Uma Aventura nas Páginas da Estante II

A Estante desafiou Maria João Lopo de Carvalho a continuar a misteriosa aventura iniciada na edição anterior por Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Pegando na pista de Fernando Pessoa avançada no primeiro capítulo, a autora introduz novos personagens e confere uma fantasia peculiar à história. Esta aventura a várias mãos será agora continuada por outros autores portugueses nas próximas edições da Estante.

De: Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada  |  Por: Maria João Lopo de Carvalho


 

II

(continuação)

– O número a vermelho? Enigma? Urgente desvendar? Mas qual número a vermelho? Não está aqui número nenhum.

– Estás maluco!!! – avisou o Ricardo, puxando o papel da mão do irmão. Agora é que te passaste de vez. Olha aqui!… – No entanto, algo de estranho se passara, os números que há menos de um minuto ali estavam tinham desaparecido ou, melhor, tinham-se transformado em dois gatafu- nhos, a somar aos da linha de cima. Virou o papel várias vezes, em várias direções, não havia dúvidas: “Máximo Segundo Rastrea- dor Profissional” a letras azuis e…

– Espera lá, és capaz de ter razão, afinal não são números, o que aqui diz é “conta as letras”.

– Conta as letras? Que anormalidade!

– Conta ou canta? – perguntou o Tomás. – Vá, não inventes.

– Conta. Tenho a certeza que isto é um “ó”. C-O-N-T-A – soletrou – Mas será “conta” de contar 1, 2, 3; ou “conta” de contar uma história?

– Bom, aqui onde estamos o mais provável é ser “conta” de contar uma história, só não sabemos qual história nem a que livro se refere. Estamos perdidos e elas – disse o Tomás, apontando com o queixo disfarçadamente em direção à caixa onde duas raparigas os fitavam com ar trocista – estão a gozar com a nossa cara.

– Pudera, e não é caso para menos. Pega lá na revista Estante e vamos ali para o fundo da livraria pensar melhor.

– Podemos ajudar? – perguntou uma das duas raparigas.

– Se souberem…

– Querem saber se vimos um tipo estranho de gabardine e cachecol antiquados, face lívida e com olhar de aço?

– Como é que adivinhaste?

– Ora, os rapazes têm sempre a mania que são espertinhos! Eu sou a Zinha e a minha amiga é a Fá. Nós somos fãs da revista Estante, colecionamo-la desde o primeiro

número e conseguimos resolver cada um dos enigmas… No entanto, este parece ser o mais complicado. Para já estão na pista errada. “Contar” é sempre contar 1, 2, 3. “Contar as letras” deve ser contar as letras do nome “Máximo” (seis letras) e do nome “Segundo” (sete letras), o que dá…

– 67! – adivinhou o Tomás. Sentaram-se os quatro num cantinho da livraria onde os bancos com almofadas coloridas convocavam à leitura. Quatro cabeças debruçaram-se sobre a revista, enquanto o Tomás a folheava até à página 67.

– Vês alguma coisa estranha? – perguntou o Ricardo.

– Edição de julho, verão, leitura.

– Esperem! – precipitou-se a Fá. –“Leitura”: sete letras.

Não foi preciso dizerem mais nada, em menos de sete segundos estavam os quatro em frente à estante número sete.

– E agora? – gemeu o Ricardo em desalento. – Só nesta estante estarão para aí uns 500 livros, é a maior estante da livraria.

– Claro, são romances. É sempre a estante maior. A palavra “romance” também tem sete letras. Estamos a seguir as pistas certas, a chave é o 7, está visto! – rematou a Fá.

O Ricardo tirou novamente o papel do bolso das calças. Ao pousar os olhos nas letras vermelhas soltou um grito nervoso. – Olhem para isto! Todas as letras se transformaram em setes. Juro que não fui eu!

– Será a sétima prateleira? Sete livros a contar de cima ou de baixo? Ou será o sétimo livro em cada prateleira? Não sabemos… – concluiu o Tomás.

– Vamos experimentar uma lógica qual- quer, a primeira que nos vier à cabeça – E a Fá pôs-se a contar as prateleiras: 1, 2, 3, 4, 5, 6 e… na sétima a contar de cima só havia romances estrangeiros

– Não me parece que o Máximo Segundo escolhesse este tipo de romances – rematou a Zinha. – Ele gosta é de escritores portugueses, disso tenho a certeza.

Enquanto isto, o Ricardo fazia nova contagem. – Descobri! Reparem: os romances portugueses ficam na sétima prateleira a contar do chão.

A Fá, sem perder tempo, começou a contar sete livros e tirou na estante o sétimo: Almeida Garrett, que sabia ser o primeiro escritor romântico em Portugal. Somou as letras do nome: Almeida Garrett, ou seja 7 + 7, e leu o título: Viagens na Minha Terra. Aquela edição, que saltara da estante, era muito antiga e estava coberta de pó. Na primeira folha vinha um nome: Fernando Pessoa. Aquele romance pertencera a Pessoa e não estava ali por acaso!

– Atchimmmmm! – espirrou, sacudindo o livro. – Parece que já há muito tempo ninguém lhe tocava.

– Abre na página 7, abre na página 7! – gritou a Zinha, impaciente.

– “Estas minhas interessantes viagens…” – leu em sobressalto.

– Para tudo! “Viagens” também tem sete letras! – conferiu o Tomás.

A Fá saltou algumas linhas e prosseguiu a leitura: “Primeiro que tudo a minha obra é um símbolo.”

– “Símbolo” tem sete letras. Viva!!

–“…que se mete hoje em tudo e com que se explica tudo… quanto se não sabe explicar”.

A Fá lia devagar e quando fez uma nova pausa, à procura de mais pistas, um homem minúsculo, de gabardine e cachecol fora de moda, saltou do livro e foi sentar-se de perna traçada na sétima prateleira da estante.

– Estava a ver que nunca mais aqui chegavam. Irra! Permitam que me apresente: Sou o Mínimo Segundo, aquele que, conforme leram,“se mete hoje em tudo e com que se explica tudo… quanto se não sabe explicar”. Bom – disse, sacudindo o pó da gabardine –, o Primeiro já não mora aqui há séculos. Sou o Mínimo Segundo e vivo nos romances, aliás como toda a família. Sou pequeno, claro que sou pequeno, se me chamo Mínimo queriam o quê? Que fosse um gigante? Mas esse, se existir, é na estante da literatura infantojuvenil!

Aquele ser saído da página 7 do livro, em tudo se parecia com o Máximo Segundo, menos no tamanho. Era o mesmo e inconfundível olhar de aço.

– Tam-tam-também és – gaguejou o Tomás – Rastreador Profissional?

– Isso é uma looooooooonga história…

Quem escreveu

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Maria João Lopo de Carvalho nasceu em Lisboa, a 15 de maio de 1962. Foi professora de Português e de Inglês e fundadora da Know How, empresa dedicada à edição de livros e ao ensino de línguas. Como escritora, alterna romances históricos com literatura infantojuvenil. É responsável, entre outros, pela popular coleção juvenil 7 Irmãos, escrita em parceria com Margarida Fonseca Santos.

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Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada são autoras da inesquecível coleção Uma Aventura. Ana Maria Magalhães nasceu em Lisboa, a 14 de abril de 1946. É professora de História e Português. Isabel Alçada nasceu a 29 de maio de 1950, em Lisboa, e o seu pai era o grande contador de histórias da casa. Isabel Alçada tornou-se professora de Português e História em setembro de 1976. É neste ano que, à porta da Escola Fernando Pessoa, em Lisboa, conhece Ana Maria Magalhães. Ficaram amigas. Em 1982, depois de muito escreverem para os alunos, escreveram um primeiro livro: Uma Aventura na Cidade. Uma coleção que ainda hoje continua: o próximo livro será Uma Aventura na Pousada Misteriosa.

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