Richard Zimler: “Um escritor é um ator e eu sou um ator de prosa”

Como é o quotidiano de um escritor quando apenas escreve? Entre um livro e outro, Richard Zimler fala do seu processo de escrita e anuncia o regresso ao romance histórico. Aos 59 anos e há 25 a viver em Portugal, Zimler reflete ainda sobre a estranheza de se ler primeiro numa língua que não é aquela em que escreve.

Entrevista por Isabel Lucas
Fotografias por Lara Jacinto/ 4SEE

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Leituras enquanto escreve

Enquanto escreve, Richard Zimler não lê prosa. “Interfere na escrita, não gosto.” A não ser que seja em português, porque não é essa a língua que pensa os seus romances. Frases, imagens poéticas, podem ser um estímulo para este norte- -americano naturalizado português, grande admirador de Miguel Torga, talvez o autor nacional que mais lê. “Ele contrariou uma tendência na literatura portuguesa para criar obras cada vez mais herméticas, desnecessariamente complexas”, justifica antes de dizer que a sua prosa “é concisa e límpida e, por isso, muito poderosa. Além disso, explora um Portugal que me interessa profundamente, o das pessoas rurais que lutam diariamente contra a crueldade da natureza e, sobretudo, do ser humano”.

Depois de A Sentinela, um livro contemporâneo, o que se segue? Isto obedece a algum plano?

Estou a escrever um romance histórico. Tive de fazer muita pesquisa e estou naquela fase em que trabalho seis, oito, dez horas por dia no livro. Nunca escrevo uma primeira versão porque volto sempre ao capítulo anterior e vou corrigindo, adicionando e cortando.

O regresso ao romance histórico obedece a algum plano?

Para melhor ou para pior, não consigo ter uma estratégia para a minha carreira. Penso que os meus agentes gostariam que tivesse, mas não consigo. Surgem ideias, penso nelas durante algum tempo, sei que alguma me irá obcecar. Não consigo dormir bem, tenho insónias e chega um momento em que vou começar a pesquisar e a confirmar que é dali que irá nascer o meu próximo livro.

Como surge essa confirmação?

Quando fico fascinado com as várias possibilidades que a história pode ter, que uma personagem pode ser…

Faz esquemas para não se perder?

Não. Tomo imensos apontamentos, porque leio muito. Para O Último Cabalista de Lisboa não sabia nada de Lisboa em 1506. Li 35 livros. Sobre culinária, sobre como eram as ruas, que roupa as pessoas usavam, qual a relação entre judaísmo e o rei D. Manuel. Felizmente, tenho uma excelente memória. Não é fotográfica, mas lembro-me de onde tomei os apontamentos, lembro-me de muitos factos, datas, pormenores que mais tarde podem surgir no livro. A memória salvou-me várias vezes na vida.

E há um tempo para a escrita, um padrão?

Não. Normalmente são entre quatro e seis meses de pesquisa e começo a escrever com uma ideia do primeiro capítulo. Depois não tenho a mais pequena noção do resto do livro. Vai evoluindo, o que é um prazer enorme, porque vou descobrindo o que o romance quer ser. É uma surpresa. Os meus livros são sempre uma grande surpresa. Se eu planeasse tudo, o livro seria meramente um espaço para preencher e seria uma seca. Se está tudo planeado na cabeça, para quê escrever o livro?


“Acabar um livro é o fim de uma relação, é o fim de um universo” 


O maior ou menor prazer que o autor tem na escrita reflete-se na leitura?

Quando um escritor já planeou tudo antes de escrever a primeira palavra, e tem a estratégia e a arquitetura para o livro já confirmadas, estabelecidas, o livro acaba por ser muito artificial. Quando o autor não tem flexibilidade para seguir pistas inconscientes, subconscientes, não pode variar. Isso torna o livro muito artificial. Podemos perceber isso de forma mais clara nos filmes. Quando o guião está escrito e o realizador não segue as pistas dos atores, o público sente que é tudo muito forçado, irreal, sem emoção. Eu vou mudando constantemente o meu guião.

Pode adiantar um pouco o que vai ser o próximo guião?

É segredo de Estado [risos]. Tem a ver com o judaísmo, e é um grande desafio porque toca alguns tópicos muito delicados. É capaz de criar controvérsia, porque vai mexer com as emoções de muita gente. Mas como ainda não completei o livro, não sei exatamente o que vai ser. É a tal história de inventar o romance à medida que o vou escrevendo.

Há uma data para o entregar?

Adorava acabar o livro no verão, mas não sei. Não gosto de mais pressão. Sempre que escrevo um romance quero que seja maravilhoso, com personagens únicas. Isso já é pressão suficiente. Não preciso de mais pressão dos editores com datas. Sou obsessivo.

Criou muitas personagens nestes anos. Elas desaparecem depois dos livros ou continuam a viver perto, continua a pensar nelas?

Continuam muito perto. Não sou maluco e consigo distinguir entre “realidade” e a minha vida interior, mas quando acabo um livro de que gosto muito, em que fico apaixonado e completamente envolvido naquele universo paralelo, fechar a porta, a última página, pode ser uma tristeza absoluta.

Nós que somos leitores temos esta experiência. Acabar um livro é o fim de uma relação, é o fim de um universo. Nunca mais vou entrar naquele universo de Tolkien, Stephen King ou William Faulkner, mas como escritor tenho a vantagem de as minhas personagens viverem na minha cabeça, sinto a presença dos narradores dos meus livros, de Berequias Zarco de O Último Cabalista de Lisboa, ou de Henrique Monroe de A Sentinela.

Quando estou a falar com alguém, consigo sentir o que ele pensava dessa pessoa, o que diria numa determinada circunstância. Sou um escritor não autobiográfico, acho que isso é ligeiramente diferente num escritor como Philip Roth, que baseia a sua ficção na sua própria vida. Não tenho nada contra. É um magnífico escritor, mas não é isso que faço. O escritor que não utiliza elementos muito autobiográficos está sempre a inventar uma fantasia. Faço isso diariamente, mais em inglês quando estou nos Estados Unidos.

Porque pensa em inglês?

Sim, e em Portugal não tenho muita possibilidade de falar inglês. Há coisas de que me esqueço e de que me lembro nos EUA.

Perde-se vocabulário?

Sim, vou perdendo vocabulário inglês. É esquisito mas é possível perder palavras. Uma vez ia no metro de Londres, alguém utilizou um verbo comum em inglês, to flinch (encolher-se), e tive um sobressalto porque tinha esquecido. Mas por causa da aproximação à língua, adoto outra personalidade e entro em fantasia com mais frequência. É uma loucura porque invento personagens para mim. Sou um ator. Utilizo vozes diferentes.


 O escritor tem um trabalho de ator.

Um escritor é ator e acho que sou um ator de prosa. Quando estou a escrever entro na pele do meu narrador, quer seja uma menina de 15 anos em Ilha Teresa ou um velho psiquiatra de 67 em Os Anagramas de Varsóvia. Poder ver o mundo através dos olhos de um velho, de uma jovem, de um cão. Nos EUA isso é-me mais fácil. Fiz a universidade no Sul dos EUA e utilizo com muita frequência o sotaque sulista.

Consegue imitar?

Muito bem. I can talk like in North Carolina if you want, I can go on like this… [imita] Quase não faço de propósito. Acho que qualquer bom escritor é muito suscetível à possibilidade de ser possuído por personagens e língua.

Pensa em inglês, escreve em inglês, mas quase sempre a primeira edição é em português. Isso é estranho? Sente que se perde algo?

É uma experiência estranha, mas não tão estranha quanto as pessoas possam pensar, porque faço uma revisão muito cuidadosa da tradução e as traduções são em geral excelentes. Trabalho com duas pessoas: José Lima e Daniela Carvalhal Garcia. Temos reuniões sobre as dúvidas, problemas.

É quase uma outra escrita?

Sim, gosto muito da possibilidade de fazer uma revisão cuidadosa da tradução portuguesa. É quase garantia para que a tradução seja excelente. Pode haver pequenos lapsos. Acontece na versão original em inglês. Há frases mal escritas em inglês. Mas é uma garantia que dou aos meus leitores portugueses de que o livro vai sair bem. Não consigo fazer isso em japonês, faço um pouco em italiano, mas não em polaco. Nesses casos a tradução vai sair com imensos pequenos erros, por mais talentoso que seja o tradutor. Tenho de confiar. Quase considero a versão portuguesa um original, de tal forma a acompanho e me revejo nela. Fica muito fiel. Quando leio um excerto para uma audiência, reconheço facilmente que fui eu que escrevi aquele parágrafo e não o tradutor. As frases correspondem ao meu pensamento.

O que o inspira para escrever?

Não preciso de qualquer inspiração exterior. Tenho uma teoria de que toda a vida é uma espécie de processo de feedback, de retornos. Quando jogava basquetebol, não precisava de inspiração para entrar no campo. Basta entrar e fazer um bom cesto ou um excelente ressalto, um passe, e ficava inspirado com as capacidades do meu corpo, pelo gesto de jogar bem. Escrever não é diferente. Ao escrever uma frase boa, uma frase poética, inteligente, sensível, fico inspirado pela frase. Revela alguma coisa. Ou quando surge uma personagem quase do nada e sigo-a.

Um artigo publicado recentemente numa revista norte-americana chama-lhe a consciência judaica de portugal. Revê-se nisso?

Era um artigo sobre mim e a minha escrita e não decidi o título. Destacaram o meu papel em Portugal como de memória, alguém que conseguiu levar aos portugueses a grande história judaica portuguesa que foi esquecida durante muitas décadas, talvez séculos. Orgulho-me dessa parte da minha vida.

Quando escrevi O Último Cabalista de Lisboa estava a pensar nos dois mil cristãos-novos que foram mortos e queimados em abril de 1506 no Rossio. Aquelas pessoas não são fantasia. Aquele livro é uma espécie de missão. Queria que essas duas mil pessoas fossem lembradas e também a nossa grande história judaica, porque faz parte da história portuguesa. Orgulho-me do memorial aos judeus mortos no massacre de Lisboa de 1506 que agora está em frente à Igreja de S. Domingos, onde começou o pogrom. Não sou melhor nem pior, mas consegui fazer algo que os outros escritores não quiseram ou não puderam fazer.

Foi mais fácil por não ser português, ter maior distanciamento?

Acho que por ser americano, estrangeiro e judeu. Não sou uma pessoa religiosa, mas conheço muito bem a história judaica, a cultura judaica, a religião, a Cabala ou o ramo místico. Se não tivesse esse conhecimento, teria ficado com muitas dúvidas. Como faria viver o mundo dos judeus em Portugal?


Em 2013 

Richard Zimler publicou um romance sobre o Portugal contemporâneo, o retrato de um país marcado pela corrupção onde acontece um crime e se desencadeia uma investigação que leva o livro para o campo do policial clássico. A Sentinela (Porto Editora) foi uma novidade no percurso deste escritor que começou no romance histórico com O Último Cabalista de Lisboa, livro de 1996 sobre o massacre dos judeus em 1506. Com 12 romances publicados e dois livros para crianças, o último lançado no início deste ano, Zimler está numa fase de escrita enquanto se prepara a adaptação ao cinema justamente de O Último Cabalista, que deverá começar a ser filmado no outono. É um tempo de silêncios que o escritor justifica como necessários, porque na escrita o estímulo vem sempre da possibilidade de mudança. Fomos encontrá-lo na sua casa no Porto, na que seria uma manhã típica de escrita não fosse haver um gravador ligado.

Bilhete de identidade

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Numa frase

“Fora da escrita a minha vida é banal”, diz Richard Zimler no seu português com sotaque, como se não houvesse mais nada.

De onde veio?

Aos 59 anos, este norte-americano natural de Roslyn Heights, Nova Iorque, onde nasceu em 1956, é formado em Religião Comparativa e Jornalismo. Antes de se mudar parao Porto, onde vive desde 1990, foi jogador de basquetebol e jornalista em São Francisco.

O reconhecimento

Em 1996, enquanto dava aulas de Jornalismo na Universidade do Porto, publicou o romance O Último Cabalista de Lisboa, um livro que rapidamente o tirou do anonimato. O livro foi um sucesso de vendas e recebeu vários prémios nacionais e internacionais. Conta a história do massacre dos cristãos-novos em 1506. Era o início de uma saga onde o escritor seguiu os passos das gerações seguintes da família Zarco, protagonista do primeiro romance.

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Outras paragens

Richard Zimler mudou de universo literário, revelando-se também fora do romance histórico em narrativas complexas com personagens marcadas pelo trauma, perda, relações familiares difíceis ou choques culturais. Tem 12 romances publicados e dois livros para crianças.

O novo livro e mundo de Zimler

Neste momento prepara um novo livro, adiando viagens – pelo menos uma por ano aos Estados Unidos – e reduzindo ao mínimo a sua vida social, feita a partir do Porto, mais precisa- mente da Foz, onde vive com o cientista Alexandre Quintanilha, seu companheiro há 36 anos, rodeado de peças de arte, fotografias, livros e da sua guitarra, que pega para tocar e cantar música como I Remember It Was May, a canção que escreveu depois da morte do irmão, vítima de sida.

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