Roger Crowley: “Um português convenceu-me a escrever sobre os descobrimentos portugueses”

Roger Crowley, autor de Conquistadores, revela as suas influências e explica o que o fez escolher os descobrimentos portugueses como tema do seu mais recente livro.

Conquistadores

Neste livro de não ficção de Roger Crowley, o historiador britânico debruça-se sobre a época dos Descobrimentos e explica como Portugal criou o primeiro império global do mundo.

 


Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Gostaria de o intitular Navegando para Ítaca. É o título de um poema do grego Konstandinos Kavafis, uma meditação sobre a viagem de dez anos de retorno a casa por parte de Ulisses enquanto viagem da vida. Para Kavafis, é a viagem e não o destino que conta. Começa: “Se partires um dia rumo à Ítaca/Faz votos de que o caminho seja longo/Repleto de aventuras, repleto de saber.” As imagens de navegação estão profundamente presentes na minha vida. O meu pai era oficial da marinha e o mar sempre foi importante para mim. Influenciou bastante os temas sobre os quais escrevo – nomeadamente as viagens de descobertas dos portugueses.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Bem, em termos de tema, em primeiro lugar é o mar. Escrevi muito sobre história marítima. Num espectro mais amplo, sempre fui fascinado pelo mundo mediterrâneo. Acho que os europeus do norte sentem uma nostalgia pela claridade da luz do sul. Isto começou cedo em mim. Quando era criança, o meu pai serviu na ilha de Malta e ir lá nas férias foi uma experiência formativa em termos de paixão pela História. Quando deixei a universidade, fui viver em Istambul algum tempo e adorei, por isso escrevi uma boa quantidade de textos sobre os impérios otomano e bizantino. Sempre li de tudo – romances, livros de viagens, poesia, bem como História – e acho que toda esta leitura me alimentou com ideias sobre estilo, estrutura e o papel da narrativa na escrita de História.

O que é para si um bom livro?

Originalidade. Autenticidade. E estilo. Abandono livros muito rapidamente se estiverem mal escritos.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

The Way of the World, por Nicolas Bouvier. L’Usage du Monde no original francês. Infelizmente não parece estar disponível em português. Na verdade, é um livro que releio com regularidade. Sou um grande adepto de livros de viagem e, para mim, este é inultrapassável.

É a história de uma viagem feita por dois jovens suíços, o Bouvier e o seu amigo Thierry Vernet, da Sérvia ao Afeganistão, por volta de 1953-54. Deslocam-se num Fiat pequeno e de fraca potência, a cerca de 24 quilómetros por hora – tão lentamente que têm tempo para ver tudo e registar o mundo que os rodeia. Têm um acordeão e uma guitarra e tocam música com os ciganos. Pintam e escrevem e veem o mundo de forma nova, como se fosse a primeira vez.

Isto é o Bouvier a referir-se ao planalto turco à noite, à beira do outono, a memória de um daqueles momentos especiais que viajar traz: “A este de Erzurum, a estrada é muito solitária. Vastas distâncias separam as vilas. Por uma ou outra razão, paramos ocasionalmente o carro e passamos o resto da noite no exterior. Quentes em grandes casacos de feltro e chapéus de pele com tapa-orelhas, ouvimos a água enquanto fervia num fogão portátil no abrigo da roda. Encostados a um monte, contemplámos as estrelas, o terreno a ondular em direção ao Cáucaso, os olhos fluorescentes das raposas. O tempo passa enquanto se aquece chá, o comentário curioso, cigarros, surge o amanhecer. A luz alargada apanhou a plumagem de perdizes e codornizes… e rapidamente deixei este momento maravilhoso cair para o fundo da minha memória, como uma âncora que um dia poderia recuperar. Esticas-te, passeias para a frente e para trás sentindo-te sem peso, e a palavra ‘felicidade’ parece demasiado ligeira e limitada para descrever o que aconteceu.”

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Sou uma pessoa matutina. Muitas vezes, levanto-me antes das seis e escrevo durante um par de horas. Depois o pequeno-almoço e mais algumas horas, mas não tenho uma rotina rígida. Como escrevo livros de História, muito deste tempo também é passado a ler. Geralmente acho mais fácil escrever no inverno, quando não há tantas razões para sair. Os dias de sol no verão são mais difíceis na Inglaterra – só quero estar ao ar livre. É impossível escrever fora de casa, mas faço muita da leitura de pesquisa no meu jardim. Vivo num belo vale e posso ouvir os pássaros enquanto tomo notas.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Tendo a trabalhar no computador, a menos que o esteja a achar difícil. Escrever à mão permite de alguma forma uma maior experimentação, atirar palavras para o ar, por assim dizer. O olhar frio da datilografia pode ser um pouco intimidante quando demora a arrancar.


“Devo ter passado seis meses a pesquisar a exploração dos portugueses em África no século XV – mapeei todos os cabos e baías que eles descobriram.”


Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

Para o meu primeiro livro, planeei tudo, capítulo por capítulo. A cada novo livro, tenho planeado menos. Estou a chegar agora à conclusão de que planear mais me pouparia bastante tempo e esforço. Nos meus últimos livros, percebi a meio que a estrutura estava errada e que tinha de começar de novo e rejeitar milhares de palavras. Devo ter passado seis meses a pesquisar a exploração dos portugueses em África no século XV – mapeei todos os cabos e baías que eles descobriram – antes de perceber que o meu livro seria demasiado longo e decidir que tinha antes de me focar num período de tempo mais curto.

Como lhe surgiu a ideia de Conquistadores?

Todos os meus livros anteriores foram sobre a história do Mediterrâneo, por isso os descobrimentos portugueses foram um tema um pouco diferente, mas o meu último livro [City of Fortune] foi sobre os venezianos. Nele, escrevi que a chegada dos portugueses ao Oceano Índico ameaçou o comércio de especiarias de Veneza e comecei a ficar curioso sobre o mundo além do Mediterrâneo. Na mesma altura, recebi por acaso um e-mail de um homem português que tinha lido o meu livro veneziano. Ele convenceu-me que escrever sobre os descobrimentos portugueses seria um próximo passo fascinante.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Tenho sempre mais ideias para livros do que aqueles que alguma vez escreverei. Há muito tempo que venho a adiar a tentativa de escrever eu próprio um livro de viagens. Acho que vai ter de continuar à espera. Neste momento estou a trabalhar uma proposta para um livro sobre a queda de Acre em 1291 – o último posto dos cruzados na Terra Santa.

Qual é a pior parte de ser escritor?

É uma vida bastante solitária. Não temos colegas para conversar e passamos bastante tempo sozinhos. Também passamos muito tempo sentados à secretária.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Em primeiro lugar, leiam muito. Descubram de que gostam e porquê. Acho que temos de querer escrever o tipo de livros que gostaríamos de ler, mas realisticamente. Eu não comecei a escrever até ter 50 anos e antes trabalhei em edição, por isso estava acostumado a pensar em livros como um mercado. A menos que queiram escrever apenas para vocês mesmos, é útil recordar que estão a escrever para outras pessoas – a escrever livros nos quais as pessoas vão gastar o seu dinheiro. Há uma satisfação tremenda – além de qualquer outra coisa que possam ganhar com a escrita (e, convenhamos, não há muitas pessoas que enriqueçam assim) – em termos pessoas a dizerem-nos que adoraram o nosso livro e que significou realmente alguma coisa para elas.

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