Romances pós-apocalípticos: uma tendência sem fim à vista

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A perseverança humana face à destruição. É este o tema do romance pós-apocalíptico, um dos géneros mais populares do momento. Descubra alguns dos seus mais emblemáticos títulos.

Por: Tiago Matos

 

Algures entre a ficção científica e a literatura de horror, o romance pós-apocalíptico encontrou o seu lugar nas estantes das livrarias. Não é algo que se estranhe. A incógnita do “fim” é um motivo artístico frequente. Ao longo dos séculos, foram muitas as sociedades que procuraram antecipar o final dos tempos, aproveitando para apontar certos rumos e inovações como perigos letais para a humanidade. O romance pós-apocalíptico apresenta, contudo, uma pequena variação à fórmula, na medida em que o fim (ainda) não é realmente o fim. As narrativas acompanham geralmente um indivíduo ou grupo de sobreviventes a uma qualquer catástrofe global, pelo que, na maior parte dos casos, ainda existe esperança, por mínima que seja, de que o planeta recupere e conheça um novo início. Mary Shelley, autora do eterno Frankenstein, terá sido a responsável por abrir as hostilidades do género com a publicação de The Last Man, em 1826, apresentando uma sociedade condenada pela peste. O livro foi fortemente censurado e apelidado de “cruel” e “doentio” pela crítica da época. Não obstante, muitos se lhe seguiram.

 

Século XX

Depois de Shelley, e principalmente após a Segunda Guerra Mundial, quando o conflito ideológico entre Estados Unidos e União Soviética e a constante ameaça de ataques nucleares – e eventuais doenças e mutações que daí pudessem resultar – estavam na ordem do dia, muitos escritores refugiaram-se na escrita de textos pós-apocalípticos. Em The Day of the Triffids, uma das principais obras do género, John Wyndham descreve o colapso da civilização como aparente resultado do deficiente manuseamento de uma única arma. Richard Matheson, por sua vez, inspira gerações com o influente Eu Sou a Lenda, protagonizado pelo único sobrevivente de uma epidemia global provocada pela guerra. Walter M. Miller imagina, em Um Cântico a Leibowitz, a tentativa de reconstrução do mundo após uma devastadora guerra nuclear. Stephen King solta, em The Stand, um vírus que aniquila 99,4% da população mundial. E até José Saramago se lança no género, cegando a maior parte do mundo no seu célebre Ensaio Sobre a Cegueira.

 

Século XXI

O interesse por cenários pós-apocalípticos não esmoreceu com a entrada no século XX. Até pelo contrário. No entanto, as catástrofes passaram a ter outras razões. Em Órix e Crex – O Último Homem e O Ano do Dilúvio, de Margaret Atwood, são as experiências genéticas que levam ao desastre. O apocalipse zombie é outro dos motivos mais frequentes de desastre, quer os mortos se ergam das campas (como em The Walking Dead, de Robert Kirkman) ou os vivos se deixem contaminar por estranhas pragas (como em Guerra Mundial Z, de Max Brooks). E, por vezes, os sobreviventes nem sequer percebem o que lhes aconteceu. Em O Mundo Depois do Fim, de Tom Perrotta, os vários membros de uma família procuram retomar a vida após o súbito e inexplicado desaparecimento de milhões de pessoas. Também A Estrada, de Cormac McCarthy, não esclarece o desastre que levou o mundo a tornar-se um deserto devastado, repleto de cinza, onde um pai e um filho ainda tentam sobreviver. Porque, neste género, mais importante do que a causa é a reação de pessoas aparentemente normais a situações aparentemente insuportáveis.

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