A Coisa: Se tens medo de palhaços, foge destes livros!

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Com duas palavras apenas se escreve o título de um dos livros mais assustadores de Stephen King. Estás preparado para A Coisa?

Uma das primeiras coisas que descobrimos quando aprendemos inglês é que existe um pronome especial, diferente dos que se traduzem por “ele” ou “ela”, que é utilizado para definir animais, objetos e todas as coisas ausentes de género. O inqualificável, por assim dizer. Não existe tradução para português. É simplesmente “aquilo”. It.

Tendo isto em mente, é difícil pensar num título mais perfeito para um livro sobre o medo do que aquele que Stephen King decidiu em setembro de 1986: It. E, no entanto, aceita-se perfeitamente a tradução que a Bertrand Editora fez ao publicar o livro em dois volumes em Portugal: A Coisa.

Para alguns, “a coisa” pode ser uma criatura disforme. Para outros, uma aranha gigantesca. Talvez o débil som de algo a arranhar o chão num quarto escuro. Ou um palhaço.

A ideia surgiu a Stephen King em resposta ao rótulo de mestre do terror com que muitos o vão brindando desde há largos anos. “Sei que as pessoas me consideram um escritor de terror”, explicou um dia o escritor natural do estado de Maine, nos Estados Unidos. “Eu nunca me considerei tal coisa, sou apenas um escritor. Mas pensei: se querem terror, deixa-me ver até onde consigo ir, quantos monstros consigo juntar numa só história.”

Foi o que fez. Pensou em todas as criaturas que provocam medo – vampiros, lobisomens, fantasmas e afins – e depois pensou ainda melhor: “Deve haver uma criatura horrível, nojenta e repulsiva que unifique tudo isto e nos faça gritar só de a vermos. E perguntei-me: o que assusta mais as crianças? Palhaços. Então criei Pennywise, o palhaço.”


O terror, que só terminaria vinte e oito anos depois (se é que terminou), começou, tanto quanto sei ou consigo saber, com um barco feito de uma folha de jornal a flutuar por uma valeta cheia da água da chuva.


Por esta altura já quase todos estarão familiarizados com Pennywise, o palhaço. Seja devido ao livro, à memorável interpretação de Tim Curry numa minissérie televisiva de 1990 ou à não menos elogiada encarnação de Bill Skarsgård no filme de 2017.

Só que, na verdade, Pennywise não é um palhaço.

Pennywise é antes uma entidade alienígena, oriunda de uma dimensão que antecede o nosso próprio universo. Chegou à Terra ainda na pré-história e iniciou, desde aí, um aterrador ciclo de hibernação que o leva a acordar para se alimentar mais ou menos a cada 27 anos. E aqui chegamos ao ponto principal: esta “coisa” alimenta-se de pessoas. E, para “ela”, o medo é uma espécie de tempero. O mais delicioso de todos os temperos.

Para provocar medo, “a coisa” é capaz de assumir a forma do que mais assusta cada pessoa. Por exemplo, um palhaço. Pennywise. Ou não fossem as crianças o alvo preferido da criatura, tendo em conta que os seus medos são geralmente mais palpáveis e fáceis de definir.

Desde que foi publicada, a narrativa aterrorizou milhares de leitores por todo o mundo, incluindo o próprio Stephen King, que chegou a afirmar: “Há cenas naquele livro que me assombraram e causaram pesadelos quando o escrevi.”

Há quem veja em A Coisa um comentário à natureza cíclica do tempo no que respeita à instabilidade social e política do mundo. Outros encontrarão no livro a simples história de um bicho-papão que persegue um grupo de crianças. Em qualquer dos casos, é impossível ignorar que A Coisa é uma autêntica ode ao medo. Mesmo que a fórmula para o medo nem se limite àqueles que não gostam especialmente de palhaços.

“O que assusta as pessoas é variável. Mas o que funcionou comigo, durante anos, foi esquecer a ideia de assustador”, diz Stephen King. “Se conseguirmos criar personagens de quem os leitores gostem, tal como gostam das pessoas na sua vizinhança e na sua família, e as colocarmos em perigo… nasce o terror, o suspense e o horror.”

Por outras palavras, nasce A Coisa.


Por: Tiago Matos

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