Alter Ego de Rui Zink

revista-estante-alter-ego-com-rui-zinkUma autoentrevista. Perguntas que o próprio autor gostava que lhe tivessem feito das quais nunca ninguém se lembrou.

Andámos a ler acima das nossas possibilidades?
Não, antes pelo contrário. Alguns talvez, mas a maioria do nosso povo podia ler ainda mais sem que daí viesse algum mal para a economia.

Mas há quem pense que ler baixa a produtividade…
Perdão?

Enquanto a pessoa lê não trabalha.
É a sua opinião. Mas há os tempos livres. Ao contrário do que se pensa, o governo ainda não manda a polícia a nossa casa se, à hora do regime, não estivermos sentados frente ao televisor.

Acha que o leitor português aguenta mais uma leva de romances históricos no próximo Outono?
Ai aguenta, aguenta.

Publica-se demasiado para o que produzimos?
Talvez.

É verdade que reduzir o tamanho da letra é, além de uma necessidade, também uma urgência?
Só se quiserem que eu deixe de ler.

Mas concorda que não podemos continuar a ler bons livros todos os dias…
Eu por acaso tenho meios para ler bons livros todos os dias, mas não vou dar lições de gastronomia aos portugueses.

Os leitores portugueses deviam ser menos piegas?
Perdão?!

Para evoluir no futuro os portugueses deviam ler sobretudo best-sellers americanos com direitos vendidos para Hollywood?
Quando lemos, o centro do mundo somos nós, o livro e a língua em que o lemos. De onde vêm os bebés não importa. Antigamente era de França. Agora, graças a Deus, é de todo o lado.

É contra ou a favor do acordo ortográfico?
Ora aí está uma boa pergunta.

Mas é contra ou a favor?
Esta discussão lembra-me aqueles divórcios onde cada pai quer ficar com a criança. Acho que de tanto querer levar a taça e tanto
amar mais o menino, corremos o risco de o traumatizar por muitos bons anos.

Concorda que estamos todos no mesmo barco?
No mesmo quê?

Ou, dito de outra maneira, que somos todos personagens do mesmo livro?
Talvez, mas a uns são dadas grandes cenas, enquanto outros mal temos um ponto e vírgula onde nos albergarmos. Os capítulos
e os parágrafos estão muito mal distribuídos.

Não me diga que é radical ao ponto de achar que o leitor deve escrever a sua própria história…
Porque não? As coisas boas da vida não podem ser só para as grandes personagens. A autodeterminação e as capas duras, quando nascem, são para todos.

Sonha então com um mundo onde todos os livros sejam iguais…
Pelo contrário! Acho que livrarias e bibliotecas só se afirmam como tal se reconhecerem o pleno direito à diferença.

Como acalmar os mercados?
Comprando marcadores giros.

Ler livros mais fininhos será a solução para os problemas do país?
Não.

Ou então ler livros de qualquer tamanho, mas escritos por pessoas mais magras?
Admita. Você não pode comigo, pois não?

Metamorfose e Outras Fermosas Merfoses é o mais recente livro do autor.

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