Stephenie Meyer: mais uma autora que também escreve para adultos?

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Depois dos romances sobrenaturais, Stephenie Meyer regressa às livrarias com A Química, um thriller ao jeito dos de Jason Bourne que a lança a um novo público. Ou será que não?

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A saga Crepúsculo fez da americana Stephenie Meyer um dos mais sérios casos globais de popularidade na literatura do século XXI. Esta tetralogia centrada no complicado romance entre uma jovem e um vampiro vendeu mais de 120 milhões de exemplares em todo o mundo e resultou em cinco filmes (igualmente bem-sucedidos a nível comercial). Ao mesmo tempo, ajudou a cimentar nas livrarias a categoria de Young Adult, composta por livros de vários géneros especialmente dirigidos a um público com idades compreendidas entre os 14 e os 30 anos.

Se excluirmos os spin-offs da saga, o último livro publicado por Meyer foi Amanhecer, em 2008. Neste ano, lançou igualmente Nómada, onde troca os vampiros por alienígenas invasores de corpos, mantendo contudo alguns dos elementos fundamentais do Young Adult. Também este livro foi um grande sucesso de vendas.

Não obstante, chegamos a 2016 e parece que Stephenie Meyer decidiu trocar o seu público por uma audiência mais adulta. Pelo menos é o que podemos pensar numa primeira análise ao seu novo livro, um thriller de ação intitulado A Química.


A Química é o resultado das minhas sensibilidades românticas e da minha obsessão por Jason Bourne e Aaron Cross. Gostei muito de passar tempo com um herói de ação diferente, que não tem como principais armas uma pistola, uma faca ou grandes músculos, mas sim o cérebro.”

Stephenie Meyer

A protagonista de A Química é uma mulher que costumava trabalhar para uma agência obscura do governo dos Estados Unidos, aplicando os seus avançados conhecimentos químicos na interrogação – e tortura – de terroristas. Na maior parte do tempo conhecemo-la como “Alex”, embora não seja o seu verdadeiro nome.

Quando Alex abandona o emprego, os seus antigos empregadores perseguem-na, procurando eliminá-la para evitar que divulgue as informações secretas que detém. Isto obriga-a a trocar constantemente de identidade e até a montar todas as noites, no seu quarto, um intricado sistema de segurança que faz com que tenha de adormecer com uma máscara de gás.

Eis que um antigo empregador a contacta com a promessa de que a deixarão viver em paz desde que execute com sucesso uma última missão. Só que esta leva-a ao encontro de um homem por quem começa a desenvolver sentimentos, algo que nunca lhe tinha acontecido.

Pensado como um thriller de ação ao jeito dos de Jason Bourne, A Química é a narrativa de tom mais maduro que Stephenie Meyer já criou. O que conduz inevitavelmente à questão: o que leva uma autora com créditos firmados na escrita para jovens e adolescentes a querer publicar um livro para adultos?


“As voltas que iria dar hoje faziam parte da rotina da mulher que atualmente respondia pelo nome de Chris Taylor. Acordara muito mais cedo do que gostaria e tivera de desmontar e arrumar todas as precauções que habitualmente punha em prática durante a noite. Era uma maçada montar tudo ao deitar e depois ter de começar o dia a arrumar o que deixara montado, mas não lhe compensava perder a vida para se poder dar ao luxo de ter um momento de preguiça.”

Primeiro parágrafo de A Química

3 autores que também saltaram da literatura juvenil para a adulta

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J. K. Rowling

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Carlos Ruiz Zafón

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Umberto Eco

Há quem justifique a mudança de Meyer com a crença de que a literatura “adulta” tem um nível de legitimidade e respeito que muita literatura para jovens (ainda) não tem. Outros têm apontado que será apenas a forçosa reação da autora ao amadurecimento dos seus mais fiéis leitores.

Mas e se Stephenie Meyer decidiu simplesmente passar a escrever aquilo de que mais gosta?

Aconteceu a outros. O caso mais flagrante será talvez o de J. K. Rowling que, depois de uma década a escrever para crianças com a saga de Harry Potter, decidiu abraçar o género que diz preferir: o romance policial. Seguiram-se Uma Morte Súbita e uma série de livros assinados com o pseudónimo “Robert Galbraith”. De acordo com a autora, a mudança deveu-se somente à “liberdade para explorar novos territórios”. E, até ver, o sucesso mantém-se.

O mesmo aconteceu com Carlos Ruiz Zafón, que começou por escrever para jovens, com A Trilogia da Neblina, e transitou posteriormente para a literatura para adultos, com a tetralogia O Cemitério dos Livros Esquecidos. Ou com Umberto Eco, que escrevia ficção para os mais novos muito antes de se aventurar em romances como O Nome da Rosa. Em ambos os casos, a mudança de público parece dever-se mais a um aperfeiçoamento de capacidades do que a um desejo de reconhecimento.

Muitos outros autores passam as respetivas carreiras em constante transição entre ficções adultas e juvenis. Basta lembrar Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Gray foi publicado entre O Príncipe Feliz e A Casa das Romãs), os contemporâneos Neil Gaiman e Joyce Carol Oates ou o português Afonso Cruz, apenas para referir alguns exemplos.

Em 2013, numa entrevista à Variety, Stephenie Meyer disse que se sentia cada vez mais distante de Crepúsculo e já não via a saga como um “lugar feliz para estar”. Mudar de audiência apostando num thriller com muita ação e onde a tensão é permanente parece, por isso, ser menos uma decisão comercial do que uma forma de reencontrar um caminho que a apaixone na literatura. Um caminho mais adulto. Pelo menos por enquanto.


Por: Tiago Matos

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