A Senhora Peregrine mudou de casa

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Livro 1
O Lar da Senhora Peregrine
para Crianças Peculiares

 

 

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Livro 2
Cidade Sem Alma

 

 

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Livro 3
Library of Souls

Diz a verdade: foi o Tim Burton que te trouxe até aqui, não foi?

Sabes que o realizador tem um novo filme nos cinemas e vieste em busca de mais informações. Talvez te tenhas deparado com um dos vários trailers avançados. Talvez te tenha deixado cheio de vontade de conhecer o bizarro mundo protagonizado por Eva Green e companhia. Não te censuramos. Tem potencial para ser um filme divertido. E as primeiras críticas até são bem simpáticas.

Ainda assim, temos a responsabilidade de te recordar: o livro é sempre melhor do que o filme. E, antes de ser adaptado ao grande ecrã por Burton, A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares já era um livro.

Uma série de livros, para sermos mais exatos. Embora o filme nasça apenas do primeiro.

O que tens de saber é que deves ler o livro mesmo que o que realmente te apeteça seja ver o filme. Deves ler o livro mesmo que já tenhas visto o filme. E até deves ler o livro mesmo que Tim Burton não seja a tua praia. Sabes porquê?

Vamos fazer um pequeno exercício.

Faz de conta que, neste momento, tu não és tu. O teu nome é Ransom Riggs. És um miúdo americano. Estás numa loja de antiguidades, uma das muitas para as quais a tua avó te arrasta todos os fins de semana em busca de pechinchas. Estás aborrecido. Muito aborrecido.

É então que descobres, nos confins da empoeirada loja, uma pequena caixa cheia de fotografias antigas. Uma delas salta-te de imediato à vista. É a foto de uma rapariga, pouco mais velha do que tu – muito parecida, aliás, com outra que conheceste no campo de férias, num verão passado, e pela qual te apaixonaste perdidamente.

Ficas deslumbrado. Pedes à tua avó para ta comprar e, logo que regressas a casa, colocas a foto na tua mesa de cabeceira. Durante meses adormeces junto a ela, encantado com a estranha rapariga. Até ao dia em que a decides inspecionar com mais cuidado e encontras, na parte de trás, uma inscrição escrita à mão: “Dorothy. 15 anos. Morreu de leucemia.”

Pois é, tens estado a dormir junto a um fantasma.

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O episódio não invalida a tua paixão por fotografias antigas. Pelo contrário. Até te aumenta a curiosidade. Começas a colecionar todas as que encontras. Tens um fraquinho especial pelas mais arrepiantes. Os anos passam e as imagens são cada vez mais. Decides perguntar a um editor que conheces se ele teria interesse em publicar um livro de fotografia com algumas delas. O editor concorda, mas sugere um projeto diferente: e se construísses antes uma narrativa à volta das tuas fotografias e a publicasses na forma de romance ilustrado?

Calha bem, porque também gostas bastante de escrever. Até já publicaste um livro, um ensaio sobre os métodos de dedução de Sherlock Holmes que te encomendaram quando estreou o filme de 2009.

É assim que nasce O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares (sim, Tim Burton transformou “O Lar” em “A Casa”). O livro conta a história de um jovem, Jacob Portman, profundamente afetado depois de presenciar a morte do avô e ouvir as suas últimas palavras: “Procura a ave. No vórtice. Do outro lado do sepulcro do velho. 3 de setembro de 1940.”

A enigmática mensagem lança Jacob numa viagem até uma ilha diminuta na costa do País de Gales, onde encontra um portal para um tempo passado: precisamente a data referida pelo seu avô. É também aqui que se depara com um orfanato, gerido pela Senhora Peregrine, uma mulher com a capacidade de se transformar em falcão-real. Não é assim tão estranho. Todas as crianças a seu cargo têm capacidades extraordinárias: Emma controla fogo, Millard é invisível, Enoch é capaz de ressuscitar pessoas e animais por breves períodos…

Quase faz lembrar os X-Men, não achas?

Terá O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares sido inspirado pelos super-heróis da Marvel? Não te sabemos dizer. Tu é que és o Ransom Riggs neste cenário, lembras-te?

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Certo é que o primeiro livro funciona como um prólogo para os seguintes: Cidade Sem Alma e Library of Souls. Existem três volumes porque a história o justifica, mas também porque O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares se revela um enorme êxito comercial, tendo passado 45 semanas na lista de bestsellers do New York Times.

É uma narrativa mais negra e arrepiante do que Harry Potter, mas simples ao ponto de poder ser lida por leitores igualmente jovens. No entanto, o grande destaque do livro são as extraordinárias fotografias a preto e branco, algures entre o excêntrico e o mórbido, que acompanham a narrativa e nos deixam cheios de questões.

Podemos responder a algumas. Sim, todas as fotografias são autênticas. Sim, algumas foram ligeiramente retocadas em prol de um toque mais sobrenatural. E sim, muitas são simplesmente retratos antigos, salvos da obscuridade – e do lixo – graças a esta inclusão.

É esta a principal razão pela qual deves ler o livro mesmo que tenciones ver o filme. Por muito impressionante que seja a adaptação de Tim Burton a nível visual – e bem sabemos que os seus filmes o costumam ser –, não lhe será possível transpor para o grande ecrã a magia destas fotografias antigas, que contam as suas próprias histórias.

Tal como a que acompanhou Ransom Riggs durante meses, do alto da sua mesa de cabeceira. Basta puxar pela imaginação e talvez te inspirem, como ao autor, a pensar novas aventuras.


Por: Tiago Matos
Fotografias: O Lar da Senhora Peregrine
para Crianças Peculiares

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