Ser ou não ser William Shakespeare

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Morreu há 400 anos o homem a quem chamavam “O Bardo de Avon”. Autor de dezenas de peças e mais de uma centena de sonetos, William Shakespeare foi um dos escritores mais influentes de sempre mas são poucas as certezas sobre a sua vida.

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Mário Avelar é professor universitário
na área de Estudos Anglo-Americanos e autor do livro O Essencial sobre William Shakespeare. Na sua opinião, os personagens mais marcantes do bardo inglês são Ricardo II, Falstaff, Lady Macbeth, Otelo, Lear, Hamlet, Mariana, Ricardo III, Iago, Shylock, Prospero e Isabella.

 

 


3 LIVROS SOBRE A VIDA DE SHAKESPEARE


Shakespeare
Bill Bryson

O Essencial sobre William Shakespeare
Mário Avelar

Shakespeare – A Biografia
Peter Ackroyd

William Shakespeare terá morrido no dia 23 de abril de 1616. Não se sabe muito bem de quê. A sua vida, repleta das mais belas histórias, chega-nos hoje cheia de mistérios deste tipo. Há dúvidas quanto à sua aparência, sexualidade, crenças religiosas. Há até quem questione a sua própria existência, avançando a hipótese de o nome “William Shakespeare” não passar de um pseudónimo utilizado por um grupo de autores da época.

Mário Avelar, professor universitário na área de Estudos Anglo-Americanos e autor do livro O Essencial sobre William Shakespeare, considera a questão complexa. Para o catedrático, se por um lado a ausência de cartas, diários e outros documentos pessoais “é facilmente justificada por circunstâncias temporais e pelo perfil do próprio autor”, por outro “a inexistência desses registos não significa uma ausência de reflexão”. Isto porque acredita que a humanidade de Shakespeare “emerge através dos personagens que criou”. Realça, apesar de tudo, que “existem muitos registos, face a outros aspetos da sua vida, que nos permitem conhecer com algum detalhe os diferentes momentos do seu percurso”.

OS PRIMEIROS ANOS

O que sabemos a partir desses registos é que um tal de “Gulielmus”, filho de “Johannes Shakspere”, foi batizado em Stratford-upon-Avon, no Sul de Inglaterra, a 26 de abril de 1564. A diferença na grafia não parece relevante. Tudo indica que se trata do mesmo homem que, ao longo da vida, assinou com denominações tão distintas como “Willm Shaksp”, “Wm Shakspe” ou “Willm Shakspere”. Na verdade, a única variação que William Shakespeare parece nunca ter utilizado foi mesmo a de “William Shakespeare”.

Pouco se conhece sobre a sua infância e o que o terá levado a querer escrever. Sabe-se que aos 18 anos casou com Anne Hathaway, uma mulher de 26, com quem teve três filhos. Sabe-se também que surge, já no final do século XVI, a trabalhar no teatro londrino, como ator e dramaturgo. É nesta altura que o homem dá lugar à lenda. “Creio que Shakespeare poderá ser considerado, sem grande polémica, não um dos principais nomes de sempre, mas o instante mais elevado da literatura universal”, diz Mário Avelar.

O RECONHECIMENTO

Hamlet, Macbeth, Rei Lear, Romeu e Julieta. Ao todo, são pelo menos 38 peças – que compreendem comédias, tragédias, dramas históricos e narrativas “mistas” –, 154 sonetos e quase 3000 palavras introduzidas na língua inglesa. Em pleno período isabelino, Shakespeare faz-se rico e célebre como dramaturgo de excelência, contando com o apoio da nobreza numa relação que não se livra de alguns percalços. “Existem vários registos que nos permitem identificar os diferentes momentos de tensão existentes entre a rainha e as companhias em que ele foi ator e autor”, lembra Avelar. “Refere-se frequentemente a afirmação que esta terá feito a propósito da encenação de Ricardo II: ‘Eu sou o Ricardo II, não sabe?’ No entanto, a complexidade e a densidade da linguagem fazem com que as suas peças nunca sejam meros espelhos de tensões políticas. Mesmo quando esses reflexos existem, tal sucede de uma forma indireta, alusiva, o que não permitiria analogias imediatas.”

Nem todas as peças de Shakespeare são criadas de raiz. Muitas são trabalhadas sobre histórias já existentes, o que nem por isso lhe diminui o mérito criativo. Isto porque o dramaturgo reformula sempre a intriga à sua maneira, acentuando o dramatismo e dando um cunho pessoal a cada história. “Daí a centralidade e a singularidade da linguagem – da poesia – nas suas peças e que seja amiúde referido como ‘o poeta’”, explica Avelar.

A MORTE

O século XVII chega a Londres com uma crise de peste bubónica e o afastamento gradual de William Shakespeare dos teatros londrinos, factos que podem inclusive estar interligados. Certo é que, em março de 1616, o bardo assinou o seu testamento, declarando-se então de plena saúde. Morreu pouco mais de um mês depois, supostamente no dia do seu 52.º aniversário, isto se tivermos em conta os costumes da época, que ditavam que se batizassem os bebés três dias depois de nascerem.

Quatro séculos depois, as suas histórias continuam por todo o lado: nos livros, nos teatros, no cinema, na televisão. E continuamos a recordá-lo como um dos melhores e mais influentes escritores de sempre. Mário Avelar arrisca o porquê: “Os personagens que criou e a forma como souberam expressar a nossa complexa humanidade, em particular aquilo que persiste em silêncio dentro de nós e que não conseguimos identificar e verbalizar, faz com que Shakespeare nos interpele muito mais do que a maioria dos nossos contemporâneos.”

 

3 PERSONAGENS ICÓNICOS

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HAMLET

Filho do falecido rei da Dinamarca, o jovem príncipe procura vingar-se do tio que usurpou o trono nesta tragédia com o seu nome, uma das mais célebres de Shakespeare.

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LADY MACBETH

A mulher de Macbeth é tão ou mais inesquecível do que o próprio. É ela quem incita o marido a entrar numa espiral de violência e paranoia, motivada pela ganância e ambição de se tornar rainha.

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LEAR

A insensatez revelada por este velho rei da Grã-Bretanha ao dividir o reino entre as três filhas torna-o gradualmente louco. E um dos mais populares personagens de Shakespeare.


Texto: Tiago Matos | Ilustrações: Gonçalo Viana

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