Temos de falar sobre o novo livro de Harry Potter

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Harry Potter and the Cursed Child
Parts I & II

J. K. Rowling, Jack Thorne e John Tiffany

Estás prestes a começar a ler o mais recente volume da saga de Harry Potter, intitulado Harry Potter and the Cursed Child

Ainda cheira a novo, não é? Antes de o abrires, ficas alguns segundos a admirar a capa. É amarela e substancialmente diferente de todos os livros anteriores, apresentando ao centro um único elemento: uma criança encolhida numa espécie de ninho escuro e com asas. A tua única certeza é que este não é o Harry Potter – o rosto pré-adolescente de Daniel Radcliffe surge-te na memória, como que a comprová-lo – e por isso decides que provavelmente se tratará da “criança amaldiçoada” que é referida no título. Talvez o filho de Harry Potter? Recordas-te de ler algures que este novo livro estaria centrado nele. Como é mesmo o seu nome?

Enquanto pensas nisto, salta-te à vista o nome de J. K. Rowling. É estranho. Pela primeira vez, surge na capa acompanhado por outros, os de John Tiffany e Jack Thorne. Estes nomes não te dizem nada, mas como gostas de te manter devidamente informado e fica sempre bem saber estas coisas, decides fazer uma pesquisa rápida na Internet. Eis o primeiro: John Tiffany. Inglês. Diretor de teatro. Multipremiado. E o segundo: Jack Thorne. Também inglês. Guionista de rádio, cinema, teatro e televisão. Escritor de séries como Skins e Shameless.

Só que ainda não estás satisfeito. Dás por ti a pensar: porquê? O que terá levado a “mãe” de Harry Potter a escolher estes dois homens dos quais nunca ouviste falar para partilhar a sua mais preciosa criação?

Decides ir um pouco mais longe na tua pesquisa e descobres que os percursos de J. K. Rowling e John Tiffany se cruzaram pela primeira vez há mais de vinte anos, quando ambos frequentavam o café do Traverse Theatre, em Edimburgo. A autora deslocava-se lá para escrever o rascunho do que haveria de se tornar Harry Potter e a Pedra Filosofal e o diretor dava os primeiros passos numa carreira de sucesso que o levou a ser chamado quando foi enfim decidido, em 2013, adaptar a história do jovem feiticeiro ao teatro.

Tiffany tinha uma única exigência: trabalhar com o guionista Jack Thorne, um fã entusiasta de Harry Potter. E assim se juntaram John, Jack e Joanne – é este o primeiro nome de Rowling – para discutir ideias.

Começaram por estabelecer que não fariam uma prequela – a narrativa continuaria a partir da última cena de Harry Potter e os Talismãs da Morte, 19 anos depois dos principais eventos da saga. Decidida a história, Thorne ficaria responsável pela escrita do guião e Tiffany prepará-lo-ia para o palco.

Para o palco. Pois é. Com tanto entusiasmo quase te esqueceste, mas o livro de capa amarela deitado ao teu lado esconde o guião de uma peça e não uma narrativa em prosa, como os anteriores. É o que comprovas enquanto o folheias – muito rapidamente, para não leres por engano algo que ainda não é suposto saberes. Depois posicionas-te estrategicamente na página onde a história se inicia e deixas-te imergir por completo na leitura.

Albus Severus Potter. É esse o nome do filho de Harry. Albus. Uma homenagem a Dumbledore.

E a tua impressão estava correta: ele é o herói da história. Começas por acompanhar a sua entrada em Hogwarts, a mesma escola de magia que o pai frequentou. Mas Albus não é como o pai. A difícil relação entre ambos é, aliás, um dos principais destaques da história. Surpreendes-te depois com a amizade que Albus cria com Scorpius, o filho de Draco Malfoy, outrora um inimigo de peso de Harry. É impressionante como as coisas mudam com o tempo.

Harry Potter é agora um funcionário do Ministério da Magia. Tal como Hermione Granger, que faz parte do Departamento de Execução das Leis da Magia. Ron Weasley, por sua vez, seguiu os passos dos irmãos e gere uma loja de brincadeiras.

Quando a poeira assenta e te habituas às mudanças, apercebes-te da saudade que sentiste destes personagens. Revives o que inicialmente te atraiu para a saga. E abraças esta nova geração, tal como a anterior, porque sentes que é um novo ciclo que se inicia.

Será esta uma suposição aproximada da realidade?

Afinal quem és tu, leitor? Terás conhecido Harry e os seus amigos de Hogwarts quando ainda eras pequeno? Ou deixaste-te encantar já na idade adulta, talvez por influência de filhos ou irmãos mais novos? Devoraste religiosamente todos os livros? Ou familiarizaste-te com as histórias através dos filmes? Compreendes todas as referências? És um leitor mais casual? Temos de falar sobre o novo livro de Harry Potter. Sobre o que significa para ti.

Na Inglaterra está a ser uma loucura. Os principais órgãos de comunicação concordam que a peça é fantástica, isto apesar das altíssimas expectativas que carregava. O público alinhou. Os bilhetes estão esgotados até 2017. Um feito particularmente admirável se considerarmos que se trata de uma peça dividida em duas exibições, com duração total de cinco horas. (O livro reúne as duas partes num único volume.)

Regra geral, um evento precisa de estar envolto em polémica para ter tanta procura. Mas embora a escolha de Noma Dumezweni, uma atriz negra, para o papel de Hermione tenha dado que falar, aqui o segredo do sucesso chama-se nostalgia.

Quando J. K. Rowling publicou o primeiro livro da saga, em 1997, apresentou-nos um mundo paralelo, repleto de feitiços bizarros e criaturas fantásticas. Mas fê-lo da forma mais realista e identificável possível. Todos conhecemos intimamente o desconforto que sente Harry Potter – e agora Albus – ao tentar integrar-se num lugar novo. A forma como procura reagir com aparente naturalidade às mais estranhas situações. Todos temos na vida pessoas sábias (Dumbledore), intransigentes (Snape), ingénuas (Neville Longbottom), sabichonas (Hermione), amistosas (Ron) e sombrias (Draco). Mesmo que nunca tenhamos pegado numa varinha e não consigamos sequer pronunciar corretamente “Expelliarmus”, conhecemos o peso que podem ter as expectativas depositadas sobre nós. E desconfiamos que algures, no escuro, existem mesmo perigos cujo-nome-não-pode-ser-pronunciado.

Verbalizando todas estas realidades numa divertida narrativa de ficção, Rowling conquistou miúdos e graúdos. Vendeu mais de 450 milhões de livros – a saga é a mais vendida de todos os tempos. Fez-nos criar laços com os personagens. Tornaram-se quase como amigos.

Nove anos decorridos desde Harry Potter e os Talismãs da Morte, temos saudades destes nossos amigos. Há demasiado tempo que não temos notícias deles. Queremos retomar o contacto. Saber o que têm feito. É isto que podemos esperar de Harry Potter and the Cursed Child. E se os teatros londrinos estão longe, felizmente há livrarias por todo o lado.


Por: Tiago Matos

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