Thrillers, magia e vampiros: As tendências que marcaram 20 anos de livros

thrillers-magia-vampiros-revista-estante-fnac

No ano em que a FNAC completa duas décadas em Portugal, damos um salto até ao futuro e arriscamos antever o que as gerações vindouras pensarão sobre os livros que temos lido.

Ler é uma espécie de magia. Num momento estamos em casa, recostados no sofá, com um livro aberto nas mãos, e logo a seguir investigamos um assassinato, entoamos estranhos feitiços, voamos no dorso de um dragão. Palavras escritas há mais de uma centena de anos falam-nos de um coelho branco, vestido com um colete, com os olhos ansiosos postos num relógio de bolso e, embora nunca tenhamos visto semelhante criatura, sentimos que, se esticarmos o braço, lhe conseguiremos tocar no pelo.

Estes saltos no espaço e no tempo? São magia.

Vamos testar esta teoria. Fecha os olhos durante alguns segundos e procura abstrair-te de todos os sons e movimentos que te rodeiam. Depois respira fundo e volta a concentrar-te nas palavras desta página. Experimenta ver através delas, como numa bola de cristal. Eis que, num piscar de olhos, deixas de estar em 2018 e aterras no ano de 2198. Magia.

Eis as notícias. Marte tem uma colónia cada vez mais ativa de humanos. O teletransporte tornou-se uma realidade. Os robôs são agora parte integrante – e fundamental – da sociedade. A FNAC celebra 200 anos em Portugal e assinala-o com um texto que é também um olhar nostálgico a alguns dos livros para crianças, jovens e adultos que marcaram os seus primeiros anos de existência.

Perguntas-te: que títulos terão passado o teste do tempo e perdurado, como que por magia, na história da literatura?

Decides continuar a ler.

THRILLERS QUE AGITARAM O PASSADO

Contado ninguém acredita, mas no início do século XXI””• a arte era produzida por mãos humanas. A inteligência artificial dava então os primeiros passos: em 2017, Ahmed Elgammal alimentava um algoritmo com dezenas de milhares de pinturas antigas e observava-o criar obras inéditas, desenvolvendo aos poucos um novo sentido estético. Quase em simultâneo, arrancava uma das mais importantes correntes artísticas de todos os tempos: o movimento emoji.

E, contudo, vá-se lá saber porquê, os nossos ancestrais pareciam mais entretidos em descobrir se a figura sentada à direita de Jesus numa pintura chamada A Última Ceia, de Leonardo Da Vinci, era um homem ou uma mulher.

Como bem sabemos, a curiosidade aguça a paranoia. E as teorias de conspiração deviam ser tantas que o americano Dan Brown não esteve por meias medidas e decidiu escrever um livro sobre o assunto. Em O Código Da Vinci, um perito em quebra-cabeças oferece a sua solução para o problema, com muitas reviravoltas e sobressaltos pelo caminho.

O livro revelou-se um enorme sucesso, vendendo mais de 80 milhões de exemplares, e teve o condão de popularizar os thrillers de ação. Seguiram-se novos bestsellers sobre arte, ciência, religião e organizações secretas, e alinharam no género escritores como Daniel Silva, David Baldacci e José Rodrigues dos Santos. Muito provavelmente sem desconfiar que, no século XXII””, muitos dos seus livros seriam adaptados à realidade virtual, sendo agora possível vivê-los na primeira pessoa em experiências para adultos que são física e intelectualmente repletas de emoção.

THRILLERS QUE ESPELHARAM OS MEDOS

Em 2198 vivemos em paz. A colonização espacial permitiu-nos reduzir a população de cada planeta, repartindo mais condignamente os seus recursos. O aquecimento global foi revertido através da reeducação de consumos e da proliferação de energias renováveis. Continuam a existir desigualdades, é claro, mas as maiores fontes de preocupação acabam por ser os impostos aplicados aos nossos robôs.

Há 200 anos não era assim. O mundo tinha uma grande inquietação: as mulheres estavam constantemente em perigo de desaparecer.

Pelo menos é isto que podemos concluir de livros como Em Parte Incerta, de Gillian Flynn, e A Rapariga no Comboio, de Paula Hawkins, dois fenómenos literários sobre mulheres desaparecidas – e relacionamentos decadentes – que consolidaram no mercado editorial o chamado thriller psicológico, uma espécie de policial focado em conflitos internos.

Cedo as livrarias encheram-se de autores que inseriam os leitores nas mais instáveis mentes, como Elizabeth Haynes, S. J. Watson, Mary Kubica, B. A. Paris, J. P. Delaney e Gin Phillips.

Os nossos antepassados lidavam deste modo com as ansiedades que sentiam em relação aos entes queridos, ao estado do casamento e à sua própria sanidade mental.

Hoje contamos com robôs psicólogos para tarefas como essas.

MAGIA QUE CONQUISTOU OS MAIS NOVOS

Quando a inglesa J. K. Rowling escreveu Harry Potter e a Pedra Filosofal, o primeiro volume de uma série que relata as aventuras de um jovem feiticeiro na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, estaria longe de imaginar que construía os alicerces de uma das mais populares e consensuais religiões do século ””••: o potterianismo.

A verdade é que a saga teve um grande impacto desde o primeiro momento, ou não tivesse vendido cerca de 500 milhões de exemplares nos primeiros 20 anos de existência. Inspirou ainda a criação de filmes, spin-offs, peças de teatro, videojogos e parques de diversões.

Mais: nessa altura os livros ainda precisavam de ser manualmente traduzidos – a tecnologia não estava desenvolvida ao ponto de dotar os leitores de um conhecimento imediato de qualquer língua do mundo – e a saga foi transposta para mais de 80 idiomas. Um verdadeiro feito.

Outra curiosidade digna de nota: no início do século ””•XXI parecia existir uma obsessão com a digitalização, e em 2010 uma empresa chamada Google decidiu passar todos os 130 milhões de livros do mundo para formato digital. No entanto, e embora os ficheiros ocupassem apenas 372 terabytes de espaço, as pessoas continuaram – e continuam – a reconhecer um encanto especial nos livros em papel. Por isso os manuscritos originais da saga, hoje com mais de 200 anos de vida, continuam expostos no Museu de King’s Cross, em Londres.

Quanto ao potterianismo, as suas filosofias de preservação eterna do encanto de criança, bem como de resiliência face às adversidades e de melhoramento contínuo das nossas capacidades, têm-se revelado benéficas para a sociedade moderna. Expelliarmus!

VAMPIROS QUE APAIXONARAM OS JOVENS ADULTOS

Entre 2005 e 2008, alguns jovens interessaram-se seriamente pelos efeitos dos relacionamentos amorosos entre humanos e vampiros. Crepúsculo, uma tetralogia escrita pela americana Stephenie Meyer, conta precisamente a história de uma adolescente que se apaixona por um vampiro e acaba por se ver envolvida num triângulo amoroso com um lobisomem.

Os nossos registos indicam que estes livros não foram especialmente bem acolhidos pela crítica da época, mas a influência que tiveram no mercado editorial é inegável: foram mais de 120 milhões de exemplares vendidos, já para não falar de cinco adaptações ao cinema. Chegou inclusive a falar-se do “Efeito Crepúsculo” para explicar o aumento de quase 20% nas vendas de livros de fantasia e ficção científica entre jovens.

O fenómeno levou gradualmente à consolidação de um novo género: o Young Adult. E neste começaram por se destacar as distopias, que imaginavam futuros sombrios.

Foi o caso de Os Jogos da Fome, uma trilogia de Suzanne Collins passada num mundo onde, todos os anos, jovens de vários distritos são escolhidos para participar numa batalha até à morte, acompanhada como se se tratasse de um reality showDivergente (Veronica Roth) e Maze Runner (James Dashner) foram outras distopias de sucesso escritas a pensar em leitores jovens adultos.

Mas gradualmente os mais velhos também se viram arrastados pela tendência. As distopias, no geral, voltaram a ser populares, com os clássicos de George Orwell (1984, A Quinta dos Animais), Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo) e Margaret Atwood (A História de Uma Serva) a regressarem à ordem do dia.

Sabemos hoje, na segurança de 2198, que as sombrias previsões destes livros não se concretizaram. Mas podemos especular: terá sido precisamente porque estas distopias mantiveram os nossos antepassados vigilantes?

O que diriam eles de nós? Provavelmente estranhariam saber-nos com uma esperança média de vida na casa dos 150 anos – o vampiro protagonista de Crepúsculo, por exemplo, tem apenas 104 e já é considerado “antigo”.

Quem sabe o que pensariam realmente de nós.

Por: Tiago Matos
Ilustração: João Maio Pinto

Gostou? Partilhe este artigo: