Uma Aventura nas Páginas da Estante I

A Estante desafiou as duas autoras da coleção Uma Aventura a iniciarem uma aventura diferente nestas páginas, um conto com muitas surpresas para desvendar. Para ser continuada por outros autores portugueses durante mais três edições da revista, esta será uma aventura a várias mãos. Por terem aceite o convite, decidimos que este desafio seria intitulado Uma Aventura nas Páginas da Estante.

Por: Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada


I

– Ricardo, se eu fosse a ti, pensava melhor no assunto – aconselhou o Tomás.

O irmão ignorou a fórmula que tinham adotado para amenizar os frequentes desacordos. Família e amigos achavam-lhes imensa graça, pois não conheciam outro par de irmãos que se dessem tão bem, apesar das opiniões diferentíssimas a respeito de tudo. E discutiam, se discutiam! Mas sem se zangarem e sem atropelos. Um falava, o outro ouvia, com calma e disponibilida- de de espírito. No entanto, só em casos absolutamente excecionais se deixavam influenciar um pelo outro.

Naquela tarde tinham saído juntos para comprar o presente de anos que Ricardo queria oferecer à Susana.

– Ainda não decidi se estou apaixonado por ela ou não.

– Isso não se decide, acontece.

– A mim só me acontece o que eu quiser.

– És demasiado prático.
– E tu demasiado fantasista. Caminhavam lado a lado, um bastante alto, magro, loiro, vestido de escuro. O outro de tipo entroncado, cabelo preto, musculatura rija moldando a camisola vermelha.

– Ela adora ler, vou comprar-lhe um livro.

– Se adora livros, vai receber imensos, devias pensar melhor e descobrir alguma coisa que a surpreenda.

– É isso mesmo que vou fazer. Surpreendê-la com o livro decisivo, aquele que nunca mais se esquece.

Entraram na livraria, dirigiram-se a estantes diferentes, mas pouco depois juntaram-se diante de uma daquelas mesas onde os livros, pousados em montes, exibem a capa.

Do lado oposto circulavam várias pessoas, a certa altura ficou apenas um indivíduo que a ambos causou uma vaga sensação de estranheza. De início pensaram que fosse por causa da gabardina antiquada e do cachecol velhíssimo, mas depressa se aperceberam que o mais impressionante era o olhar de aço, na face lívida. Mantinha um tele- móvel encostado ao ouvido, de repente começou a falar num tom baixo e firme. O que disse deixou-os perplexos.

– Não há nada que não deixe rasto. Seguindo o rasto desvenda-se o enigma. É urgente desvendar o enigma.

Não ouviram mais à conta de um pai desesperado que, correndo à toa pela loja atrás de filhos pequenos, lhes desviou a atenção. Quando segundos depois tentaram recuperar a cena, o estranho indivíduo desaparecera.

– Sumiu.

– As pessoas não se evaporam. E suspeito que aquela mensagem era para nós. – Que ideia, Tomás. Não viste que falava ao telemóvel?

– Não. Ele nem ligou, nem atendeu nenhuma chamada. E reparei que não nos desfitava.

– Talvez fitasse algum parceiro que estivesse atrás de nós.

– Duvido, mas é possível.

Ricardo preparava-se para retomar a escolha do presente, quando avistou um pequeno retângulo de papel caído no chão. Pegou-lhe, Tomás aproximou-se e leram juntos, em silêncio, palavras impressas a azul escuro.

Máximo segundo. Rastreador profissional.

Do outro lado havia uma frase rabiscada à mão, quase ilegível. Com esforço julgaram perceber que recomendava a procura do tal rasto numa estante.

E por baixo, alguém traçara um número a vermelho.

– Cá para mim, este é o número da página onde se pode encontrar a chave do enigma.

Ricardo encolheu os ombros, impaciente.

– Esquece. Como não sabemos qual é a estante, nem qual é o livro, mesmo que seja um número de página, não nos serve para nada.

– Está bem. Mas pelo sim, pelo não, passa para cá o papel que quero guardá-lo. Por vezes as soluções surgem quando menos se espera.

O irmão sorriu-lhe, fez-lhe a vontade e tratou de escolher o livro que lhe pareceu melhor para deslumbrar a Susana. Depois encaminharam-se para junto das caixas, onde imensa gente formara fila à espera de vez para pagar as compras. Repararam então em duas raparigas entretidas a observar uma revista que eles não conheciam e que tinha o nome de Estante. Tomás sobressaltou-se.

– Olha aquele título! Não achas que vale a pena folhear a Estante? Com sorte, encontramos uma pista para seguir o rasto do enigma que o Máximo Segundo considera urgente desvendar.

– Esse nome é disparatadíssimo e nunca ouvi falar da profissão de rastreador. Vendo bem, nem sequer sabemos se o papel pertencia ao homem da gabar- dina. Tu é que já te puseste a engendrar uma história delirante. Ainda assim, enquanto esperamos, vai lá buscar a revista e diz-me qual era o número vermelho.

– Queres o número da página?

– Também não sabemos se é o número de uma página. Mas como a tua imaginação não tem limites e às vezes acerta, nada nos impede de verificar.

Quem escreveu

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Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada são autoras da inesquecível coleção Uma Aventura. Ana Maria Magalhães nasceu em Lisboa, a 14 de abril de 1946. É professora de História e Português. Isabel Alçada nasceu a 29 de maio de 1950, em Lisboa, e o seu pai era o grande contador de histórias da casa. Isabel Alçada tornou-se professora de Português e História em setembro de 1976. É neste ano que, à porta da Escola Fernando Pessoa, em Lisboa, conhece Ana Maria Magalhães. Ficaram amigas. Em 1982, depois de muito escreverem para os alunos, escreveram um primeiro livro: Uma Aventura na Cidade. Uma coleção que ainda hoje continua: o próximo livro será Uma Aventura na Pousada Misteriosa.

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