Thrillers psicológicos:
na cabeça de uma mente instável

O thriller psicológico é um dos géneros mais populares do momento, tendo inspirado o surgimento de uma nova vaga de autores de narrativas negras e intimistas.

É tudo uma questão de foco. Há anos que o thriller psicológico marca presença nas livrarias, em narrativas situadas algures entre o mistério e o horror. Em vez de se focarem na ação, centram-se nas alterações emocionais e no estado psicológico dos personagens. Permitem desta forma aos leitores ocupar por instantes as mais complexas e perturbadas mentes. Estão, ao mesmo tempo, recheados de surpresas, fazendo uso de reviravoltas inesperadas e vozes narrativas não confiáveis para manter os leitores em permanente expectativa.

Tão frequente na literatura como no cinema, o género disparou em popularidade nos últimos anos, muito graças ao fenómeno que foi Em Parte Incerta. Mostrando-se tão capaz de agradar à crítica como ao público, o terceiro livro de Gillian Flynn dá-nos a conhecer um casamento disfuncional, alternando pontos de vista narrativos entre marido e mulher. Assumindo como gancho o mistério do desaparecimento da referida mulher (complementado pelo comportamento suspeito do marido), o livro explora na verdade as possíveis consequências de um relacionamento de longo prazo.

Gillian Flynn não é, contudo, uma estreante no que diz respeito a thrillers psicológicos. Os seus dois anteriores livros, Objetos Cortantes e Lugares Escuros, assumem o mesmo foco interno, fazendo da americana uma das principais referências modernas do género.

Antes de Em Parte Incerta 

Mas se o terceiro livro de Gillian Flynn ajudou a estabelecer o thriller psicológico como uma das principais tendências da literatura atual, a verdade é que há muito que o género marca presença nas livrarias. Autores como Chuck Palahniuk, Bret Easton Ellis e A. M. Homes, já para não falar de clássicos como Edgar Allan Poe, contam com vários thrillers psicológicos nas respetivas bibliografias. O que os distingue da nova vaga de autores que surgiram com Gillian Flynn, ou pouco antes desta, é que estes têm transportado o género quase exclusivamente para a vida doméstica, assumindo como premissa a ideia de que qualquer pessoa pode perder a cabeça.

Um bom exemplo disto é No Canto Mais Escuro, de Elizabeth Haynes. A protagonista do romance é uma jovem que se deixa arrebatar pela beleza e carisma de um homem e acaba por se subjugar a ele. Mesmo quando consegue enfim escapar da relação, ele persegue-a, deixando-a num estado permanente de terror. Reflexo das muitas relações abusivas que existem no mundo, o primeiro livro de Haynes demonstra igualmente a fragilidade da mente humana.

Também muito ativos no mundo dos thrillers psicológicos estão Nicci Gerrard e Sean French, casal de ingleses que escrevem juntos sob o pseudónimo Nicci French. Destaque-se, por exemplo, o seu Segunda-Feira Triste, no qual uma psicoterapeuta quase enlouquece por achar que um dos seus pacientes pode ter sequestrado uma criança.

Outro nome a reter é o de S. J. Watson, autor responsável pela escrita de Antes de Adormecer, sobre uma mulher que perde a memória todas as noites e deixa de saber em quem confiar, e Segunda Vida, história de uma esposa e mãe dedicada que se envolve com um estranho na Internet.

Depois de Em Parte Incerta

Junho de 2012. Em Parte Incerta chega ao topo de todas as listas de livros, reabrindo a porta dos thrillers psicológicos ao grande público. Atenta ao fenómeno, a indústria literária lança-se em busca do seu sucessor. Três anos depois, surge Paula Hawkins.

Depois de escrever quatro romances mais “ligeiros” sob o pseudónimo Amy Silver, a britânica publicou A Rapariga no Comboio, centrado numa mulher desempregada, que bebe demais e não consegue ultrapassar a relação falhada com o ex-namorado. Nas suas viagens diárias de comboio, esta mulher afeiçoa-se a um casal aparentemente perfeito, que observa de longe, mas o hábito acaba por a arrastar para uma realidade negra na qual é forçada a confrontar os seus próprios medos. Anunciado como “o novo Em Parte Incerta”, o primeiro romance assinado por Paula Hawkins foi um bestseller imediato, tendo batido recordes de vendas um pouco por todo o mundo.

Mas A Rapariga no Comboio não foi o único livro comparado à obra de Gillian Flynn. A Mulher Silenciosa, romance de estreia de A. S. A. Harrison, publicado pouco antes da sua morte, move-se pelos cenários habituais do thriller psicológico: um casamento destroçado, pontos de vista distintos e pessoas dispostas a tudo para retomar o controlo das suas vidas.

Nos novos talentos do género, há ainda que destacar o nome de Mary Kubica que, com apenas dois romances – Vidas Roubadas e Não Digas Nada –, já se assumiu como uma das maiores referências na escrita destas narrativas claustrofóbicas sobre mentes torturadas.


Por: Tiago Matos

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