Svetlana Alexievich: a bielorussa que não morre

 

Svetlana Alexievich

Naturalidade
Ivano-Frankivsk, Ucrânia (antiga URSS)

Data de nascimento
31 de maio de 1948

Primeira obra publicada

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher (1985)

 

 

 

 

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher
A Guerra Não Tem Rosto de Mulher

 

 

Rapazes de Zinco

Rapazes de Zinco

 

 

Vozes de Chernobyl

Vozes de Chernobyl

 

 

O-Fim-do-Homem-Sovietico
O Fim do Homem Soviético

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os elogios da Academia Sueca
Quando Svetlana Alexievich conquistou o Nobel de Literatura, em 2015, a Academia Sueca frisou: “Nos últimos 30 ou 40 anos, ela tem estado ocupada a mapear o indivíduo soviético e pós-soviético. Mas não se trata de uma história de eventos. É uma história de emoções.” A vitória, explicaram ainda os jurados, deveu-se à “sua escrita polifónica, um monumento ao sofrimento e coragem do nosso tempo”.

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Está viva e de boa saúde a repórter de investigação que entrevistou centenas de pessoas para obras como Vozes de Chernobyl ou Rapazes de Zinco. E ainda tem muito para concretizar.

Estava tranquilamente na sua casa em Minsk, na Bielorrússia, quando o telefone tocou. A chamada, nesse inesquecível 8 de outubro de 2015, vinha de Estocolmo, na Suécia. Há anos que ecoavam burburinhos de que Svetlana Alexievich estaria a ser considerada para um prémio Nobel de Literatura, mas a autora não acreditava que tal fosse possível – até porque, desde 1953, com Winston Churchill, que ninguém ligado à não ficção conquistava essa distinção. Mas estava enganada. O telefonema vinha, precisamente, da Academia Sueca, que acabara de lhe atribuir o Nobel de Literatura.

Toda a vida se afirmou como repórter de investigação, mas escrever livros sempre foi para si um desafio, um estímulo. Embora, no início, não estivesse certa do estilo e da voz que queria empregar às suas palavras. “Estive à procura de um método literário que me permitisse a maior aproximação possível à vida real. A realidade sempre me atraiu como um íman, torturou-me e hipnotizou-me, e eu queria capturá-la em papel”, explicou um dia.

Inspirada pelo escritor bielorrusso Ales Adamovich, que considera o seu “mestre”, Svetlana começou a aliar as suas raízes jornalísticas à vontade de escrever livros, trazendo até nós histórias reais através de centenas de poderosos testemunhos, confissões e documentos. Nasceu assim o chamado “romance de vozes”.


“É assim que eu ouço e vejo o mundo – como um coro de vozes individuais e como uma colagem de detalhes do dia a dia. Desta forma, consigo ser, simultaneamente, escritora, repórter, socióloga, psicóloga e pregadora.”

Svetlana Alexievich

O seu grande ciclo literário dá pelo nome de Vozes da Utopia. Dele fazem parte cinco volumes absolutamente essenciais:

  • A Guerra Não Tem Rosto de Mulher (1985)
    Alexievich entrevistou centenas de mulheres russas que participaram – como médicas, enfermeiras, militares ou até snipers – na Segunda Guerra Mundial. “É um livro que nos coloca muito perto da cada pessoa”, garante Sara Danius, uma das responsáveis da Academia Sueca.
  • Rapazes de Zinco (1992)
    Um olhar único à Guerra do Afeganistão (1979-1989). O título deriva do nome dado aos militares que eram enviados para casa após morrerem em combate, uma vez que eram sempre colocados em caixões de zinco.
  • Vozes de Chernobyl (2006)
    O desastre nuclear despoletado pelo reator 4 da central de Chernobyl (na Ucrânia, parte da antiga União Soviética), a 26 de abril de 1986, foi um evento sem precedentes. Neste livro, a autora dá voz a mais de 500 testemunhas – incluindo bombeiros, políticos, cientistas e cidadãos comuns – que sofreram na pele as consequências dessa catástrofe. A obra deu origem a uma curta-metragem nomeada para um Óscar em 2010.

 

  • As Últimas Testemunhas (1985)
    Uma coleção de emocionantes entrevistas a cidadãos soviéticos que eram apenas crianças (entre os 4 e os 13 anos) quando decorria a Segunda Guerra Mundial. A edição em português desse que considera ser o seu “livro mais duro, o mais pesado do ponto de vista psicológico” será publicada brevemente pela Elsinore.
  • O Fim do Homem Soviético (2013)
    O último livro da série Vozes da Utopia é como que um documentário da desintegração da União Soviética e da emergência da Rússia como hoje a conhecemos. Inclui dezenas de comentários de homens e mulheres que viveram na altura da opressão e depois transitaram para um mundo pós-URSS. Foi considerado o livro do ano 2013, em França.

“O Governo e as autoridades fazem de conta que eu não existo. Não me deixam ir à TV, nem a lado nenhum.”

Svetlana Alexievich

Voltemos ao dia em que Svetlana Alexievich ganhou o Nobel.  Dos milhares de mensagens de parabéns que recebeu, uma esteve notoriamente em falta: a do ditador da sua Bielorrússia, Alexander Lukashenko. É que a escritora é de tal forma crítica do regime que os seus livros não são publicados no seu país – só é possível adquiri-los através da Rússia ou de contrabando vindo da Lituânia.

Não é de admirar, por isso, que tenha vivido 12 anos em exílio. Passou por cidades europeias como Paris, Berlim e Gotemburgo antes de regressar definitivamente à Bielorrússia, há cerca de cinco anos. “Eu quero viver em casa. Apenas consigo escrever em casa”, confessou posteriormente.

Há quatro anos que não publica um livro, mas deu que falar bem recentemente por ter sido alvo de uma falsa conta do Twitter, associada à ministra da Cultura francesa, Françoise Nyssen, que deu conta da sua morte.

A notícia foi rapidamente desmascarada: Svetlana, de 69 anos, está viva e de boa saúde. Aliás, ao fim de cinco livros, cerca de 20 guiões de documentários e quase 40 anos de escrita, garante que a única coisa que quer é “paz”, para poder trabalhar em novos projetos.

“Ainda espero ter tempo para escrever um livro sobre a velhice. Penso nisso muito a sério, porque nos foram proporcionados pelo menos mais 25 anos de vida útil”, sublinhou numa entrevista ao Expresso. Isto promete.


Por: Carolina Morais

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