Roald Dahl: Uma vida em três episódios

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Nasceu há 100 anos o homem que costumava falar de igual para igual com as crianças, não lhes escondendo que a vida pode ser penosa. Deslumbrou o mundo com narrativas tão mirabolantes como Charlie e a Fábrica de Chocolate, mas ele próprio passou por aventuras bem complicadas. Quem foi Roald Dahl?

Por: Tiago Matos | Ilustrações: Gonçalo Viana


A ESTRANHA LINGUAGEM DE ROALD DAHL

Roald Dahl utilizava palavras inventadas em quase todas as suas histórias infantis. Dava o nome de gobblefunk a esta estranha linguagem. Alguns exemplos:

Trogglehumper
Um sonho muito assustador

Bogglebox
Uma escola exclusiva para rapazes

Crodscollop
Um sabor excelente

Time-Twiddler
Algo imortal

Poisnowse
Algo venenoso

Swatchscollop
Um alimento repugnante

Scrumdiddlyumptious
Um alimento delicioso

 

EXISTE EM CARDIFF, no ano de 1924, uma loja de guloseimas que capta a atenção de todas as crianças da cidade. A dona da loja é uma velha mesquinha, de olhar desconfiado. Tem as unhas sempre muito sujas e modos a condizer. Costuma ameaçar os miúdos que se deixam ficar, embasbacados, a observar os seus doces. “Ponham-se a andar”, tem o hábito de lhes gritar. Até que, um dia, um grupo de amigos decide vingar-se dos maus-tratos.

São cinco, com idades entre os 7 e os 8 anos. Frequentam a mesma escola. A mesma turma. Um deles é Roald Dahl. Parece um plano perfeito. Um dos miúdos distrai a velha e os outros colocam um rato morto dentro de um dos frascos de rebuçados. Uma bela partida. Só que a velha descobre. E não acha graça. Faz queixa na escola e os culpados são chamados ao diretor, que os aguarda com uma vara. São brutalmente açoitados enquanto a velha sorri e aplaude, deliciada.


“Tenho uma paixão por ensinar as crianças a serem leitores, a sentirem-se confortáveis com um livro, a não serem repelidas por ele. Os livros não devem ser repelentes, devem ser engraçados, excitantes e maravilhosos. E aprender a ser leitor traz-nos uma tremenda vantagem.” Roald Dahl


É apenas o primeiro grande castigo da vida de Roald. Nas escolas britânicas, a violência faz parte da ordem do dia. Os alunos mais velhos humilham continuamente os mais novos. Os professores espancam-nos pelas mais pequenas ofensas. Felizmente, nem tudo é mau. Por vezes a escola é visitada por representantes da confeitaria Cadbury que, para testarem novos sabores, oferecem chocolates aos alunos. Para Roald, que mais tarde irá transportar o fascínio infantil por doces para os livros, estes momentos são mágicos. Deliciosas alegrias que o confortam sempre que o mundo não o trata bem.

O AVIADOR QUE TAMBÉM ESCREVE

Saltamos no espaço e no tempo. Estamos agora em 1942, nos Estados Unidos. Roald Dahl conversa com C. S. Forester, escritor de êxitos como Rainha Africana e As Aventuras de Hornblower. Fala-lhe da vida de aviador ao serviço da Força Aérea Real, das perdas de consciência que experienciou enquanto combatia na Segunda Guerra Mundial, da forma como foi depois enviado para a embaixada britânica em Washington na condição de diplomata.

Forester, que também escreve propaganda, interessa-se pela história. Pede a Roald que lhe envie algumas curiosidades a fim de as integrar num artigo mais extenso. Roald aceita o desafio e decide passar para o papel a aventura de 19 de setembro de 1940, quando foi forçado a aterrar de emergência num deserto da Líbia, fraturando no ato o nariz e o crânio e cando temporariamente cego. O estilo descomplexado da história agrada de tal forma a Forester que este decide publicá-la integralmente. É o primeiro texto de Roald Dahl, que na escola até costumava ouvir que não tinha jeito para a escrita.

O feito incentiva-o a continuar. Em 1943 publica o primeiro livro: The Gremlins. Destinado ao público infantil, apresenta um grupo de pequenas criaturas peludas que se entretêm a sabotar os aviões da Força Aérea Real para se vingarem dos humanos que destroem as suas florestas. É assim que Roald Dahl responde aos acidentes, aos bombardeamentos e à devastação generalizada da guerra: com a leveza de espírito de quem se recusa a levar o mundo – e a si próprio – demasiado a sério.

As personagens

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Willy Wonka


LIVROS: Charlie e a Fábrica de Chocolate e Charlie e o Grande Elevador de Vidro

Bizarro, extravagante e… genial. O dono da fábrica de chocolates Wonka não tem uma personalidade fácil, mas há que lhe reconhecer mérito na criação e gestão do seu estranho império de grandes máquinas, guloseimas e Oompa-Loompas.

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Sr. Raposo


LIVRO: O Fantástico Sr. Raposo

Engenhoso e persistente, o Sr. Raposo dá-se a grandes trabalhos para roubar galinhas da quinta de três agricultores malvados a fim de alimentar a mulher e os quatro filhos. Mas, por maior que pareça a adversidade, leva sempre a melhor.

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Grande Gigante Gentil


LIVRO: GGG – O Grande Gigante Gentil

Do alto dos seus sete metros, este gigante parece um monstro aterrador. No entanto, é na verdade um ser simpático e de bom coração, o único habitante do País dos Gigantes que é incapaz de devorar pessoas.

O ESCRITOR QUE NÃO DESISTE

Dezembro de 1962. Sul de Inglaterra. Roald Dahl marca um encontro com Geoffrey Fisher, ex-arcebispo de Cantuária, em busca de aconselhamento e conforto espiritual. Desabafa com o clérigo sobre os azares que o têm perseguido ao longo da vida: a morte inesperada da irmã e do pai, as lesões de guerra, o acidente que provocou hidrocefalia no seu lho bebé. Acima de tudo quer falar de Olivia, a sua lha de 7 anos. Quer combater a impotência que sentiu ao vê-la morrer de doença há pouco mais de um mês. Quer que o padre lhe assegure que a menina está bem, que se encontra no Paraíso a brincar com o seu adorado cão Rowley. É isto que Fisher faz. Mas com a ressalva de que Rowley não está com ela. Porque os cães não vão para o Céu.

A convicção do padre desarma o escritor. “Quis perguntar-lhe como tinha tanta certeza de que as outras criaturas não tinham direito ao mesmo tratamento especial que nós, mas a desaprovação que assentou junto à sua boca parou-me”, recorda mais tarde. “Fiquei a perguntar-me se este famoso homem da Igreja realmente percebia alguma coisa do que estava a falar. Se sabia algo sobre Deus e o Céu. E, se não ele, quem? Comecei a perguntar-me, a partir daqui, se Deus realmente existiria.”

Opta por desabafar através dos livros. Escreve GGG – O Grande Gigante Gentil, acerca de um gigante bom que protege uma menina num país de gigantes maus. Dedica-o a Olivia, tornando ainda mais evidente que o gigante o representa a ele próprio – Roald Dahl media quase dois metros. Baseia muitas outras histórias em episódios da sua vida: a magia dos chocolates em Charlie e a Fábrica de Chocolate; a ânsia de sustentar a família em O Fantástico Sr. Raposo; as injustiças da infância em Matilda.

A má sorte não deixa de o perseguir. Em 1965 a mulher sofre três aneurismas cerebrais e Roald vê-se a braços com a necessidade de lhe ensinar de novo a falar e a andar. Mas não desiste. Por vezes as coisas correm mal – muito mal, até – e temos de saber lidar com elas. Esta é uma das principais lições dos seus livros. A outra encontra-se em Charlie e o Grande Elevador de Vidro: “Um pouco de insensatez de vez em quando é apreciada pelos homens mais sábios.”

SOBRE
ROALD DAHL

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Nasceu no País de Gales, a 13 de setembro de 1916, mas os pais eram noruegueses. Aprendeu a falar norueguês antes do inglês.
Foi reconhecido enquanto Ás da Aviação, estatuto atribuído a aviadores que abateram pelo menos cinco aeronaves inimigas, pelo serviço na Segunda Guerra Mundial.
Escreveu dezenas de livros infantis mas também argumentos para teatro e cinema, romances para adultos, livros de poesia e ensaios sobre a sua vida.
Entre os filmes que escreveu contam-se o quinto filme de James Bond (Só se Vive Duas Vezes), o musical Chitty Chitty Bang Bang e a adaptação de 1971 do seu próprio livro Charlie e a Fábrica de Chocolate.
Foi casado com a atriz americana Patricia Neal, intérprete de clássicos como O Dia em que a Terra Parou, Hud e The Night Digger (escrito por Roald Dahl).
Morreu em Inglaterra a 23 de novembro de 1990. Para celebrar o seu bom humor e a atitude perante a vida, foi enterrado com chocolates, vinho, lápis, tacos de bilhar e até com uma motosserra.

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