A terra como ponto de partida

No Dia Mundial da Terra, descubra alguns romances que a celebram, tendo-a como principal motivadora da ação.

Subgénero obscuro da ficção, o romance rural tem já uma longa história, fazendo-se notar particularmente na literatura anglo-saxónica. À primeira vista pode parecer algo semelhante ao tradicional gótico sulista, no entanto o romance rural assume um formato um pouco mais rígido: é geralmente passado em cenários campestres, sejam eles quintas ou pequenas aldeias, e é protagonizado por agricultores ou personagens que tenham uma forte ligação pessoal ou profissional à terra. A terra surge, de resto, quase como um personagem por si próprio e os enredos refletem-no, demonstrando os benefícios e prejuízos de uma vida passada no campo. Numa altura em que as preocupações ambientais estão na ordem do dia, porque não passar algum tempo a descobrir algumas destas narrativas onde a natureza é figura de proa?

Vidas que pertencem ao campo

Com um discurso ao jeito de Cormac McCarthy ou, a espaços, John Steinbeck, cru mas poético e muitas vezes desprovido de adereços (como marcas de diálogo), o galês Cynan Jones escreveu um dos principais romances rurais dos últimos anos: A Cova. A narrativa é dividida entre dois “vizinhos”, residentes no interior rural do País de Gales: o primeiro é um lavrador em luto que se dedica a tempo inteiro a cuidar da sua quinta, ajudando as ovelhas a parirem e respeitando religiosamente o ciclo das estações do ano; o segundo um homem violento que caça (ilegalmente) texugos para depois os vender a fim de serem torturados. Nas entrelinhas do encontro entre estes dois distintos homens solitários acha-se não só uma reflexão sobre o estado da agricultura moderna mas um apanhado dos desafios por que passam as pessoas que decidem dedicar as vidas ao campo.

Outro romance que trata deste dilema é Stoner, de John Williams. Aqui, um jovem agricultor do Missouri é enviado pelos pais para a universidade a fim de se formar em Agricultura, mas deixa-se encantar pelos livros e artes com que se depara e decide mudar de curso. E de vida.

Livros que valorizam a natureza

O contraste entre o campo e a cidade é um dos motivos mais frequentes dos romances rurais. Não é, por isso, de estranhar que existam vários títulos que, em vez de se centrarem em pessoas nascidas e criadas no campo, sejam protagonizados por pessoas que lá chegam a partir da cidade. É o caso de How I Live Now, de Meg Rosoff, onde uma adolescente é enviada pelo pai para viver com primos que nunca conheceu numa vila recôndita de Inglaterra. Ou de Cold Comfort Farm, de Stella Gibbons, uma paródia à vida rural centrada numa jovem londrina que decide fazer uma longa visita à quinta dos parentes distantes. Em ambos os casos, acentuam-se os contrastes destas distintas formas de estar.

Outro dos temas habituais deste género de livros é a subvalorização da natureza. É disto exemplo, embora com um tom um pouco diferente dos títulos referidos acima, assumidamente mais alegórico, é O Homem Que Plantava Árvores, de Jean Giono. Originalmente publicado em 1953, conta a história de um pastor francês e do seu solitário e demorado esforço para reflorestar um vale deserto na zona dos Alpes. É tido por muitos como uma das principais referências da literatura no que diz respeito à proteção do ambiente.


Por: Tiago Matos

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