Tintin: as histórias mais surpreendentes sobre o aventureiro belga

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Tintin nasceu há 90 anos, razão mais que perfeita para lembrarmos a história – e as histórias – do grande aventureiro da banda desenhada belga. Uma história que se confunde com a do seu criador, Hergé.

Tintin nasceu num jornal de extrema direita

As origens do mais popular explorador da banda desenhada belga são no mínimo polémicas, ou não tivesse Tintin sido apresentado aos leitores na edição de 10 de janeiro de 1929 do Le Petit Vingtième, o suplemento juvenil de um jornal conservador de extrema direita.

Hergé, o seu criador, era o editor do suplemento e, no seguimento de algumas experiências com um personagem chamado Totor – uma espécie de irmão mais velho de Tintin–, decidiu publicar de forma serializada uma aventura protagonizada pelo intrépido repórter.

Hergé queria que a primeira história de Tintin tivesse lugar nos Estados Unidos, mas o responsável do jornal exigiu que ele situasse a ação na União Soviética, a fim de transmitir aos jovens leitores os “horrores” do regime comunista. Foi assim que nasceu Tintin no País dos Sovietes, inegavelmente uma peça de propaganda que, contudo, se revelou extremamente popular entre o público, ao ponto de justificar a continuação das aventuras.

Portugal foi o primeiro país a traduzir e colorir as histórias de Tintin

Ao terceiro livro, após uma incursão (também muito polémica) pelo Congo, Hergé conseguiu finalmente que lhe permitissem a publicação de uma aventura de Tintin nos Estados Unidos. O ilustrador procurou denunciar a forma negativa como as comunidades indígenas eram tratadas pelo governo americano, mas o responsável do seu jornal interveio uma vez mais e exigiu que Hergé introduzisse na história uma condenação do capitalismo e consumismo americanos.

Propaganda política à parte, Tintin na América foi mais um lançamento de sucesso ao ponto de conquistar Portugal, que se tornou o primeiro país do mundo a traduzir as histórias de Tintin – até então estas eram publicadas somente em países francófonos. Aconteceu na edição de 16 de abril de 1936 da revista infantojuvenil O Papagaio que publicou a narrativa com o título “As Aventuras de Tim-Tim na América do Norte”. Portugal tornou-se, em simultâneo, o primeiro país a publicar as histórias de Tintin a cores, facto que encantou o próprio Hergé.

Tintin começou a Segunda Guerra Mundial com uma polémica antissemita

Após a ocupação nazi da Bélgica no arranque da Segunda Guerra Mundial, a publicação onde Hergé trabalhava foi encerrada, levando o autor a mudar-se para o Le Soir, um jornal gerido por alemães. Foi aqui que continuou a publicar as aventuras de Tintin, embora sob um ainda mais estrito controlo do que anteriormente.

É neste difícil contexto que é publicada a história O Caranguejo das Tenazes de Ouro, que marca a primeira aparição do Capitão Haddock, mas a aventura na qual conseguimos perceber uma maior “sujeição” de Hergé às forças do Eixo até será A Estrela Misteriosa.

Originalmente publicado a cores (pela primeira vez) e com 62 páginas (formato que se tornaria o padrão da série), o livro fala de um meteorito que cai na Terra, desencadeando uma corrida desenfreada pela sua posse. O problema é que, ao longo da narrativa, existem piadas e comentários alegadamente antissemitas, refletindo o sentimento geral da época.

Sobre a polémica que isto haveria de causar no pós-guerra, Hergé viria a dizer: “Tudo o que fiz foi apresentar um vilão com uma aparência semita e um nome judeu – Blumenstein. Isso significa que houve antissemitismo da minha parte?”

Hergé foi preso no interregno forçado de uma história

Chama-se As Sete Bolas de Cristal e é um dos mais elogiados livros de Tintin, funcionando também como primeira metade de um arco encerrado em 1949 com O Templo do Sol. Mas precisou de quatro anos e meio para ser terminado. E as razões não podiam ser mais turbulentas.

Hergé começou a publicar a história no Le Soir, de forma serializada, em dezembro de 1943. Contudo, em meados de 1944, viu-se forçado a fazer uma pausa. Sentia-se doente, exausto, deprimido. Acima de tudo temia pelo seu futuro numa altura em que o fim da guerra parecia iminente e a Resistência Belga abrira a “caça” a todos aqueles que entendia terem colaborado com os nazis durante a ocupação do país. De facto, com a libertação de Bruxelas, o Le Soir foi imediatamente extinguido e Hergé foi detido sob suspeita de traição.

Acabou, contudo, por ser libertado e eventualmente o seu talento reconquistou-lhe um lugar na comunicação. Tudo porque um homem chamado Raymond Leblanc decidiu começar uma revista para jovens “dos 7 aos 77 anos” e chamar-lhe Tintin– “[porque] todas as pessoas conheciam aquele personagem naquele momento”. Como não podia deixar de ser, chamou Hergé para o ajudar na tarefa. Foi nesta revista que o autor retomou a história, terminando-a em abril de 1948.

Tintin no Tibete
Edição original: Tintin au Tibet

O livro preferido de Hergé era Tintin no Tibete

Originalmente publicada entre 1958 e 1959 na revistaTintin, a 20.ª aventura do repórter belga é uma das mais elogiadas de todos os tempos, inclusive pelo Dalai Lama, que elogiou a “sensação de beleza que flui do livro”, bem como a “fantástica história” e os “belíssimos” desenhos. Mas o principal fã de Tintin no Tibete era mesmo o seu autor.

Acontece que Hergé começou a desenvolver a história enquanto combatia um esgotamento psicológico, motivado pela decisão de se separar da mulher com quem estava casado há mais de 25 anos para se juntar a uma jovem colorista do seu estúdio com quem mantinha um caso extraconjugal. Assombrado por pesadelos, Hergé acabou por se refugiar na escrita do livro. Tintin no Tibete haveria de se tornar a sua obra mais pessoal de sempre ou, como o próprio autor a haveria de descrever, uma obra sobre novos inícios.

Hergé deixou a última aventura de Tintin por terminar

“Infelizmente não posso falar muito sobre a próxima aventura de Tintin porque, embora a tenha iniciado há três anos, não tenho tido muito tempo para trabalhar nela e ainda não sei como vai ficar”, disse Hergé sobre Tintin e a Alph-Art, a 24.ª e última peripécia do repórter belga, cerca de três meses antes de morrer. Quando, no dia 3 de março de 1983, soltou o último suspiro após uma paragem cardiorrespiratória, deixou um rascunho a lápis de aproximadamente 150 páginas que esboçam uma aventura de Tintin e companheiros no mundo da arte moderna.

Hergé não chegou a fechar a narrativa, que termina com um cliffhanger, e apesar de vários artistas se terem oferecido para a concluir, a viúva de Hergé optou por publicar o livro incompleto. Até porque o autor deixou sempre claro que queria que Tintin morresse com ele: “Depois de mim não haverá mais Tintin. Ele é a minha criação – o meu sangue, o meu suor, as minhas entranhas.”

Por: Tiago Matos

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