A Estante desafiou Margarida Fonseca Santos a concluir a aventura iniciada há três edições por Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada e seguida por Maria João Lopo de Carvalho e Rita Taborda Duarte. Esta aventura a várias mãos tem agora o seu desfecho. Curioso?
De: Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada
Por: Margarida Fonseca Santos
IV
(continuação)
– “O que foi, Tomás?” Mas estás parvo? Não vês o que temos de fazer?!
– Eu sei muito bem o que tenho de fazer: levar o livro à Susana, se quero ainda ter namorada ao fim do dia – explicou Ricardo, com pouca paciência.
– Vá lá, Ricardo! – implorou Tomás. – Esta é a tua especialidade!
– Especialidade?
– Sim! Jogos de letras e palavras, és um craque!
Ricardo tentou disfarçar, bastante mal, diga-se de passagem, como gostara do título de craque. Voltou a sentar-se, resignado.
– Preciso de papel, lápis, borracha e caneta.
Zinha abriu a mochila e, remexendo num conteúdo inexplicável, encontrou o que Ricardo pedira.
– Boa, vamos lá – incitou Tomás, de olhos a brilhar.
Ricardo explicou que, primeiro que tudo, deveriam mudar de sítio as palavras surgidas no papelucho, para verem se surgia alguma pista. Escreveu a tinta: “Seja a brincar ou a sério/Desvenda tu o mistério/Se brincares com cada letra/Chegas lá como uma seta.”
– Temos de procurar outras formas de arrumar as palavras, alguma sugestão?
O alarido instalou-se de seguida. Puxa para aqui, empurra para ali, um novo texto surgia:
Desvenda, a brincar com o mistério, cada letra como uma seta. A sério! Tu chegas lá se brincares, ou seja.
– … ou seja?! – indignou-se Fá. – Estúpido papel…
– Esperem, esperem – pediu Ricardo, empolgado com o sucedido. – Agora, pegamos nas letras do poema do Romanceiro e fazemos o mesmo.
– O mesmo, como? – Tomás parecia desconfiado. O irmão queria fazer o mesmo com letras?!
– É complexo, mas conseguimos!
Para Ricardo, seria apenas mais um jogo. Contudo, era a primeira vez que o fazia com tantas letras. Escreveu, então, a tinta e em maiúsculas: “Não vejo terras de Espanha/ Nem praias de Portugal/Vejo sete espadas nuas/Que estão para te matar.”
– Não gosto dessa parte das espadas – gemeu Zinha.
– Concentrem-se, agora é mesmo uma tarefa para craques.
Tomás sorriu para dentro. Ali estavam a desvendar o mistério dos rastreadores profissionais, restava saber se seriam capazes… As palavras começaram a surgir, e Ricardo avisou:
– Pensem nos jotas. De certeza que estão juntos. Que palavra tem dois jotas?
– Eu sei – pediu Zinha. – Será “jejum” ou “jejuar”?
– Excelente! Essa já está!
– Mas que raio de mistério é que pode ter isso, Ricardo? – intrigou-se Fá.
– Acredita, essa palavra está lá, sinto que sim!
– Sentes?! – gozou Tomás. Mas logo viu outra. – Esperem, esperem! E penduradas, dá?
Ricardo ia riscando as letras já usadas. A tarefa era dificílima, mas nenhum dos quatro desistiria. Muitas palavras não sobreviviam, como “poema” e “prosa”. Acabavam sempre por sobrar letras soltas. O tempo ia passando com pezinhos de lã, assim como o público que circulava pela Fnac. Ninguém os interrompia, e até houve quem ficasse a espreitar bem de perto durante um bocado.
– Estão a espiar-nos – sussurrou Tomás. – “Espies”! “Espies” dá para gastar essas letras aí!
O trabalho continuava. Já haviam recomeçado umas trinta vezes. Porém, pareciam estar perto do fim.
Só que, lendo tudo, algo não fazia sentido: “Trepa! Vê se há novas letras em proa, penduradas a jejuar na estante. Gostam que espies parado e tão…”
– Não pode ser isto – disse Ricardo. – Falta qualquer coisa…
– E o sete? – perguntou Tomás.
– Já o incluímos – lembrou Zinha –, vinha no poema.
– Sim, mas chegámos a Almeida Garrett através dos setes.
– É isso! – O grito de Ricardo fez com que uma senhora atirasse para o chão todos os livros que tinha nas mãos. Apanhara um valente susto!
– Temos de fazer tudo de novo? – indagou Fá, um pouco cansada.
– Não, basta vermos o que sai daqui. Vou somar o “tão” que sobrou, acham bem?
Estavam todos de acordo. Recomeçava a troca de letras, mas daquela vez seria estranhamente simples. As 14 letras de Almeida Garrett e as outras três depressa completaram o raciocínio:
“Trepa! Vê se há novas letras em proa, penduradas a jejuar na estante. Gostam que espies parado e… Agarra-te! Temo tal id.”
– Não percebo – confessou Tomás. – Estás tão eufórico porquê?
– Porque descobrimos! – explicou Ricardo. – “Id”, da psicologia, o nosso eu que procura o prazer. Freud, lembram-se? Ego, superego, consciente, inconsciente. Que espetáculo! Faz sentido: estivemos todo este tempo empenhados, descobrimos isto por prazer!
Voltou à estante de onde haviam tirado o livro, puxou o banquinho que permitia subir às prateleiras mais altas e procurou. No alto, apoiado no rebordo da capa, como se fosse uma cabana de índio, jazia um livro. Parecia uma proa! Quase a medo, Ricardo desceu e observou-o. Os outros três juntaram-se.
– Fernando Pessoa – leu Tomás –, Cancioneiro. Ah, o escritor dos heterónimos! – Abrindo onde estava uma marca, continuou: “Dizem que finjo ou minto/Tudo que escrevo. Não./Eu simplesmente sinto/Com a imaginação./ Não uso o coração./Tudo o que sonho ou passo,/O que me falha ou finda,/É como que um terraço/Sobre outra coisa ainda./Essa coisa é que é linda./Por isso escrevo em meio/ Do que não está ao pé,/Livre do meu enleio,/ Sério do que não é,/Sentir, sinta quem lê!”
– Tudo explicado, lê-se sentindo! – rematou Ricardo.
Mínimo Segundo apareceu-lhes, saindo da lombada, a sorrir.
– Muito bem! Excelentes cabeças, só vos digo. E, na minha profissão, isso é um tesouro!
– Concordo, Mínimo, concordo – ouviram dizer. Ali estava Máximo Segundo, de olhar gelado. – Bravo, garotos, entraram para o catálogo dos rastreados!
Sem mais explicações, Máximo agarrou no livro, espalmando lá dentro Mínimo sem hesitar, e desapareceu no meio da multidão que se juntava para ouvir uma banda. Ia ser apresentado um novo álbum no Fórum. Nenhum dos quatro conseguiu apanhar Máximo.
– Garotos?! – queixou-se Zinha. – Isso é que era bom!
– Estamos rastreados – lembrou Ricardo, satisfeito.
– Sim, sim, como se soubéssemos para quê… – brincou Tomás.
Entretanto, o concerto começara.
– É o António Zambujo?! A Susana adora-o! – Ricardo nem queria acreditar no que estava a ouvir. – Além do livro, levo-lhe um disco autografado!
– Mesmo chegando atrasado – concordou Fá –, ela vai ficar nas nuvens.
E não é que ficou mesmo?
Quem escreveu

Margarida Fonseca Santos nasceu em Lisboa, em 1960. A autora e dramaturga começou a escrever em 1993, concluiu o curso superior de Piano no Conservatório Nacional e, em 2005, deixou a Escola Superior de Música de Lisboa para se dedicar à escrita. Mais de metade dos seus livros estão incluídos no Plano Nacional de Leitura.

Rita Taborda Duarte, poeta e romancista, publicou em 2004 o seu primeiro livro infantil, A Verdadeira História da Alice, sendo com ele distinguida com o Prémio Branquinho da Fonseca. Escreveu o terceiro capítulo desta história.

Maria João Lopo de Carvalho, autora que alterna a escrita de romances históricos com literatura infantojuvenil e é responsável, com Margarida Fonseca Santos, pela popular coleção juvenil 7 Irmãos, escreveu o segundo capítulo desta aventura.

