Uma Aventura nas Páginas da Estante III

A Estante desafiou Rita Taborda Duarte a continuar a aventura iniciada há duas edições por Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada e seguida na edição anterior por Maria João Lopo de Carvalho. Esta aventura a várias mãos conhecerá o seu desfecho no próximo número da Estante.

De: Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada
Por: Rita Taborda Duarte


 

III

(continuação)

Ricardo olhou para o relógio algo impaciente, e deu uma cotovelada disfarçada ao irmão. O livro para a Susana estava escolhido, já o levava, aliás, bem acomodado, debaixo do braço; poucos motivos havia, portanto, para se demorarem mais na livraria. Além de que toda aquela história já estava a ir longe de mais: Máximo Segundo; Mínimo Segundo; a gabardina e o cachecol coçado, velhíssimo, meio esfiapado, o tal sorriso gelado anavalhado à cara lívida; pistas absurdas que misturavam letras e números: pior, que transformavam os números em letras, confundindo, numa matemática que parecia perigosa, o contar dos números com o contar das histórias; personagens minúsculas a saltarem das estantes por entre folhas e letras… O melhor seria pagar o presente escolhido para a Susana e rasparem-se dali, enquanto iam a tempo.

Mas enquanto Ricardo pensava nisto tudo, com aquela atitude pragmática que 
tão bem o distinguia, já Tomás fizera sinal 
às duas amigas para se sentarem. Era uma longa história, aquela que Mínimo Segundo tinha para contar? Ora então que se acomodassem. Sentaram-se no chão, nos almofadões confortáveis dispostos na livraria para que os leitores pudessem sumir-se, com mais comodidade e prazer, por entre as páginas dos livros. Aquela história loooonga que o Mínimo tinha por contar merecia o máximo de atenção, teimou o Tomás entusiasmado. Sentaram-se e apontaram os narizes para
o alto da estante…

– Mas… mas… – exclama Zinha.

– Onde é que ele está? – pergunta Fá, olhando para todas as direções.

Tomás, inquieto, sacudiu os livros, passou a pente fino As Viagens na Minha Terra, de onde saíra a minúscula personagem; olhou bem lá para dentro, perdeu-se na descrição do vale de Santarém, procurou no fundo dos olhos verdes da Joaninha, a menina que habitava aquelas páginas, e enquanto lia e ouvia já, lá longe, o canto mansinho dos rouxinóis que o pareciam chamar de entre as letras, sobressaltou-se com o grito inquieto do irmão.

– E isto?! Isto aqui o que é?!!

Do livro caíra um papel amarelado. 
Na verdade, um papelote minúsculo quase amarfanhado. Só muito a custo conseguiram ler:

Mínimo Segundo rastreador profissional

E atrás, numa garatuja quase invisível, estava escrito:

Seja a brincar ou a sério
Desvenda tu o mistério
Se brincares com cada letra
Chegas lá como uma seta

 

– Então, mas… Desta vez não há números, só letras… Nenhuma pista sequer sobre
 o que devemos fazer? Assim é demasiado difícil… É impossível!!! – reclamaram Fá
 e Zinha, quase em simultâneo…

– Vamos ter calma. Vejamos as pistas desde o início. Deve haver alguma relação: tem mesmo, mesmo, de haver… Ora, vamos lá recapitular… – E o Tomás entusiasmava-se tanto, como se estivesse a correr pelo vale de Santarém, tendo a janela da Joaninha dos olhos verdes como mira. – Chegámos 
a Almeida Garrett pela pista do número sete. De As Viagens na Minha Terra saltou o Mínimo Segundo com esta enigmática pista, com desígnios bem ocultos e camuflados. Vamos ler com atenção: diz-nos o papel que brinquemos com as letras… Não fala ali de números, mas….

– Espera! Os números estão lá! – exclama Zinha. – Estão lá, mas escondidos. Lembram-se do que nos dizia o papel do Máximo Segundo: não há nada que não deixe rasto! E aqui o rasto são… as sílabas.

Os quatro jovens empoleiraram-se sobre o papelucho: oito olhos bem abertos fitos nas letras. Sim, temos aqui quatro versos, a rimar, entre si, dois a dois… mas… se fossem sete, ao menos, talvez ficassem mais perto da verdade…

Ricardo, até aí bocejante e meio desinteressado de toda esta história, grita:

– Eu… eu acho que já sei! O número sete está aí, mas escondido: só o descobrimos
se brincarmos com as letras, se as pusermos a contar…

– Sim… mas… como fazemos isso?

– Ora, contando-as… – responde Ricardo, piscando o olho ao irmão.

– Contar outra vez as letras? Mas se são tantas… Que confusão…

– Não! Contamos as sílabas. Veem? Cada verso tem sete sílabas métricas. Portanto a resposta ao enigma não estará num livro em prosa, mas num livro de poesia, também de Almeida Garrett, é claro!

Tomás fez um ar contrafeito; não é que não gostasse de poesia: até gostava, e muito, mas não lhe apetecia nada abandonar, assim a meio, a sua viagem pelos olhos
 de Joaninha.

– Mas sabes quantos livros de poesia tem Almeida Garrett? Vamos lê-los todos?

– Bem… Eu até que nem me importaria – retorquiu Fá. – Não se está nada mal aqui.

 

Enquanto falavam, percorriam com os dedos a poesia de Almeida Garrett: Flores sem Fruto, Folhas Caídas, Camões (este livro, excluíram-no logo: o longo poema não tinha versos de sete sílabas), o Romanceiro

– E então? – dizia Tomás, voltando ao seu ar pragmático. – Não vamos ler estes poemas todos, pois não? É que assim nunca mais daqui saímos… E eu tenho uma festa de anos importante daqui a pouco. Lembra-te, Ricardo! Foi por isso que cá viemos.

Mas Ricardo já não o ouvia e fazia contas de cabeça:

– Já percebemos que tem de ser um poema de Garrett com sete sílabas métricas… mas há mais qualquer coisa… a rima… onde entra a rima? O que é que rima com “seta”?

Fá e Zinha começaram numa algaraviada à vez; as amigas eram especialistas em rimas:

– Pandeireta, estafeta, bicicleta, careta, sineta…

– É isso!!! – disse Ricardo.
– O quê? Sineta? Faz isso algum sentido? – Não. Catrineta. “Nau Catrineta.” É um dos mais conhecidos poemas populares que Almeida Garrett recolheu no Romanceiro, todo em redondilha maior.

– Em quê?!! – perguntaram os restantes, a uma voz.

– Em redondilha maior! Quer dizer que cada verso tem sete sílabas métricas.

Os quatro amigos abriram o livro e começaram a ler: “Lá vem a nau Catrineta/ Que tem muito que contar/ Ouvide agora, senhores/ Uma história de pasmar.”

– Sim, todos nós o conhecemos, desde pequeninos, mas o que é que isso ajuda ao mistério? – empertigava-se a Zá, sempre pispineta quando não percebia alguma coisa à primeira.

– Repara, aqui à frente: “Não vejo terras de Espanha/Nem praias de Portugal/Vejo sete espadas nuas/Que estão para te matar.”

– É isso! – gritaram os quatro entusiasmados. – Cá está o número sete, outra vez.

Ricardo, no entanto, impaciente, tamborilava os dedos:

– Peço-vos imensa desculpa, mas eu não continuo mais: eu tenho uma festa de anos. Tenho a Susana à minha espera, vou pagar e vou-me embora….

O irmão olhou para ele e parecia que os olhos pegavam fogo do entusiasmo.

– Mas o que foi, Tomás?

Quem escreveu

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Rita Taborda Duarte nasceu em Lisboa, a 26 de abril de 1973. Mestre em Teoria da Literatura, deu aulas no ensino superior e é, desde 2011, membro da Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 2004 publicou o seu primeiro livro infantil, A Verdadeira História de Alice, que foi distinguido com o Prémio Branquinho da Fonseca. A sua obra faz-se desde então entre a literatura para crianças, a poesia e as colaborações com as mais diversas publicações.

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Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada são autoras da inesquecível coleção Uma Aventura. Ana Maria Magalhães nasceu em Lisboa, a 14 de abril de 1946. É professora de História e Português. Isabel Alçada nasceu a 29 de maio de 1950, em Lisboa, e o seu pai era o grande contador de histórias da casa. Isabel Alçada tornou-se professora de Português e História em setembro de 1976. É neste ano que, à porta da Escola Fernando Pessoa, em Lisboa, conhece Ana Maria Magalhães. Ficaram amigas. Em 1982, depois de muito escreverem para os alunos, escreveram um primeiro livro: Uma Aventura na Cidade. Uma coleção que ainda hoje continua: o mais recente livro é Uma Aventura na Pousada Misteriosa.

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