Regresso ao Passado: os livros que os escritores liam em criança

livros-de-infancia-escritores-portugueses

Quisemos conhecer as leituras de infância dos escritores portugueses. Descobrimos leitores precoces e outros que já iam adiantados no ensino primário quando tiveram o primeiro contacto com os livros. Alguns adoravam contos infantis, outros odiavam os livros da Condessa de Ségur, houve quem viajasse até ao Mississippi com As Aventuras de Tom Sawyer e até quem se sentisse profundamente enganado por Lewis Carroll: afinal, Alice no País das Maravilhas era um livro que “fazia batota”. Mas todos os autores confirmam: o vício da leitura ficou-lhes para sempre.

Por: Susana Torrão
Ilustração: Catarina Sobral

Ler Victor Hugo cedo demais deixou Hélia Correia “vacinada” contra o autor francês. Com uma infância atípica para uma criança dos anos 50, Hélia cresceu em Mafra, num ambiente de oposição ao salazarismo, e teve uma educação progressista e pouco controlada. Aprendeu a ler sem dar por isso aos 4 anos – era a mais nova e a vizinha adorava brincar às professoras – e, a partir daí, leu tudo a que conseguia deitar a mão. Aos 6 anos, o médico de família, amigo dos pais, declarou que a menina tinha um esgotamento. Solução: adiar um ano a entrada na escola e tirar-lhe todos os livros do alcance. Mas Hélia arranjou forma de contornar as proibições médicas: “Lia pedaços dos jornais que forravam o caixote do lixo. Além disso, a escola primária era mesmo ao pé e eu trepava por uma varanda e a pendurava-me para assistir à aula dos rapazes.

A professora achava graça.” Com a entrada na escola, os hábitos de leitura foram retomados. “Tinha leituras comuns – mais próprias para a idade (embora tivesse medo de Júlio Verne) – e os livros que apanhava à mão e de que tenho péssimas recordações porque não tinha idade para ler aquelas coisas.” Os pais não lhe controlavam nem os movimentos nem as leituras. “As crianças eram verdadeiramente livres: saíam e os pais não se preocupavam. Não sabiam se estava a ler, a brincar, ou o que estava a ler”, recorda Hélia Correia.

Das leituras infantis recorda, com agrado, as edições Romano Torres, através das quais conheceu Walter Scott e outros românticos ingleses, a coleção Biblioteca dos Rapazes – também existia a das Raparigas mas Hélia e os amigos recusavam-se a lê-la – com títulos como As Viagens de Gulliver ou Robinson Crusoé, e a coleção Manecas. Os livros eram partilhados entre os amigos e transformados em brincadeiras. “Vivíamos as aventuras todas do Ivanhoé, dos cowboys. Não éramos miúdos a brincar aos cowboys, éramos miúdos a entrar dentro dos livros”, diz Hélia Correia. Na Ericeira, no verão, as leituras eram menos tentadoras, resumindo-se à coleção Azul, que incluía as obras da Condessa de Ségur, da biblioteca da madrinha. “Eu odiava a Condessa de Ségur”, lembra. O único título da coleção que recorda com agrado é A Princesinha, de Frances Burnett.

teolinda-gersao-livro-da-infancia

Teolinda Gersão

A Pequena Sereia fez-me chorar imenso porque era ao contrário das histórias com final feliz da tradição popular”

Mitologia à medida

Para Teolinda Gersão, é mais fácil traçar uma ligação entre as leituras de infância e a sua obra. Sempre teve um gosto especial pelos contos tradicionais. “Os contos inscrevem-se no nosso inconsciente e é o nosso inconsciente que leva à necessidade de contar histórias para entendermos o mundo. Borges dizia que o conto nunca acabaria porque era intrínseco ao ser humano. Amor, morte, sexualidade, são temas eternos e que são tratados nos contos. E eu sou uma escritora para quem o inconsciente tem muita força”, afirma. Na infância, entre Coimbra e Cernache, eram as histórias que lhe interessavam. Aprendera a ler ainda antes de ir para a escola e deliciava-se com os contos tradicionais, as fábulas e os livros de adivinhas e lengalengas. Além disso, adorava as histórias da tradição oral, contadas pelas empregadas em Cernache. Se incluíssem o diabo e lobisomens, melhor! “Em casa diziam-me sempre que não existia nem o diabo, nem almas do outro mundo, nem feiticeiras, nem bruxas, o que era muito tranquilizador. Mas fui educada catolicamente e acreditava nos anjos e também achava que as fadas deviam existir porque eram benfazejas… Adorava que me contassem histórias de almas penadas”, conta a escritora.

Teolinda Gersão era fã da Condessa de Ségur. “Ofereceram-me a coleção Rosa Ilustrada, gravuras muito bonitas assinadas por Dayard, e li os livros todos. Um dos meus preferidos era O General Dourakine, porque a Condessa de Ségur era de origem russa e escreveu a pensar nas suas origens”, recorda. Além de a pôr em contacto com um país e cultura diferentes, o livro acabou por prepará-la para leituras futuras. “Ao ler Tolstói, já no liceu, reencontrei o universo da Rússia”, afirma. Outros autores, como Hans Christian Andersen, deixaram-lhe memórias menos agradáveis: “Teoricamente eram histórias para a infância, mas são histórias de adulto.

A Pequena Sereia fez-me chorar imenso, porque era ao contrário das histórias com final feliz da tradição popular. A sereiazinha faz sacrifícios terríveis para se aproximar do príncipe e não consegue. Como em O Príncipe Feliz, de Oscar Wilde.” Já O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, e Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, não correspondiam às expetativas. “A personagem era ao contrário do que deviam ser os príncipes: valentes, que matavam dragões, salvavam princesas prisioneiras e casavam com elas. Por isso a história não me convencia”, explica. E Alice no País das Maravilhas – que hoje adora – era um livro “que fazia batota”. “Contava uma série de coisas absurdas: ela aumentava de tamanho, diminuía, aparecia a lebre maluca, a rainha que queria cortar a cabeça das pessoas com trocadilhos de palavras que são muito engraçados em inglês mas cuja tradução não me dizia nada e, no fim, era tudo um sonho! Eu pensava: Assim também eu! Esse livro enfurecia-me!”


 

valter-hugo-mae-livro-da-infancia

Valter Hugo Mãe

“Aos 10 anos, vi numa montra um livro de Alfred Hitchcock para miúdos. Foi o primeiro que tive. Chamava-se O Segredo do Castelo do Terror

Primeiro livro como revelação

Valter Hugo Mãe soube que queria escrever aos 13 anos, pouco depois do primeiro contacto com os livros. “Aos 10 vi numa montra de uma livraria-papelaria um livro de Alfred Hitchcock para miúdos. Foi o primeiro que tive. Chamava-se O Segredo do Castelo do Terror”, recorda. Sentiu-se identificado com a história. “A minha família tinha- -se mudado de Paços de Ferreira para Vila do Conde e deixámos de viver num casarão enorme, imenso, antigo, para passar a viver num apartamento. De alguma maneira, o castelo assombrado da história de Hitchcock podia parecer a casa onde tínhamos vivido, cheia de escuridões e de ruídos. O livro parecia responder às minhas dúvidas e aos meus receios.” Leu-o “como quem descobre os mistérios de Deus” e nunca mais parou.

Continuou com Hitchcock e depois com Os Cinco e a obra de Enid Blyton. “Havia uma necessidade de ser alimentado com aquelas aventuras. Depois de começar a ler esses textos de Hitchcock tive a perceção de que o livro me dava uma dimensão da vida da qual eu não queria mais abdicar. Viver sem os livros era viver mais pequenino”, assume.

Nas aventuras de Enid Blyton admirava a amizade verdadeira entre as personagens e a capacidade de encontrar respostas para problemas aparentemente insolúveis. “Corresponde à ansiedade natural dos miúdos de terem amigos profundamente fiéis e uma certa procura de respostas. Quando somos miúdos, muitas das coisas são misteriosas porque não nos são explicadas.” Valter era um miúdo solitário – ou pelo menos sentia-se assim, já que não se identificava com as pessoas à sua volta – e os livros serviam de companhia.

“As antigas imensas férias de verão eram o tempo em que eu mais lia e escrevia”, recorda. A casa da mãe ficava a 80 metros da praia, mas Valter regressava à escola ainda mais pálido. “Não sentia que estivesse a perder algo. Os livros criavam-me sempre uma sensação de urgência: eram tantos que tinha a sensação de que o tempo não era suficiente.”

O autor diz “ter tido o juízo” de destruir o que escreveu na adolescência, mas assume que as primeiras leituras foram determinantes na sua vida. “É claro que aquilo que eu faço é diferente desses livros de Hitchcock, mas nos meus romances há uma espécie de assombro e uma explicação da realidade a partir de um mundo de fantasia. E os livros de Hitchcock, eventualmente os livros para miúdos e de Kafka, fazem muito isso.”


O livro mais marcante da infância de…

mariana-mortagua-livro-da-infancia

Mariana Mortágua

Deputada do Bloco de Esquerda
“A minha primeira memória são os livros e revistas da Rua Sésamo que adorava e devorava, como qualquer criança da minha geração. Mas o livro de que me lembro e que associo à infância, embora mais tarde, chama-se Senhor Deus, esta é a Ana [escrito por Fynn]. Marcou-me sobretudo pelas ilustrações, que sempre adorei. Não me fez acreditar em Deus, mas por algum caso a história tocou-me. Hoje nem sei se é um bom livro do ponto de vista literário, não voltei a lê-lo e guardo só a memória.”

tania-ribas-de-oliveira-livro-da-infancia

Tânia Ribas de Oliveira

Apresentadora de televisão
Rosa, Minha Irmã Rosa. Este livro da Alice Vieira marcou-me profundamente. Trata o tema do nascimento de um irmão de uma forma única e doce. Li-o e reli-o vezes sem conta!”

jose-diogo-quintela-livro-da-infancia

José Diogo Quintela

Humorista
“O livro da minha infância são todos os do Astérix. Tinha quase todos os álbuns, herdei-os de um tio. Quando me lembro de estar a ler quando era miúdo, é sempre um Astérix, enquanto comia uma pratada de Corn Flakes. Sem ser com bonecos, é a coleção das aventuras de Patrícia, da Julie Campbell. Uma rapariga detetive, tipo Miss Marple adolescente.”

nilton-livro-da-infancia

Nilton

Humorista
“Eu penso que terá sido O Principezinho, até porque me lembro de olhar para a capa e pensar se haveria mesmo aquele planeta e porque não caía ele para o espaço num planeta tão pequeno. Foi um livro que me marcou pela mensagem. Mas também me lembro das primeiras vezes que visitei os Contos do Gin-Tonic do Mário-Henrique Leiria e pensar: que humor é este?
Que histórias são estas que entendo algumas e outras não? Essas sim, foram grande influência na formação do que é o meu humor e, acima de tudo, na forma surrealista de ver e encarar o mundo.”

luis-de-matos-livro-da-infancia

Luis de Matos

Mágico
O Principezinho, de Saint-Exupéry. De tal forma foi impactante na minha vida que passei a colecionar dezenas de versões nas mais variadas línguas. Os temas, os motivos, os símbolos e as ilustrações completam um conjunto de magníficas metáforas onde se desmarcara a ignorância das mentes fechadas, que afastam as pessoas da felicidade plena. A cada meia dúzia de anos, leio-o de novo. É sempre diferente porque a forma magistral como está escrito permite que nele possamos rever sempre o nosso próprio crescimento. Foi por isso que quando um amigo meu, entretanto falecido, completou 100 anos, lhe ofereci O Principezinho.”

 

hugo-goncalves-livro-da-infancia

Hugo Gonçalves

O Estrangeiro, de Albert Camus, marcou-me imenso”

Leitores tardios

Segundo de quatro irmãos, Hugo Gonçalves passou a infância na rua a jogar futebol e a andar de bicicleta, na zona de Cascais. “Até aos 16, 17, não era um grande leitor… Lia Os Cinco e Uma Aventura, que era o que toda a gente lia.” Era sobretudo o lado do entretenimento e da emoção que lhe agradava. “Tinha já um profundo deslumbramento com a possibilidade de contar histórias, de ver ali a vida organizada – se bem que isto é uma análise que faço agora, quase aos 40 anos – e tirar alguma sabedoria e emoção daquilo”, explica. Curioso, lia jornais e via os noticiários. “Acho que foi por isso que comecei pelo jornalismo. Tinha muito gosto em saber, lia muitos jornais, lembro-me do ritual de ir comprar O Independente à sexta-feira… Mais do que tudo, havia um desejo de conhecimento – de História, de atualidade e aquele que resulta da literatura. Depois dei o pulo na fase em que descobrimos Fernando Pessoa e ficamos deslumbrados com a poesia.” A cada livro lido seguia-se um conto, “uma tentativa de pastiche” do que acabara de ler. Hugo Gonçalves não hesita em apontar a obra que mais impacto teve na sua juventude: O Estrangeiro, de Albert Camus. “Marcou-me imenso. Li-o na altura em que começamos a pensar mais na vida, na morte, no que estamos aqui a fazer.”

Também Raquel Ribeiro tem pouca memória de livros que tenha lido na infância, embora destaque O Principezinho – que a mãe lhe contava quando ainda não sabia ler – como obra-chave. “A minha mãe fazia um esforço para me mostrar as imagens e há coisas que ainda guardo visualmente do texto. O livro abriu um mundo de fantasia que é bastante importante para mim, porque há referências que tenho ainda hoje”, explica a autora. Raquel gostava de ler, mas tem dificuldades em recordar títulos. “Sei que gostava de ler e que no início a minha mãe me lia livros antes de dormir – coisas clássicas como O Gato das Botas.” Na verdade, mais do que os livros que leu, a autora recorda até hoje o livro que não leu: Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, de Alves Redol. “No 5.º ou 6.º ano, tínhamos de fazer uma apresentação sobre um livro. E eu, armada em esperta, resolvi escolher um livro diferente. A minha família ficou muito orgulhosa, mas eu nunca consegui passar da página 20 e tive de ir ler outro a correr para fazer a apresentação.” Aos 11 anos, Raquel era uma rapariga sossegada: não fazia desporto, nunca fez campismo e não era muito dada à natureza. Era através dos livros de Uma Aventura e de Os Cinco ou da coleção Carlota que vivenciava um lado mais aventureiro. “Mostravam que rapazes e raparigas podiam fazer coisas aventureiras, como os adultos nos filmes de ação. E os livros de Uma Aventura permitiam-no de uma forma concreta e criavam um mundo alternativo”, explica.

Assume que transportou a busca pela utopia tanto para o jornalismo como para os romances. “A questão das utopias, como O Principezinho, e do fim das utopias, no caso de Huxley e Orwell, está presente na minha escrita. E, mesmo como jornalista, ando sempre à procura do que poderia ter sido, de um ‘se’, um grande ‘se’. De certa maneira, O Principezinho também é isso: e se tudo isto fosse possível? Porque faz parte de um mundo paralelo que não existe mas que, no fundo, é o mundo das crianças.”


Um regresso à infância

Autora de livros para crianças, Rita Taborda Duarte elege Bichos, Bichinhos, Bicharocos, de Sidónio Muralha, como o livro da sua infância. “Não me lembro se terá sido, de facto, o primeiro livro que li, e que idade teria, mas a verdade é que já sabia alguns poemas de cor ainda antes de saber ler e hoje ainda recito ao meu filho mais pequeno, antes de o deitar, ‘Bichinho de Conta’, de Sidónio Muralha.” O Principezinho, uma edição em banda desenhada de Um Cântico de Natal, de Charles Dickens, a versão de João de Barros de A Odisseia – que o pai lia repetidamente a Rita e à irmã –, A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen e A Nau Catrineta também fazem parte do seu imaginário. A musicalidade das palavras atraía-a. De A Menina do Mar, Rita recorda a beleza da escrita, a par com a história. Para a autora a escrita não é mais do que uma variação da leitura, e assume que esses livros por vezes aparecem nas histórias que agora escreve. Caso de A Verdadeira História de Alice, onde se encontram também O Principezinho e as “Alices” de Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho. E não terá sido por acaso que a filha se chama Mariana, nome da protagonista de Rosa, Minha Irmã Rosa, de Alice Vieira.

rita-taborda-duarte-livro-da-infancia

Rita Taborda Duarte

“Já sabia alguns poemas de Bichos, Bichinhos, Bicharocos de cor ainda antes de saber ler”

afonso-cruz-livro-da-infancia

Afonso Cruz

“Li muitas vezes O Raio U, fascinado com aquele mundo de dinossauros e naves espaciais dos anos 50”

Universo da banda desenhada

Afonso Cruz e Nuno Camarneiro partilham duas coisas: passaram a infância na Figueira da Foz e associam as primeiras leituras aos livros de banda desenhada, embora em géneros diferentes. Afonso Cruz preferia Moebius, Jacques Tardi, Fred e Hugo Pratt. Nuno Camarneiro elegia Hergé, Goscinny e Uderzo.

Filho único, Afonso Cruz refugiava-se na leitura. À banda desenhada juntava clássicos juvenis como Os Sete ou a coleção Mistério, ambos de Enid Blyton. E aos 12 passou a ler os livros do pai.

“O primeiro foi de Dostoiévski: Sonho de Um Homem Ridículo. Depois A Quinta dos Animais, de Orwell, [Truman] Capote, e Diário de Um Louco, de Gogol.” As estantes da biblioteca do pai eram, aliás, um espaço de descoberta que visitava amiúde: “Podia abrir um livro, perceber se gostava da escrita, voltar a pô-lo na estante ou levá-lo para o sofá ou para a cama. Foi também aí que me cruzei com as coleções Vampiro, Argonauta, Cavaleiro Andante e fascículos de Tintin.” Não era só o pai que lhe influenciava as escolhas.

“A minha tia dava-me sempre uma nota de 500 escudos (um balúrdio) quando a visitava, e por vezes oferecia-me um dos seus livros. Deu-me um que se chamava Porque Cantam as Aves? Disse-me que iria gostar desse. E não sei se é por causa disso ou se é por feitio e ela percebeu, mas realmente gosto muito de pássaros, na natureza e na literatura”, conta. Mas O Raio U, de Edgar P. Jacobs, é o livro da sua infância. “Li-o muitas vezes, fascinado com aquele mundo de dinossauros e naves espaciais dos anos 50 e com mais uma série de pormenores que nem sempre eram marcas positivas e que talvez por isso, pela estranheza, tenham feito com que o livro perdurasse na memória.” Os livros acabaram por se tornar parte de si – “Ando sempre acompanhado da minha infância para onde vou, construído por todos os livros que li como se fossem ossos ou vísceras, parte do meu corpo” –, pelo que muitas vezes tem dificuldade em apontar, de forma consciente, influências quando escreve ficção infantojuvenil. “Em Os Livros Que Devoraram o Meu Pai, por exemplo, abordo o arrependimento, a purga, a redenção, um pouco na esteira de Dostoiévski. Talvez a motivação para me debruçar nesses temas venha desses anos formadores, mas não foi algo que tivesse sentido ou pensado.”

Já Nuno Camarneiro atribuiu aos livros que leu na infância e adolescência a criação do imaginário que o acompanha. Além de Tintin, Astérix e Spirou, Nuno Camarneiro recorda O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Um pouco mais tarde, foi a obra de Júlio Verne, em especial 20 Mil Léguas Submarinas, a povoar a imaginação do futuro cientista – Nuno Camarneiro é licenciado em Física e chegou a trabalhar no CERN, o maior laboratório de física do mundo. “Sempre gostei de ciência e não sei até que ponto Júlio Verne não terá alguma responsabilidade nisso”, admite. O escritor foi também um leitor ávido de Os Cinco e Uma Aventura. Aos 12 anos leu A Metamorfose, de Kafka, que marcou a passagem para outras leituras. “Deixou-me muito baralhado, surpreso. Na altura terei lido metade do livro. Mas também foi o descobrir que a literatura pode ser mais do que a descrição de uma história. Daí ter sido tão marcante.”

clara-ferreira-alves-livro-da-infancia

Clara Ferreira Alves

“Atraía-me a aventura, a vida selvagem de Tom Sawyer e Huckleberry Finn”

O apelo do Mississipi

Quando Clara Ferreira Alves chegou à escola já sabia ler, e aos 8 anos percebeu que era de escrever que gostava. Dos primeiros livros tem uma memória vaga. Na infância, As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, foi o livro que lhe encheu as medidas. Por oposição à vida monótona que tinha em Lisboa – “Andava numa escola feminina, num colégio privado. Ia para o colégio, vinha do colégio, tínhamos de obedecer a regras, de ir à catequese, à missa ao domingo” –, as peripécias vividas por Tom Sawyer e Huckleberry Finn nas margens do Mississippi eram um bálsamo. “Atraía-me a aventura, o lado exótico de tudo aquilo, a vida selvagem de Sawyer e Finn, o facto de não irem à escola, a vida junto do Mississippi, que era tão diferente da minha.”

Clara Ferreira Alves recorda ainda algumas frases e a capa do livro, que era do pai e deve ter tido outros donos, de tão velho que era, em que um dos rapazes tinha um cachimbo na mão. “Imagine a loucura que seria hoje ter uma criança a fumar na capa de um livro”, diz, entre risos. Mais tarde leu Moby Dick, de Herman Melville, na versão inglesa. “Estava sempre a parar e a ir ao dicionário. Não o percebi bem, mas li-o. Mais tarde, quando já não tinha problemas com a língua, voltei a lê-lo e percebi que da primeira vez não tive o entendimento completo do lado simbólico da obra.” Em casa, os livros estavam acessíveis a quem os quisesse ler. “Havia alguns impróprios para a minha idade, mas não estavam escondidos. Alan Sillitoe, um romancista inglês vindo da classe operária – há poucos –, tinha um livro chamado Sábado à Noite e Domingo de Manhã, que li nos primeiros anos do liceu e foi chocante para mim. Dava uma visão realista da classe operária inglesa: tinha bebedeiras, adultérios e havia uma parte em que a personagem feminina faz um aborto na banheira. Aquilo chocou-me imensamente.”

Há alguns anos deu ao filho As Aventuras de Tom Sawyer, mas ele não sentiu o mesmo fascínio. “Um dia disse-me que não estava muito interessado na vida no Mississippi. Na altura já havia coisas como Gameboys e jogos de Playstation que lhe pareciam mais interessantes. O que não me surpreendeu. Os horizontes dele já estavam muito mais dilatados do que os meus quando li o livro.”

7 companheiros para a infância


0-3 anos

O Livro da Selva

Yoyo Studios
Um clássico infantil contado de forma interativa e divertida. As aventuras de Mogli podem ser tocadas, estimulando a sensibilidade tátil dos bebés.
Yoyo Books

Livro Clap

Madalena Matoso
Um livro para abrir e fechar. De cada vez que isso acontece, há algo que mexe e faz barulho lá dentro.
Planeta Tangerina

4-6 anos

O Chapeleiro e o Vento

Catarina Sobral
Há um chapeleiro hábil e perfecionista que cria chapéus para os clientes mais exigentes. Mas algo o aborrece: a incapacidade de fazer um chapéu que se perca ou voe com o vento. Será que vai conseguir?

APCC


A Menina Gotinha de Água

Papiniano Carlos (texto) e Henrique Cayatte (ilustrações)

História criada nos anos 60 que narra de forma poética e divertida o ciclo da água.

Assírio e Alvim

Chocolate à Chuva

Alice Vieira
Terceiro livro da trilogia iniciada com Rosa, Minha Irmã Rosa, este livro acompanha as dificuldades de Mariana em ajudar a sua amiga Rita, cujos pais se divorciam.
Caminho

7-9 anos

A Contradição Humana

Afonso Cruz
Uma história que alerta para a necessidade de olhar o mundo com curiosidade. Só assim podem descobrir-se histórias incríveis. Que muitas vezes incluem contradições.
Caminho

+10 anos

O Cavaleiro da Dinamarca

Sophia de Mello Breyner Andresen (texto) e Henrique Cayatte (ilustrações)
Um cavaleiro que vive com a família nas florestas da Dinamarca decide ir passar o Natal na Palestina. A viagem prossegue depois em cidades como Veneza ou Florença.
Porto Editora

Gostou? Partilhe este artigo: