Robin Hobb: “As pessoas leem fantasia sem se aperceberem que a estão a ler”

Robin Hobb, uma das mais populares autoras de literatura fantástica da atualidade, chegou a Lisboa para participar como convidada de honra no Festival BANG! – e, como não podia deixar de ser, a Estante esteve com ela para uma conversa cheia de fantasia.

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SAGA ASSASSINO E O BOBO
LIVRO 4: A VIAGEM DO ASSASSINO
Acabou de chegar a Lisboa, certo?

Sim.

Já teve tempo de dar uma volta pela cidade?

Ainda não. Vi o interior do carro e do hotel.

Trouxe algum livro consigo para a viagem?

Tenho alguns audiolivros no meu telemóvel e no meu e-reader. Mas não um livro físico, por causa do peso. Tenho em casa um livro que queria muito ter trazido, mas tem 600 páginas e disse: “Este vai ter de esperar até regressar a casa.”

O que está a ler?

Tenho lido um que se chama Survivor, mas não me lembro do autor, à exceção de que é um autor que ando há muito tempo para ler. A Alex, que é a minha estagiária de média (e neta), trouxe alguns livros com ela para estudar. Ela agora tem de ler e analisar a peça The Cruciblede Arthur Miller. Acho que nunca tinha visto esse livro, sequer, por isso tenho-o no meu leitor de livros para ouvir.

Viajar inspira-a?

Encontro ideias todos os dias. Pode ser através de uma frase que ouço no autocarro ou quando uma pessoa me faz uma pergunta. As ideias estão em todo o lado, é uma questão de as capturar e perceber que peças lhes tenho de acrescentar para as transformar numa história.

Chegou a dizer que George R. R. Martin e O Senhor dos Anéis desempenharam um papel importante na desmistificação da ideia de que os livros de fantasia são infantis.

Sim.

Sente que o público dos livros de fantasia está a tornar-se cada vez mais abrangente?

Acho que o público da fantasia sempre foi extremamente abrangente. As pessoas é que a leem sem se aperceberem que estão a ler fantasia. São histórias que atravessam culturas e nações. As mitologias e contos de fadas de Ulisses e Zeus. Mitologias indígenas americanas como a do corvo e a raposa. O Momotarō do Japão. São todas histórias de fantasia que atravessam fronteiras.

Quase todas as culturas têm uma história sobre como descobriram o fogo, ou histórias sobre as cheias. Há certas histórias universais que são mitológicas, fantásticas, mas com que todos nos identificamos.

As ideias estão em todo o lado, é uma questão de as capturar e perceber que peças lhes tenho de acrescentar para as transformar numa história.

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SAGA ASSASSINO E O BOBO
LIVRO 1: O ASSASSINO DO BOBO

 

SAGA ASSASSINO E O BOBO
LIVRO 2: A REVELAÇÃO DO BOBO

 

SAGA ASSASSINO E O BOBO
LIVRO 3: A DEMANDA DO BOBO
George R. R. Martin elogiou muito os seus livros e, pelo que sei, vocês são amigos. Acha que A Guerra dos Tronos está atualmente a ofuscar todos os outros livros de fantasia?

Não, de todo! Como vivo e trabalho tanto à volta da leitura e dos escritores, sei que há muita coisa a acontecer. Agora existe muito aquilo que chamamos grimdark [subgénero de fantasia e ficção científica caracterizado por narrativas sombrias], mas também há romances de viagens no tempo.

Nos Estados Unidos, Outlander está a ser um enorme sucesso: de série literária transformou-se em série televisiva. Os Vingadores e os super-heróis da Marvel e da DC são fantasia. O Batman é fantasia.

As pessoas querem pôr a fantasia numa caixa pequena, mas ela transborda essa caixa. Se houver um fantasma na história, é fantasia! Podemos chamar-lhe romance paranormal, mas é fantasia.

Tudo o que é ficção é fantasia?

Diria que sim. Quando lemos um romance sobre pessoas que vivem como milionários e os seus amores e desgostos amorosos, estamos a ler uma fantasia.

Falemos da sua saga O Reino dos Antigos. Disse anteriormente que a primeira ideia que teve para a história de Fitz Cavalaria foi a noção de a magia como um vício destrutivo. Esforça-se por manter os seus romances realistas apesar de lidarem com características sobrenaturais?

Acho que para o leitor tem de ser muito fácil entrar no mundo e acreditar. As pessoas podem pensar que quando estamos a escrever fantasia podemos escrever aquilo que nos apetece, mas é mentira. Se estou a ler um livro em que o meu cenário fantástico é a agricultura e coloco as personagens a colher batatas na mesma altura do ano que alface… Em algumas partes do mundo é possível que aconteça, mas se não conheço o básico da realidade, se tenho alguém a caçar um veado numa altura do ano em que não é suposto caçarem-se veados…

Temos de escrever a partir de uma base de conhecimento e ter tudo o que poderia acontecer num determinado mundo o mais realista possível. Quando digo que um dragão vem aí, tem de estar assente na realidade.

Vemos o Stephen King fazer isto com o horror. Ele cria um mundo tão familiar que, quando surge o elemento de terror, é tudo muito real. Isto é verdade tanto para um livro muito bom de horror como de fantasia. Temos de criar o mundo em que vivemos com muita exatidão para que, quando introduzirmos os elementos fantásticos, eles sejam tão bons quanto os outros.

Acha que esse é um fator-chave para todos os escritores?

Talvez esteja a falar mais do ponto de vista de leitora. Se ler um romance de fantasia em que estão há três dias a atravessar o deserto num cavalo, sem beberem água, e de repente travam uma batalha com o mesmo animal, saio da história. É um cavalo mágico? Se não é, então quer dizer que os cavalos são diferentes no teu mundo e não me informaste disso? Saio imediatamente do livro.

Ter os elementos subjacentes o mais realistas possíveis é importante e exige pesquisa! Se vou escrever sobre um ferreiro, tenho de tirar tempo para ler e falar com pessoas que ainda praticam a atividade. Se não, vou escrever sobre os sons, o cheiro e o mundo dos ferreiros. E alguém que conhecer esse mundo vai fechar o livro.

A história do cavalo no deserto faz-me lembrar uma declaração sua em que dizia que escrever um livro é como fazer uma viagem na estrada.

Sim.

Sente que “perdeu o controlo” à história do Fitz em relação ao que tinha previsto inicialmente? Ou já estava preparada para seguir caminhos que não estava à espera?

Tem sido uma longa viagem. Se ler Aprendiz de Assassino [o primeiro livro que escreveu sobre Fitz], verá dicas e pistas de coisas que só se materializaram seis ou sete livros depois.

Enquanto escritora, [na saga] vejo um grande arco. E cada livro e trilogia é um arco mais pequeno. Nunca pensei vir a ter o privilégio de contar a história toda. Quando acabei de escrever A Vingança do Assassino e A Demanda do Visionário achava mesmo que era o máximo que conseguiria escrever e publicar sobre o Fitz. E depois comecei a trilogia Os Mercadores de NaviosVivos, que tem algumas ligações [com a história do Fitz], embora não fossem óbvias naquela altura. É preciso ser-se um leitor paciente para me ter acompanhado ao longo deste caminho.

Como chegou então à decisão de tornar A Viagem do Assassino o último livro sobre o Fitz? É mesmo o último?

Diria que chegámos definitivamente a um ponto de paragem. Não foi tanto uma decisão, tem mais a ver com o facto de que todas as histórias terminam onde a próxima irá logicamente começar.

As pessoas podem pensar que quando estamos a escrever fantasia podemos escrever aquilo que nos apetece, mas é mentira.

 

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Falemos sobre o Bobo. Inicialmente não era uma das personagens principais. Porque ganhou tanta importância ao longo da história?

Há partes do cérebro às quais acho que não temos completo acesso, por isso quando esta personagem foi construída tinha apenas uma deixa. Entrava em cena, dava ao Fitz uma informação e saía – no primeiro livro o Bobo apenas faz isso. Mas as personagens crescem e mudam, algumas são imprevisíveis, e de repente estamos a escrever um diálogo que não tínhamos a mínima ideia que íamos escrever.

A minha experiência diz-me que contar uma história é como seguir a corrente de um rio. Temos de nos manter na corrente mais forte porque se nos tentamos desviar para outra direção os leitores vão perceber. Vemos para onde a corrente da história vai levar as personagens e, se decidirmos ignorá-lo, fazemo-lo por nossa conta e risco. Quando o escritor tenta tomar o controlo da história é disruptivo.

Dedicou o livro ao Fitz e ao Bobo, os seus melhores amigos nos últimos 20 anos. Sente saudades deles ou está aliviada por ter terminado uma história tão longa?

Quando escrevemos uma história estamos sempre a ouvir vozes na cabeça a comentar o que estamos a fazer. É como se fosse um monólogo interno que estivesse sempre a acontecer. Quando isso para é muito estranho.

Disse no passado que escrever é uma obsessão e uma compulsão. O que reserva o futuro de Robin Hobb?

Neste momento tenho tido dificuldades com as minhas mãos. Por escrever tanto à máquina fiquei com artrite degenerativa, por isso não posso escrever durante tantas horas como costumava. Estou a escrever fantasia urbana, mas não sob o nome de Robin Hobb, antes sob o nome de Megan Lindholm.

Qual é a diferença entre as duas?

Ainda há uma grande diferença! Enquanto Megan escrevo histórias mais curtas. Há uma que vai sair agora numa antologia chamada The Book of Magic cujo cenário é Tacoma, Washington. É uma fantasia urbana, ou seja, nada que resultasse bem no estilo da Robin Hobb.

Porque sentiu a necessidade de canalizar essas diferentes “personas”?

São duas formas diferentes de escrever. Quando contamos histórias na família podemos dizer “vou contar-te esta história tal como a minha avó irlandesa me contava” ou “vou falar-te sobre o meu tio quando era miúdo”. São formas diferentes e acho que cada escritor tem essa voz. Se disser “era uma vez” sabemos imediatamente que não vou falar sobre a minha ida e vinda do trabalho.

Por: Tatiana Trilho
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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