Romances eróticos: do tabu à tendência

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É um dos géneros mais populares do momento. O que terá levado a ficção erótica a despertar?

Alguns livros têm a capacidade de deixar o mundo inteiro a falar sobre eles. As Cinquenta Sombras de Grey é um destes livros. Repelido pelos críticos mas apoiado por uma extensa comunidade de fãs, alcançou um sucesso comercial tão impressionante como inesperado, originando outros dois volumes e um blockbuster cinematográfico com o mesmo nome.

O romance de estreia de E. L. James catapultou não só a autora inglesa para a ribalta como também um género que parecia estar condenado à clandestinidade: o romance erótico. Depois de anos deixado ao esquecimento nas prateleiras mais recônditas das livrarias graças à liberalização do sexo e à livre circulação de conteúdos adultos na Internet, este género literário desfruta agora de uma popularidade imensa. No entanto, a ficção erótica não é um género recente – remonta a períodos tão distantes como a Antiguidade Clássica.

Censurados e proibidos: os grandes clássicos 

Foi a partir do século XVII que a “erotica” se começou a afirmar enquanto género literário. Alvo constante de perseguição e censura, o seu objetivo não era (apenas) o de escandalizar os leitores com descrições (por vezes bastante explícitas) de situações sexuais, mas o de criticar a sociedade em que as obras circulavam e satirizar costumes da época. Algumas das obras eróticas mais famosas são, na verdade, e ao contrário do que se fazia crer, mais do que meras narrativas de cariz pornográfico. São elaborações filosóficas sobre o desejo e a vontade humana.

Livros como Justine, ou os Infortúnios da Virtude ou Juliette, ou as Prosperidades do Vício, ambos de Marquês de Sade, foram grandes marcos da literatura erótica mas valeram ao autor vários dissabores. Fanny Hill, de John Cleland, foi outro dos primeiros livros eróticos a ser categorizado como tal, uma obra epistolar na qual a personagem principal conta as suas experiências de vida em cartas dirigidas a um remetente desconhecido. Anos mais tarde, Leopold von Sacher-Masoch publicou uma outra obra basilar do género, A Vénus das Peles, uma reflexão sobre os limites do amor baseada numa relação de submissão sexual.

O século XX e a literatura erótica: a libertação à vista

O século XX permitiu à literatura erótica continuar a luta por fazer-se ouvir. Mais do que erotismo ou sensualidade, o romance erótico procurou dar continuidade à tradição de crítica social que começara muitos anos antes.

Obras como O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, chocaram o público e foram proibidas durante anos, um pouco por todo o mundo. O livro de Lawrence, centrado no romance entre uma mulher e um homem de diferentes estratos sociais, levou mesmo a editora Penguin a tribunal para responder à acusação de promoção de obscenidade. História de Ó, de Pauline Réage (pseudónimo da jornalista francesa Anne Desclos) e História do Olho, de Georges Bataille, foram outros títulos que deram muito que falar.

Os romances eróticos contemporâneos

A contemporaneidade parece ter retirado aos romances históricos a busca por um significado mais profundo. Embora o mercado de literatura erótica tenha aumentado exponencialmente, oferecendo maior variedade de narrativas aos leitores, a sensação que fica é que o que se ganhou em à-vontade se perdeu em relevância.

Os livros de E. L. James são apenas a ponta do icebergue. Autoras como Sylvia Day, com a saga Crossfire, ou Megan Maxwell, com a série Pede-me o Que Quiseres, são outros dois exemplos de grande sucesso comercial. A influência também se faz sentir em Portugal, com Hoje é Melhor do Que Para Sempre, de S. D. Gold, a seguir a tendência dos romances eróticos internacionais, já bem distante dos provocantes sonetos de Bocage.


Por: Inês Melo

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