Tartarugas, bilionários e doenças mentais: o regresso de John Green

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Primeiras palavras
“Na altura em que me apercebi pela primeira vez de que talvez fosse ficcional, os meus dias de semana eram passados numa instituição publicamente subsidiada na zona norte de Indianápolis, chamada Escola Secundária White River, onde me era requerido que almoçasse a uma hora específica – entre as 12h37 e as 13h14 – por forças tão maiores do que eu que nem sequer era capaz de começar a identificá-las.”

Na introdução do seu livro Breve História do Tempo, Stephen Hawking, um dos mais reputados cientistas da atualidade, conta uma história que vale a pena replicar aqui:

“Um conhecido homem de ciência (segundo as más línguas, Bertrand Russell) deu uma vez uma conferência sobre astronomia. Descreveu como a Terra orbita em volta do Sol e como o Sol, por sua vez, orbita em redor do centro de um vasto conjunto de estrelas que constitui a nossa galáxia. No fim da conferência, uma velhinha, no fundo da sala, levantou-se e disse: ‘O que o senhor nos disse é um disparate. O mundo não passa de um prato achatado equilibrado nas costas de uma tartaruga gigante.’ O cientista sorriu com ar superior e retorquiu com outra pergunta: ‘E onde se apoia a tartaruga?’ A velhinha então exclamou: ‘Você é um jovem muito inteligente, mas são tudo tartarugas por aí abaixo!’”

Não é um caso único. A mesma teoria é parcialmente incorporada por Terry Pratchett na célebre saga Discworld, passada num mundo em forma de disco que é carregado por quatro gigantescos elefantes que, por sua vez, são suportados por uma colossal tartaruga.

E é com tudo isto em mente que chegamos ao novo romance de John Green.

É que, embora o título escolhido para a edição portuguesa tenha sido Mil Vezes Adeus, o título original do livro é Turtles All the Way Down. As tais “tartarugas por aí abaixo”, em tradução direta. E é este o foco da narrativa. Mesmo que, à partida, não pareça.


Penso: Nunca mais te vais ver livre disto. Penso: Não escolhes os teus pensamentos. Penso: Estás a morrer e há micróbios dentro de ti que te vão comer até à pele. Penso e penso e penso.


UM ENIGMA COMO PRETEXTO

Mil Vezes Adeus começa à boa maneira de um qualquer mistério juvenil: um bilionário desaparece, envolto em acusações de fraude e chantagem, e é anunciada uma recompensa de 100 mil dólares para quem o encontrar. Eis a deixa para a entrada na investigação de Aza Holmes, a adolescente que nos serve de narradora, e Daisy, a sua melhor amiga.

Só que este não é apenas um livro de mistério.

A investigação conduz as duas amigas à mansão onde vivia o bilionário desaparecido. E lá deparam-se com Davis, o filho do dito bilionário, que ainda não se havia recomposto da perda da mãe e agora tem de lidar com o desaparecimento do pai e com o facto de este deixar toda a sua fortuna ao animal de estimação, um lagarto, no testamento. Apesar de focada na investigação, Aza não consegue evitar sentir-se atraída pelo rapaz.

Só que este não é apenas um livro de romance.

Porque Aza lida com problemas maiores. “Espirais de pensamentos”, como a própria refere. Na verdade, Aza sofre com um transtorno obsessivo-compulsivo que lhe provoca crises de ansiedade extrema. Não é sequer capaz de pensar num beijo sem se preocupar com os 80 milhões de micróbios trocados no processo. As suas ansiedades, por mais insignificantes que possam parecer, invadem-na ao ponto de não conseguir pensar noutra coisa. São ansiedades por aí abaixo. Como as tartarugas.

Porque este é, acima de tudo, um livro sobre doença mental. Um tema que John Green conhece particularmente bem.

O autor de romances como A Culpa é das Estrelas e Cidades de Papel nunca escondeu que tem um transtorno obsessivo-compulsivo. No Reddit descreveu as dificuldades que enfrenta na sua rotina. No Twitter declarou que, à semelhança de milhões de outras pessoas, toma medicação para tratar a doença mental. E no Tumblr chegou inclusive a oferecer conselhos para lidar com o problema.

É bem possível que Mil Vezes Adeus seja o romance mais pessoal de John Green até hoje. Mesmo que não o fosse, vale pela complexidade da história – nem sempre encontrada em livros destinados a jovens adultos –, pela diversidade de ângulos que promete agradar a vários tipos de leitores e por nos ajudar a descobrir as tartarugas que se multiplicam “por aí abaixo” nas cabeças de todas as pessoas que tentam viver vidas normais enquanto sofrem de ansiedade extrema.


Por: Tiago Matos

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