godinho
 

*Sérgio Godinho escreve de acordo com a antiga ortografia. 

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