Saga Millennium: 5 livros, 5 curiosidades

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A saga Millennium tem um novo livro: O Homem que Perseguia a sua Sombra. É a ocasião perfeita para apresentar cinco factos menos conhecidos sobre a série de Stieg Larsson e David Lagercrantz.


Stieg Larsson não escreveu os primeiros três livros sozinho

Estocolmo, 9 de novembro de 2004. Aos 50 anos, morre o jornalista Stieg Larsson, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Pouco depois, são descobertos os manuscritos de três romances criminais, todos eles protagonizados por uma dupla que se haveria de tornar icónica: Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist.

Os três romances da intitulada saga Millennium foram publicados entre 2005 e 2007, revelando-se de imediato um enorme sucesso – mais de 80 milhões de exemplares vendidos em 50 países – e inspirando a criação de filmes, séries e novelas gráficas. Na capa, em letras garrafais, surge o nome de Stieg Larsson. Mas o que poucas pessoas sabem é que o sueco não foi o único responsável pela escrita da trilogia.

O aviso começou por ser dado por alguns dos amigos mais próximos do autor: Stieg Larsson não era assim tão bom escritor. E, eventualmente, Eva Gabrielsson – escritora, tradutora, arquiteta e parceira de Larsson nos últimos 30 anos antes da sua morte – chegou-se à frente como corresponsável e explicou que o enredo dos romances fora, de facto, um trabalho partilhado: “A escrita em si foi o Stieg. Mas com o conteúdo foi diferente. Estão lá muitos dos meus pensamentos, das minhas ideias e do meu trabalho.”


Lisbeth Salander é a versão adulta de Pippi das Meias Altas

A personagem mais memorável da saga Millennium será, sem dúvida, Lisbeth Salander, uma jovem magra e pálida, com vários piercings e tatuagens, memória fotográfica, um talento impressionante para hacking e pouco jeito para lidar com pessoas. Ao longo dos anos, têm sido apontadas várias inspirações para a sua criação.

Há quem diga que Stieg Larsson se terá baseado na sobrinha, uma adolescente rebelde no tempo em que os livros foram escritos. Outros apontam uma origem mais negra para a personagem: Larsson terá partido da memória de uma jovem que, na sua adolescência, viu ser violada por três amigos.

Talvez alguma destas hipóteses tenha razão de ser. Mas, a confiar somente nas palavras do autor, e mais concretamente na única entrevista que deu sobre as suas aventuras pela ficção criminal, Lisbeth Salander será simplesmente a versão adulta da famosa Pippi das Meias Altas, dos livros infantis de Astrid Lindgren.

“Como seria [a Pippi das Meias Altas] hoje? Como seria em adulta? Como se chamaria? Sociopata?”, disse Larsson à revista Svensk Bokhandel. “Eu imaginei-a como Lisbeth Salander, 25 anos e extremamente isolada. Não conhece ninguém e não tem competências sociais.”


Stieg Larsson deixou um quarto volume inacabado

A morte de Stieg Larsson, em 2004, estragou-lhe os planos de escrever uma série de dez livros centrados em Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist. Mas o autor não deixou apenas três volumes. Além de Os Homens que Odeiam as Mulheres, A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo e A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, terá também deixado (inacabado) o manuscrito do quarto volume da série, que intitulou de Vingança de Deus.

Impõe-se a questão: por que razão nunca lemos esta história?

A resposta, por estranho que pareça, prende-se com a profissão de Stieg Larsson. É que, mais do que um simples jornalista, o sueco era um jornalista especializado na extrema-direita e nos movimentos neonazis do seu país. Larsson temia que estas investigações viessem a colocar em risco a vida dos seus entes queridos, pelo que optou por nunca casar com a parceira Eva Gabrielsson. Mas, como morreu sem deixar um testamento, acabou por deixar Eva sem qualquer direito sobre a sua obra. Eva manteve – e continua a manter – o manuscrito inacabado consigo, mas não o pode publicar e também não tem qualquer dizer sobre novas adaptações da trilogia inicial de Larsson.


David Lagercrantz tentou imitar a rotina de Stieg Larsson

Em 2015, oito anos após o lançamento do terceiro volume da trilogia escrita por Stieg Larsson, chega às livrarias A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha. O autor é David Lagercrantz, escolhido contra a vontade de Eva Gabrielsson, que chegou a declarar “grotesca” a decisão de deixar a saga ser continuada por outra pessoa.

David Lagercrantz não era totalmente estranho a narrativas criminais, tendo coberto dezenas de crimes enquanto jornalista antes de se aventurar na escrita de biografias como as de Alan Turing (Fall of Man in Wilmslow) e Zlatan Ibrahimović (I Am Zlatan Ibrahimović). Acusou, ainda assim, a pressão de continuar o trabalho de Stieg Larsson. E durante algum tempo chegou mesmo a tentar imitá-lo.

“Li que ele costumava trabalhar durante a noite, por isso fiz o mesmo. Infelizmente, não sou esse tipo de escritor”, explicou Lagercrantz ao The Guardian. “Estava assustado. Estava aterrado. Que desgraça seria se escrevesse um mau livro. Por isso comecei de forma lenta. Mas estar aterrado não é unicamente mau, o medo também nos consegue fazer avançar, consegue dar-nos energia, tal como a um jornalista a dez minutos de cumprir o prazo.” Certo é que A Rapariga Apanhada na Teia do Aranha foi mesmo publicado, tendo vendido seis milhões de cópias em 47 países.


David Lagercrantz não é o maior fã de Lisbeth Salander

O Homem que Perseguia a sua Sombra, o quinto volume da saga Millennium, acaba de chegar às livrarias. Para o futuro, David Lagercrantz prevê a escrita de pelo menos mais um destes thrillers. Mas não antecipa facilidades no seu processo de escrita. Isto porque, de acordo com o próprio, não morre de amores pela protagonista da narrativa. Chega mesmo a ir mais longe: se a decisão tivesse sido sua, não teria criado uma heroína tão difícil.

“Eu teria criado uma heroína mais suave, mais simpática, mais delicada, mais sensível do que a que Stieg Larsson criou”, explica Lagercrantz. “A personalidade da Lisbeth exige problemas, por isso é claro que eu tenho de lhe dar montes de problemas. De algum modo, ela também se adequa ao papel de oprimida.”

Mas não temam os fãs da bizarra hacker. David Lagercrantz até pode fazê-la iniciar a narrativa do seu mais recente livro numa prisão feminina, mas não tenciona matá-la no futuro próximo. Ou pelo menos é isso que se induz das suas palavras: “Lisbeth Salander vai continuar viva, seja como for. Não será morta no imediato porque é uma pessoa que, de algum modo, nos chega ao coração e ao espírito.”


Por: Tiago Matos

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