A estante dos Storytailors

Fotografias: Bruno Colaço 4SEE

Storytailors
João Branco e Luís Sanchez conheceram-se em 1996 e, cinco anos depois, concluídos os estudos em Design de Moda, deram início à Storytailors, um dos projetos de criação de vestuário mais reputados em Portugal, presença assídua em publicações e eventos internacionais.

 
 Veja o vídeo da rubrica

Livros de design, imagem e ilustração, mas também contos infantis com as páginas gastas pelo tempo. Na estante dos Storytailors unem-se os universos da moda e da literatura através de histórias.

O nome do projeto diz tudo. Para os Storytailors, criar peças de vestuário é apenas mais uma forma de contar histórias. “Nós estamos sistematicamente a contar histórias”, diz João Branco. “Aquilo que fazemos com imagens, com a nossa própria imagem, é refletir uma história. Despertar emoções, ideias, sensações. Projetar aquilo que queremos ser. Escrever e ler um livro é mais uma forma de contar uma história e mais uma experiência sensorial. Tal como a moda. Não há experiência mais sensorial do que vestirmo-nos.” Não se estranha que, com esta filosofia, a dupla de estilistas seja, uma vez por outra, desafiada a criar peças com temas literários. Como as que expuseram na Livraria Lello, no final de 2015. “O fio condutor de inspiração foi: e se Fernando Pessoa tivesse heterónimos femininos?” Esta interpretação desencadeou a sua própria história: “Houve pessoas que chegavam lá e percebiam e pessoas que ficavam indignadas porque sentiam que estávamos a adulterar a imagem de Fernando Pessoa.” É o que acontece sempre que a arte inspira arte.


 “Nós estamos sistematicamente a contar histórias” 


1

Na estante dos Storytailors, entre livros de arte, design e moda encontram-se livros de contos infantis como O Segredo da Princesa, de Fernando de Castro Pires de Lima, do qual Luís destaca as “ilustrações fabulosas de Laura Costa”. Estes livros pertenciam ao João, em criança, e alguns estão visivelmente rabiscados e até “meio destruídos”.

2

Os Storytailors encaram alguns dos seus livros como “ferramentas que é bom ter à mão” no processo criativo. A estante inclui livros de nomes de artistas e estilistas como Egon Schiele, Charles James ou Madaleine Vionnet, e ainda enciclopédias sobre tatuagens e história da moda. “Quando estamos a falar sobre uma nova coleção, às vezes começamos a olhar para a estante e é bom pegar em livros, folheá-los e senti-los”, diz Luís.

3

Uma das raridades da estante intitula-se O Elegante e é uma compilação de publicações da revista com o mesmo nome. “É sobre a moda masculina no final do século XIX, início do século XX”, explica João. “Segundo a nossa pesquisa, é dos poucos exemplares em português. E é curioso porque também fala dos costumes da época, dos códigos de conduta e etiqueta. É divertido de ler. Principalmente quando fala dos escarradores.”

4

No topo da estante estão os mais variados objetos. Um molde de uma cartola, uma máscara usada num desfile – “é um veado ao qual acrescentámos mais hastes para ficar com um aspeto mais assustador” – e uma caixa com óleos e guaches. Em destaque encontra-se também um álbum antigo. “Comprámo-lo num antiquário e foi onde montámos uma das nossas primeiras histórias, para participar num concurso no estrangeiro. É giro porque viu nascer muitas das técnicas de transformação de silhueta de peças que ainda hoje se veem em muitas das peças que desenhamos.”

5

Destaca-se na estante uma edição autografada e com capa de cartão de The Corset, de Valerie Steele, sobre a história cultural do espartilho. Já este ano, a dupla conheceu pessoalmente a autora: “A Valerie Steele é diretora do Fashion Institute of Technology. Veio a Portugal para uma série de conferências e pediu à diretora do Museu do Traje para nos conhecer. Ficámos radiantes. Depois veio cá à loja e ficou interessada em adquirir algumas peças. Neste momento está uma em Nova Iorque, numa das suas exposições, e há outra que está a ser organizada para 2018.”

6

A estante inclui um livro do artista têxtil Mister Finch que lhes foi oferecido em Nova Iorque e serve de inspiração às suas próprias criações. “Ele faz esculturas de animais com tecidos que vai recolhendo. É curioso, porque conseguimos ler várias histórias analisando os objetos que ele cria. E são muito ricos em texturas. Inspiram-nos a criar outras histórias”, confessa João.

 7

Livros em papel ou no formato digital? “Hoje em dia temos objetos tecnológicos como os telemóveis e os tablets, que são sobretudo tácteis, e acabamos por ficar cansados e por desenvolver tendinites e outros problemas. Sinto que isso faz querer alternar e valorizar mais o facto de pegar num livro. É uma sensação mais confortante.” Mas acrescentam: “A mesma imagem num contexto ecrã diz-nos uma coisa e num contexto papel diz-nos outra. É bom intercalar as duas coisas.”

8

O livro Teodorico e as Mães Cegonhas, escrito por Ana Zanatti, é outro dos projetos que marca a ligação dos Storytailors ao mundo literário. Ilustrado pela dupla, o livro conta a história de duas cegonhas que adotam um bebé abandonado. “Aborda alguns temas socialmente polémicos, como a questão da adoção de crianças por casais homossexuais. Foi um projeto muito bonito, não só a história mas o fazer a ilustração e ver a recetividade e o percurso que o livro teve.”

Gostou? Partilhe este artigo: