Um Cântico de Natal

Imagem: Wikimedia Commons

Tantos natais depois, permanece viva a história de um velho avarento visitado por espíritos que Charles Dickens imaginou para denunciar as injustiças sociais da época.

Um Cântico de Natal nasceu como forma de denunciar as miseráveis condições de trabalho das camadas sociais mais desfavorecidas, na Inglaterra do século XIX.

É uma novela, mas podia muito bem ter sido um panfleto. A ideia de Um Cântico de Natal surge pela primeira vez a Charles Dickens no início de 1843. Comprovando na primeira pessoa as tenebrosas condições das camadas mais pobres da sociedade inglesa – e em particular das crianças obrigadas a trabalhar nas fábricas e nas minas –, decide o autor denunciar publicamente as injustiças resultantes da Revolução Industrial. É um tema que lhe diz muito. Aos 12 anos, quando o pai foi preso por não conseguir pagar as dívidas, o próprio Dickens foi obrigado a vender a coleção de livros e a abandonar a escola para trabalhar numa fábrica, experiência que o marcou para o resto da vida. Decide, por isso, escrever um panfleto político a expor a situação.

No entanto, em 1843, Charles Dickens é um escritor em crise. Mesmo após o enorme sucesso obtido com obras como Os Cadernos de Pickwick, Oliver Twist e The Old Curiosity Shop, vive com imensas dificuldades financeiras. Os folhetins que vai publicando não vendem. Acaba por conceder que não pode gastar o seu tempo na escrita de mais um texto que não lhe traga pelo menos algum proveito. Desiste então da ideia do panfleto e aposta numa novela que, mantendo intacta a mensagem que quer transmitir, tenha o potencial de chegar às massas. O resultado é Um Cântico de Natal.

A narrativa centra-se na figura de Ebenezer Scrooge, um velho amargo e avarento que explora os trabalhadores e pensa apenas em si próprio. O personagem é particularmente avesso à época natalícia – “Se eu pudesse fazer aquilo que me apetecia, cada idiota que anda por aí com ‘Feliz Natal’ na ponta da língua devia ser posto a ferver mais o pudim, e enterrado com uma estaca de azevinho espetada no coração” –, mas é precisamente na véspera de Natal que três espíritos o visitam para lhe despertar a compaixão e generosidade adormecidas.

Charles Dickens escreve a novela em apenas seis semanas, apressando-a de modo a que possa ser publicada antes do Natal. A estratégia revela-se acertada: a obra alcança de imediato um êxito estrondoso. Mais importante ainda: a mensagem de redenção social nela contida chega ao público com um impacto que um simples panfleto não poderia ter. Mantendo-se até hoje vivo na mente coletiva, o livro influencia o próprio Natal. Só a partir de então passa esta época a ser tida como ideal para ajudar os outros e celebrar em família.


Por: Tiago Matos

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