Rentrée Literária

LIVROS COM HISTÓRIA

A cada novo ano, os editores querem títulos que marquem a diferença. Além do gosto pessoal, há vários outros aspetos que entram na equação do processo de escolha: originalidade e qualidade, mas também as expetativas de um público cada vez mais bem informado e com gostos mais abrangentes. e depois há as receitas para um sucesso quase garantido, entre as quais estará sempre uma boa história.

OS PORTUGUESES GOSTAM DE ROMANCES HISTÓRICOS

E de África. E de celebrar uma efeméride. Viajam muito menos do que há dez anos mas compram mais livros de viagens que os transportam para paragens onde nunca chegariam de outra forma. Fazendo o balanço das últimas décadas, são talvez os leitores portugueses com mais acesso à infoPicture7rmação e aqueles com um nível académico mais alto. E passaram a apreciar o livro enquanto objeto. Tudo isto está espelhado nas montras das livrarias e nas apostas dos editores. Para os próximos meses há promessas de novos autores e livros que fazem recuar aos alvores do século passado, mas também clássicos de viagens que nunca antes foram editados em português. “Em Portugal, desde que que comecei a trabalhar, o romance histórico sempre funcionou  extremamente bem. A História atrai mas acho que nem sequer é uma onda, é contínuo”, diz Simona Cattabiani, à frente da Jacarandá, a nova chancela da Editorial Presença (ver caixa). A trabalhar em Portugal há 19 anos, dá o exemplo da autora britânica Hilary Mantel cujas obras de ficção histórica sempre foram bem acolhidas. Até há alguns anos a ficção histórica vinha sobretudo do estrangeiro, mas hoje são vários os autores portugueses que se dedicam ao género. “Quase só o João Aguiar e o Fernando Campos tinham obra dentro deste género. As pessoas gostam de aprender enquanto leem e o romance histórico torna essa aprendizagem mais óbvia. Não é à toa que o José Rodrigues dos Santos escreve sobre factos e personagens históricos”, afirma Rosário Pedreira, editora da Leya e responsável pela seleção de novas obras de autores portugueses. Alguma desta ficção gira em torno de figuras da História nacional — empresários, filantropos, rainhas, escritoras — mas há também — tanto ao nível da ficção como da investigação histórica e jornalística — os que remetem para a vida nas ex-colónias portuguesas. Para Rosário Pedreira, o aparecimento de diversos títulos sobre o período do Estado Novo, a guerra colonial e as ex-colónias pode ser explicado de duas maneiras. “É preciso uma certa distância em relação aos episódios para falar deles. Mesmo na literatura. E há uma geração de escritores portugueses nascidos nos anos 70 e 80 que, por terem nascido em liberdade, não se sentem com vontade de escrever sobre coisas que não conhecem”, afirma. Já no que toca aos leitores, as razões podem ser diferentes: “Estamos mais informados, mais atualizados com o que se passa no mundo. Por outro lado, há leitores que nasceram depois dos anos 60 e 70, para quem este período já não faz parte da vida pessoal mas da História, e que têm curiosidade em saber mais.” Duas das apostas de Rosário Pedreira para a rentrée têm alguns destes ingredientes. A ação de As Palavras que me Deverão Guiar Um Dia, de António Tavares, passa-se em Moçâmedes, Angola, nos anos 60 e 70. Rosário Pedreira — responsável pela descoberta de nomes como José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe ou João Tordo — destaca a forma como a história é contada. “O narrador, a personagem principal, passa quase desconhecido para o leitor ao longo de todo o livro — não sabemos se tem país, onde vive… Em cada capítulo a sua história vai sendo contada através de  outras pessoas e é através delas que são reveladas as principais fases da sua formação”, explica. Amor entre Guerras, o primeiro romance de Sofia Ferros, teve um percurso diferente. O romance histórico, sobre a I Guerra Mundial, tem por base a história dos bisavós da autora e foi apresentado à editora, com a possibilidade de desenvolver a história até à atualidade. “Conta o percurso de um médico do Porto que se alista, é ferido na batalha de La Lys, apaixona-se e casa com uma francesa que cuida dele durante a convalescença. A história acompanha a vida do par até 1939. A francesa era bolchevique, ligada aos comunistas, e à chegada a  Portugal envolve-se com o movimento sindicalista e em algumas greves”, explica a editora. Neste caso, Rosário teve em conta a oportunidade do assunto e a originalidade da história de uma mulher que lutou pela emancipação feminina e pela liberdade dos povos, além de que a história se passa em África, numa época sobre a qual não há muita informação. “O que procuro é a diferença. Ler algo e pensar: nunca li isto antes! E essa diferença pode ser dada desde a maneira como a história é contada à linguagem ou à relação com o leitor. O tema é só uma vertente: pode não ter um tema marcante mas ser muito boa em termos de estilo ou linguagem. Já o contrário não é válido”, diz Rosário. Como leitora, a editora da Leya encanta-se sobretudo com o trabalho que o autor faz com a linguagem. “Há autores como Lobo Antunes que são sempre identificáveis. Podem concorrer a um prémio e  sabemos logo de quem é texto. Têm um estilo muito marcado. Atualmente existem muitos livros que, embora estejam bem feitos, não têm estilo”, assinala Rosário, que considera a proliferação de leitores, fruto das maiores taxas de escolarização, uma das razões para a multiplicação destes títulos. “Até aos anos 90 só a população culta comprava livros, os outros não liam. Com a democratização do ensino passou a haver um maior nível de escolarização que nem sempre foi acompanhado de mais conhecimento. As pessoas leem mais mas autores com um estilo mais marcado, como o Valter Hugo Mãe, continuam a ser pouco acessíveis a leitores não treinados”, refere.

simonacatablani

Simona Cattabiani, Jacarandá O segredo para criar um portefólio de sucesso é, para a responsável da Jacarandá, o equilíbrio entre autores comercialmente fortes e uma oferta de títulos que agrade aos diferentes tipos de leitores.

 

 

 

 

O PESO DA ATUALIDADE

Até lá abaixo, do jornalista Tiago Carrasco, vai na 3.ª edição. Lançado em 2011, narra a travessia do continente africano por três jornalistas (Tiago, o fotojornalista  João Henriques e o repórter de imagem João Fontes), num jeep e com orçamento limitado, rumo ao Mundial de Futebol, na África do Sul. Depois disto, o trio voltou a reunir-se numa reportagem aos países da chamada Primavera Árabe, da qual resultou A Estrada da Revolução. Estes tojornalista João Henriques e o repórter de imagem João Fontes), num jeep e com orçamento limitado, rumo ao Mundial de Futebol, na África do Sul. Depois disto, o trio voltou a reunir-se numa reportagem aos países da chamada Primavera Árabe, da qual resultou A Estrada da Revolução. Estes são dois exemplos que ilustram a aceitação que estes títulos têm vindo a ganhar junto dos leitores. Reportagens alargadas, investigações jornalísticas ou históricas sobre temas políticos e de atualidade têm sucesso. Efemérides como os 40 anos do 25 de Abril, os 50 anos do início da Guerra Colonial ou o centenário da I Grande Guerra despertam a sede de conhecimento sobre estes e outros temas relacionados: o Estado Novo, o regresso dos portugueses de África ou a situação atual de países em conflito. Novos títulos como A Máquina do Poder, dos jornalistas Miguel Pinheiro e Gonçalo Bordalo Pinheiro (A Esfera dos Livros), ou a reedição pela Leya de A Última Dama do Estado Novo e Outras Histórias do Marcelismo, do jornalista Orlando Raimundo, são mais dois exemplos integrados nesta tendência. A maior popularidade dos livros de viagens também está ligada ao aumento do acesso à informação por parte dos leitores portugueses. Os portugueses viajam muito menos do que há dez anos — segundo o Pordata, em 2002, 49% dos portugueses fizeram uma viagem de lazer, número que caiu para os 38% em 2012 — mas leem muito mais sobre viagens. “Os leitores tanto aderem a uma reportagem, a um diário de viagem como a um romance”, afirma Madalena Alfaia, assistente editorial de Bárbara Bulhosa, a responsável editorial da Tinta da China. “Todas as pessoas gostam de viajar e imaginam viagens mas a maioria acaba por não ter tempo para as realizar. Acabam por partir para outras realidades à distância de um livro”, esclarece Madalena. A coleção de viagens da Tinta da China, coordenada por Carlos Vaz Marques, já tem mais de 25 títulos, aos quais se juntam agora A Estrada para Oxiana, de Robert Byron — clássico da literatura de viagens, publicado pela primeira vez em 1937 — e Dália Azul, Ouro Negro — uma viagem a Angola, de Daniel Metcalff , publicado há alguns meses no Reino Unido e nos EUA e cuja carga política gerou polémica. “A ideia de Vaz Marques é diversifi car ao máximo. Há livros que sempre quis publicar, como o do Byron, e outros, como os da Alexandra Lucas Coelho, que vão acontecendo. É um pouco o reflexo do ecletismo do Carlos”, diz Madalena Alfaia. Nesta coleção da Tinta da China, Alexandra Lucas Coelho tornou-se uma espécie de autora de culto depois da publicação de Caderno Afegão. “Esse livro é um caso especial, teve cinco edições. Saiu com a questão afegã e dos direitos das mulheres no auge e estabeleceu uma grande empatia com o público. Há quem tenha comprado e volte à Feira do Livro para comprar todos os outros”, explica.

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Paulo Rebelo Gonçalves, Porto Editora
O porta-voz da Porto Editora destaca a antologia de António Ramos Rosa, Poesia Presente, que contará com prefácio de Tolentino Mendonça.

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Maria do Rosário Pedreira, Leya
Enquanto editora, procura a diferença. Já como leitora, é o trabalho que o autor faz com a linguagem que mais a cativa.

PORTUGUÊS COLECIONISTA

A Tinta da China tem feito da aposta nas coleções uma das chaves do sucesso. “Trabalhamos de perto com os coordenadores de cada coleção. Carlos Vaz Marques (viagens), Pedro Mexia (poesia) ou Ricardo Araújo Pereira (humor) fazem as escolhas e acompanham de perto o trabalho de produção. Leem os originais, as traduções, as capas e, se os autores forem portugueses, trabalham diretamente com eles”, explica Madalena.
Outra marca distintiva desta editora é o grafismo. “É algo que influencia a relação dos leitores com o livro. Há um apelo do objeto, as capas duras e os materiais seduzem as pessoas”, diz. No entanto, a Tinta da China tenta combater a ideia de que basta uma boa imagem para agarrar o leitor. Para Madalena Alfaia as editoras independentes “podem dar-se ao luxo de perder tempo com o livro enquanto objeto”, o que também é uma forma de as definir. “A relação que temos com o livro é diferente: não almejamos ao mesmo número de vendas, por exemplo. Somos mais livres a escolher o que publicamos e podemos também ser mais criativos a produzir os livros”, diz. Dá o exemplo das edições Ahab, editora do Porto que tem marcado a diferença, tanto pelo trabalho de design como pela publicação de “autores muito bons mas relativamente desconhecidos em Portugal”. “Eu própria entrava numa livraria, reconhecia de imediato os livros da Ahab e tinha o impulso de os comprar todos”, confessa. Esta estratégia levou a resultados de algum modo improváveis. A coleção de poesia, criada no ano passado e coordenada por Pedro Mexia, tem vendido bem num país em que a poesia nunca foi um mercado de peso. “O sucesso da coleção não tem a ver com uma maior procura de livros de poesia pelos portugueses — estatisticamente, a nível global, se calhar até se vendem menos. Tem mais a ver com o interesse que as pessoas têm em colecionar. Por outro lado, o coordenador da coleção é o Pedro Mexia, é respeitado e reúne consenso. As pessoas antecipam uma qualidade cultural nos livros.” Por isso, a escolha dos coordenadores é essencial. Com a fasquia colocada bem alto, a casa aposta nas traduções e na mais-valia que pode dar a cada livro. “Desde que Fernando Pessoa entrou no domínio público tivemos que descobrir uma forma de marcar a diferença. Além de trabalhar com o Jerónimo Pizarro [um dos principais especialistas em Pessoa da atualidade], tentámos criar uma coleção que fizesse justiça ao poeta, que não fosse só mais uma edição do Livro do Desassossego, estratégia transversal a toda a editora”, afirma. Alguns dos livros requereram anos de trabalho. É o caso da Obra Completa de Álvaro de Campos, um trabalho coordenado por Jerónimo Pizarro que será lançado em outubro, ou de 77 Canções, de John Berryman, com tradução de Daniel Jonas, nas livrarias em novembro, pela primeira vez em português. Noutras editoras, a poesia parece dar cartas na rentrée. É o caso da Assírio & Alvim, que lança uma nova antologia de António Ramos Rosa. “É um dos maiores poetas portugueses do século xx, falecido há pouco tempo e que é uma entrada nova para o nosso catálogo. Esta antologia, Poesia Presente, é organizada por Maria Filipe Ramos Rosa e contará com um prefácio de Tolentino Mendonça”, explica Paulo Rebelo Gonçalves, porta-voz da Porto Editora, detentora da chancela.

Isabel Minhós Martins, Planeta Tangerina
A editora começou por ser constituídaPicture8 por um grupo de  amigos que decidiu trabalhar em conjunto. Hoje este conjunto de autores/editores está mais estruturado mas mantém muito do espírito inicial.

“A riqueza e variedade de livros no quarto de uma criança
ou numa biblioteca é o mais importante”
Isabel Martins

DE PEQUENINO SE ESCREVE O DESTINO

A trabalhar em conjunto desde 2000, o coletivo de autores que compõe a Planeta Tangerina tem tido sucesso junto do público e da crítica. A opção de serem, em simultâneo, editores e autores é arriscada mas tem compensado. “A venda de direitos internacionais dá-nos um certo fôlego. Há muitas vantagens em ser autor e editor ao mesmo tempo. Há mais riscos mas temos maior autonomia e liberdade. Tentamos trabalhar com pessoas de fora e, nesses casos, assumimos apenas o papel de editor, o que é diferente. A ideia é trabalhar com autores diferentes, tanto ao nível do texto como da ilustração”, afirma Isabel Minhós Martins.
A editora começou por ser constituída por um grupo de amigos que trabalhavam em conjunto para fazerem uma revista, depois projetos por encomenda e, agora, livros infanto-juvenis. História que hoje se refl ete no funcionamento e escolhas da casa.
“Nunca tivemos uma estratégia muito defi nida. Fazemos uma reunião geral, uma a duas vezes por ano, lançamos ideias para o ar e aprovamos alguns projetos. Uns são desenvolvidos por nós, outros por pessoas externas, mas nada é muito pensado”, diz Isabel Minhós Martins. Ao contrário de outras editoras, por aqui efemérides ou temas “quentes” da atualidade não servem de pretexto para o lançamento de novos títulos. A ligação ao quotidiano é feita de outra forma. “Há pouco tempo lançámos um guia para descobrir a natureza, em conjunto com duas biólogas. Este era um projeto que o Planeta Tangerina já tinha há algum tempo porque pensamos que, atualmente, as crianças passam muito tempo dentro de casa e não sabem o nome das árvores da rua nem das aves, o que é uma pena porque Portugal é muito rico nesses aspetos”, explica a autora e editora. A coleção de livros digitais e interativos Cantos Redondos que tem dois novos títulos na calha até ao final do ano — foi pensada pelo Planeta Tangerina para dar uma oferta diferente aos leitores mais pequenos. A busca de originalidade também se reflete em novos títulos como ABZ DDDDD, o novo livro de Yara Kono (ilustradora distinguida no ano passado com uma menção do júri na categoria Opera Prima nos Bologna Ragazzi Awards pelo livro A Ilha, com texto de João Gomes de Abreu), ou O Mundo ao Contrário, do ilustrador alemão Atak. “Ele tem um trabalho muito particular a nível gráfico, usa a técnica do guache de forma muito expressionista e ainda não é publicado em Portugal”, explica Isabel Minhós Martins. Longe vão os tempos em que os livros infantis se resumiam a histórias de encantar. Hoje, há estrelas pop a assinarem livros infantis — Madonna, há já uns anos, ou Keith Richard, dos Rolling Stones, que se prepara para lançar Gus e eu, sobre o seu avô (edição da Jacarandá) — e a realidade migrou para as páginas dos livros infantis. Ao contrário do que acontecia com quem cresceu nos anos 70 e 80, as crianças de hoje podem encontrar nos seus livros histórias de pais divorciados e de famílias que escapam à imagem tradicional. “Por vezes isso não é feito de forma muito clara. Por exemplo, no livro O Meu Vizinho é Um Cão, em que um prédio vai sendo ocupado por animais, há um casal de elefantes, ambos machos, que ocupa um dos andares, ficando no ar a ideia de que aquele pode ser um par homossexual. Já em Todos Fazemos Tudo surgem pessoas de diferentes idades, géneros e cores a fazerem todo o tipo de tarefas”, exemplifica Isabel Minhós Martins. E se esta entrada do real nos livros infantis é positiva, a editora não deixa de realçar que as antigas histórias de encantar, em que tudo acaba bem, também são necessárias pelo seu caráter “securizante”. “A riqueza e variedade de livros no quarto de uma criança ou numa biblioteca é o mais importante”, conclui. 

OUTROS LIVROS PARA LER
A partir de Setembro

ultimadama

A ÚLTIMA DAMA
DO ESTADO NOVO E
OUTRAS HISTÓRIAS
DO MARCELISMO
Orlando Raimundo
Leya
Dez anos depois, Raimundo publica uma edição mais completa da obra, que parte de Ana Maria Caetano para analisar os últimos anos de ditadura.

bach

BACH
Pedro Eiras
Assírio & Alvim
Livro de ficção que evoca personagens e lugares relacionados com o compositor.

nos

NÓS
David Nicholls
Jacarandá
O novo livro de David Nichols esteve na long list do Booker Prize e será publicado em novembro.

facilitadores

OS FACILITADORES
Gustavo Sampaio
Esfera dos Livros
Uma investigação jornalística que põe a nu a forma como a política e os negócios se entrecruzam nas sociedades de advogados

houseofcards

HOUSE OF CARDS
Michael Dobbs
Jacarandá
A obra que deu origem à conhecida série de televisão sobre os bastidores da política tem agora a sua primeira edição em português.

A Estrada Para Oxiana

 A ESTRADA PARA OXIANA
Robert Byron
Tinta da China
Primeira edição em português de um clássico da literatura de viagem publicado pela primeira vez em 1937. O livro narra, em forma de diário, a viagem pelo Médio Oriente feita por Byron e Cristopher Sykes no início dos anos 30 do século passado.

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