Steven Erikson: “A saga Império Malazano é quase uma fatia de História”

Steven Erikson esteve em Portugal por ocasião da Comic Con 2018 e a Estante encontrou-se com ele para uma conversa que nos deixou a dúvida: poderá a saga Império Malazano ser a próxima Guerra dos Tronos?


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JARDINS DA LUA
Steven Erikson
Está a gostar de Portugal?

Sim! Cheguei um dia mais cedo e pude visitar a zona mais velha da cidade [baixa de Lisboa]. Tenho andado para cima e para baixo pelas colinas. Na maior parte do tempo, fui a galerias de arte.

A saga Império Malazano está atualmente a ser publicada em português. O que podem os leitores nacionais esperar das suas histórias?

Uma serie de romances que retratam História. São dez volumes – e suspeito que por cá até sejam mais, porque vão dividi-los. É um mundo inventivo onde a magia funciona. E, porque a magia funciona, traz diferenças fundamentais na cultura e civilização. Estes romances exploram isso mesmo. São quase uma fatia de História. Passam-se durante algumas décadas e há fantasia militar. Quis também adicionar uma multitude de personagens. Tenho esperança que os leitores se apeguem a algumas das personagens, se bem que com uma ressalva, porque algumas morrem.

Ficou apegado a alguma personagem em particular?

Não quero revelar spoilers, mas existem algumas personagens que sobrevivem durante os dez livros.

Conte-nos um pouco sobre o seu processo criativo. Como é um dia habitual de escrita? Em que géneros de leitura vai buscar inspiração?

A História é a minha principal inspiração, mas também como arqueólogo e antropólogo. O mundo Malazano foi cocriado com Ian Cameron Esselmont e fazemos jogos e simulações com a história deste mundo. E como somos ambos arqueólogos e antropólogos, quisemos ter a certeza que a história fazia sentido a nível cultural e que a noção de cultura e civilização é transitória. Em termos de inspiração, a nossa experiência em História é o que mais ajuda. Em termos literários, são os mais variados que se possa imaginar, porque lemos muito e não especificamente fantasia.

Consegue lembrar-se de algum livro que o tenha impactado particularmente?

Literatura da Guerra do Vietnam escrita pelos veteranos americanos, nomeadamente o Tim O’Brien.


Escrevo em cafés, bares e restaurantes. Preciso de um sítio público, com pessoas à minha volta, com barulho.


Como funciona o dia a dia de escrita?

Abrandei! Quando estava a escrever a série de dez livros – que levei 11 anos a escrever –, fazia quatro horas por dia. Sou um escritor rápido. Quanto ao meu processo, leio o que quer que tenha escrito no dia anterior antes de começar a escrever novo material. Os meus manuscritos acabam por ser bastante limpos. O meu editor agradecia [risos]. Permitia-me não ter de voltar para trás no final para fazer revisão, o que poupou muito tempo. Tantos os revisores como os editores ficavam muito agradados com isso.

Escreve em casa?

Não. Escrevo em cafés, bares e restaurantes. Preciso de um sitio público, com pessoas à minha volta, com barulho.

Escrever com distrações é uma forma de inspiração?

Não sei, exercita os olhos. Acho que se tiver sentado num quarto pequeno acabo por não me focar com tanta facilidade. E num café posso olhar pela janela e ver algo mais. Os meus olhos não se cansam.

Prefiro ter ruído. Muitas vezes, quando estava a escrever a saga, escrevia com música. Não é algo que faça muitas vezes hoje em dia nem tenho auriculares comigo. Eram sempre músicas cantadas.

É um processo diferente. Nunca tive um objetivo de palavras a escrever por dia. Havia dias em que escrevia apenas dois parágrafos nas quatro horas, noutros dias escrevia 10 ou 15 páginas. Não interessava, desde que dedicasse essas quatro horas.

Quando sabe que é hora de parar?

Por norma no final de uma cena. Faço por não me sentir cansado, gosto de ter energia quando paro. Foi Ernest Hemingway que disse que devemos parar antes de acharmos que temos de parar. Para que os níveis de energia continuem altos tanto nesse dia como no próximo. Isso ajuda a continuar o passo. E a revisão antes de começar ajuda a apanhar o ritmo para continuar.

Esta já é uma conversa antiga: sabemos que têm tentado adaptar a saga Império Malazano ao cinema e à televisão. Podemos esperar algo em breve?

Os meus agentes andam a propor a ideia às produtoras. Há cerca de um ano chegámos a um grande produtor. Gastámos cerca de um ano apenas a escrever o contrato. Chegámos a ter um entendimento falado, mas à última hora caiu. Portanto agora estamos à espera para ver o que acontece.

Caso venha a acontecer, gostaria de estar presente na produção?

O que ficou acordado seria que eu e o Ian Esselmont seríamos coprodutores, porque mesmo que sejam os meus romances a ser vendidos somos os cocriadores do mundo. Adorava poder estar presente no cenário. Não sei até que ponto podemos convencer os produtores, mas gostávamos que fosse algo como Black Hawk Down em série de fantasia: muito ávido, nada espalhafatoso. Quero pessoas a usar roupas gastas do exército em vez de uniformes bonitos com pele nos ombros, coisas assim, nada de capacetes ridículos!

Não quer que o seu exército tenha capacetes?

Podem ter um bom capacete [risos], mas sem cornos ou saliências que se tornem lâminas para cortar o próprio pescoço. Queremos esse tipo de realismo. Eu faço esgrima desde os 18 anos e uma das coisas que me incomoda são os heróis que giram sobre si mesmos. Se quiser morrer depressa numa guerra, basta girar assim!

Odiaria ver esse tipo de coreografias. Gostaria de ver algo mais como na série Vikings. As pessoas tropeçam e vão umas contra as outras, é uma confusão e eu gosto disso. Queremos esse tipo de atmosfera. Mas depois de vender os direitos fica fora das nossas mãos. Nem eu nem o Cam [Ian Esselmont] somos o George R. R. Martin. Não temos esse tipo de controlo.

Gostaria que a saga Império Malazano fosse o próximo A Guerra dos Tronos?

Seria bom ter uma série televisiva, sim. O ângulo é um pouco esse neste momento. Se tivesse biliões de dólares, a minha ambição seria a de tornar cada romance uma trilogia de filmes. Filmar e produzir tudo em cinco anos e estrear dez filmes por ano ao longo de três anos. Seria como trazer o melhor das séries ao cinema.

Durante muito tempo tem sido ao contrário. São as séries a trazerem o melhor dos filmes. Mas [fazer os filmes] nunca irá acontecer porque não há o dinheiro ou a ambição para isso… Quebra demasiadas regras. Estrear dez filmes por ano seria uma mudança no paradigma.

Dez filmes num ano não iriam retirar o suspense da espera?

Pense no evento que é quando sai um novo Star Wars. As multidões alinham-se à volta do quarteirão. Imagine isso dez vezes por ano! Mas nunca irá acontecer.

Mas continua a tentar que aconteça?

Sim, essa é a minha maior ambição. Por exemplo, a televisão adapta os romances mais longos porque tem mais tempo para adaptar a história. Assim poderia fazer um romance por temporada. Mesmo assim as pessoas assinam por dez anos. É uma longa carreira para os atores.

Está, portanto, disposto a aceitar adaptar toda a saga Império Malazano à televisão.

Sim, na realidade o acordo inicial seria para os três primeiros livros. Uma das coisas que notamos na maioria da fantasia que vemos na televisão é que não tem sentido de humor. E se tem um sentido de humor é muito negro.

O mundo Malazano tem personagens com sentido de humor. Consegue-se o alto drama, a ação, mas também queremos tirar algumas gargalhadas. Porque os soldados são assim. Quando estão nessa situação, o humor é a única coisa que os mantem sãos. Situações de alto stresse têm de ter humor.

Até a serie original do Star Trek, na sua terceira temporada, começou a ter humor. A melhor homenagem que há à série é o Star Trek Discovery e não chega sequer perto do real. É demasiado confusa e caótica. E eu sou um trekky, cresci a ver Star Trek.

Alguma vez escreveu inspirado no Star Trek?

Escrevi três livros – Willful Child – que são manuscritos Star Trek. E escrevi-os com a premissa: “Como seria um capitão se o seu único modelo fosse o James T. Kirk?” Deixei fluir a partir daí.


Depois de vender os direitos [dos livros à televisão] fica fora das nossas mãos. Nem eu nem o Ian Esselmont somos o George R. R. Martin. Não temos esse tipo de controlo.


Em tempos falou em adaptar a saga Império Malazano à banda desenhada.

Ah, não [risos], foi um grupo demasiado ambicioso, na Sérvia, que se interessou por isso. Quando se aperceberam do trabalho que implicava, assustaram-se e desistiram.

Tem um novo livro a sair – Rejoice, a Knife to the Heart.

Sim, o meu primeiro romance sério de ficção cientifica. Já tinha feito um mais curto, uma novela, mas este é o culminar. Tenho tendência para ler romances de primeiro contacto [extraterrestre] e durante muitos anos a minha paixão foram romances de primeiro contacto. Esta é a minha abordagem a esse subgénero de ficção cientifica. Eu chamo-lhe um exercício intelectual – um “what if“. O que aconteceria se houvesse contacto com os humanos?

É uma visão muito otimista, não é?

Um dos meus editores chama-lhe “what if/if only“[risos]. Portanto, sim, tem esse elemento.

Sabemos de outras entrevistas que já levou inspiração de viagens consigo. Lisboa inspira-o para uma futura história?

Eu cresci em Winnipeg, no Canadá, que é a cidade mais plana do planeta. Não há uma colina à vista por centenas de quilómetros. Curiosamente, a maior parte das cidades que aparecem nas cidades de Império Malazano são planas. Portanto é capaz de ser interessante fazer algo numa cidade cheia de colinas, cria uma dinâmica muito diferente.

Achei os vossos bairros muito contidos e isolados. Hoje em dia não o são, mas imagine se não existissem carros. Não seria fácil. Suspeito que isso possa ser uma mudança, introduzir uma cidade com colinas.

O que está a ler neste momento?

1632 de Eric Flint. É sobre uma pequena cidade nos Estados Unidos, no ano 2000, que é levada para 1630 na Alemanha do Norte. Existe um efeito dominó nestas pessoas e na tecnologia quando chegam. É extramente bem pensado e, como antropólogo, a ideia do “what if” fica sempre na minha mente. Eric Flint conhece bem a sua história e dinâmica social e surpreende-me sempre.

O que nos recomenda para ler?

After On, de Rob Reid, um romance sobre Silicon Valley. New York 2140de Kim Stanley Robinson, uma carta de amor a Nova Iorque que fala sobre as alterações climáticas. E Becky Chambers, uma nova escritora de ficção cientifica que acaba de lançar o seu terceiro livro.


Por: Aléxia Costa
Fotografias: Miguel Madeira/4SEE

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