D. Quixote de la Mancha: 400 anos depois

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Quatro séculos após a publicação do segundo volume de D. Quixote de la Mancha recordamos os episódios mais marcantes da obra e do seu autor, sem nunca esquecer a história que marcou, e continua a marcar, a da literatura.

Entrevista por Mariana Araújo Barbosa
Ilustrações de Richard Câmara

Personagens

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Dom Quixote

Sonhador e fantasioso, o cavaleiro fidalgo tem cerca de 50 anos e parte numa viagem à procura de aventuras e conquistas.

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Sancho Pança

É o outro lado da moeda. Escudeiro de Dom Quixote, é baixo, gordo e realista. Viaja ao lado do fidalgo, sempre montado num burro. É definido como “homem do bem com pouco sal na moleirinha”.

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Dulcineia

Inspirada em Ana de Zarco, paixão de Cervantes, o nome sofreu uma ligeira alteração (Ana, Dulce Ana, Dulcinea). As referências fazem duvidar sobre a sua existência, que poderá ser mais um dos delírios de Quixote.

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Rocinante

É a égua de Dom Quixote. O seu nome significa cavalo fraco e pequeno. Apesar de magra, acompanha o cavaleiro em todas as aventuras.

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Clavileño

Cavalo de madeira que Dom Quixote e Sancho Pança acreditam ter dominado mas que não passa de um animal inanimado.

Montado na égua Rocinante – esquelética como o dono –, Dom Quixote de la Mancha chega a um campo de moinhos de vento e confunde-os com gigantes. Este é um dos momentos em que nos damos conta da loucura do cavaleiro fidalgo: de tanto ler romances de cavalaria, Dom Quixote mistura fantasia com realidade. É também uma das muitas aventuras descritas em Dom Quixote de la Mancha, cujo primeiro volume foi lançado por Miguel de Cervantes em 1605 mas que não seria o mesmo sem a segunda parte, publicada em 1615, faz agora 400 anos.

“A chave da modernidade de Quixote reside na liberdade que Cervantes se outorgou como narrador e que nenhum outro tinha podido sequer imaginar antes. Até então, tudo eram convicções literárias e regras a cumprir para escrever, fosse um livro de pastores, de cavalarias ou uma história sentimental. Cervantes fez o que lhe apeteceu e, por isso, pode começar com um ‘cujo nome não quero lembrar-me’. E esse ‘não quero, não me apetece’, é um ato decisivo que se multiplica nesse maravilhoso quebra-cabeças de jogos entre ficção e realidade que é a segunda parte, de 1615”, esclarece Luis Gómez Canseco, professor catedrático de Literatura e escritor de El Quijote, de Miguel de Cervantes, uma análise à obra, considerada o primeiro romance moderno da História e um dos trabalhos mais marcantes da literatura mundial.

A história da História

A história de Dom Quixote de la Mancha permanece viva, tanto nas aventuras contadas como no Caminho de Dom Quixote, que se prolonga por mais de 2000 quilómetros em 148 cidades, numa viagem (distinguida como Itinerário Cultural Europeu pelo Conselho da Europa, em 2007) que liga todos os pontos mais importantes que Cervantes refere nos 126 capítulos do livro. É ainda um dos livros mais vendidos do mundo (estima-se que tenha vendido entre 500 e 600 milhões de cópias) e um dos mais traduzidos de sempre (o segundo depois da Bíblia, de acordo com o jornal britânico The Guardian), além de, em 2002, ter sido eleito pelo Clube do Livro da Noruega como a melhor obra de ficção de todos os tempos.

“Algo deve ter para que leitores de épocas e culturas distantes tenham coincidido em avaliá-lo como um livro sem igual. Dostoiévski escreveu que ‘não existe obra mais profunda e consistente. É a última e máxima palavra do pensamento humano.’ E não é apenas pelo que Dostoiévski disse. O segredo é abrir o livro e entrar. A quem o faça, esperam-no horas de alegria e inteligência, toda a humanidade, o entusiasmo e o humor de Cervantes. Tonto quem não o leia”, refere Gómez Canseco.

Cervantes, por sua vez, descreve a sua obra como “uma ordem desordenada […] de maneira a que a arte, imitando a natureza, parece que ali a vence”. Através do seu Cavaleiro da Triste Figura, o autor satiriza os feitos fantasiosos dos heróis das histórias da época e cria um símbolo ficcionado de uma geração em declínio, dando início a uma das eras mais marcantes da literatura espanhola e europeia.


 

Roteiros

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1. Toledo a San Clemente
A rota de Dom Quixote começa em Toledo, património da Humanidade da UNESCO. Aqui pode começar por descobrir os famosos moinhos de vento.
2. San clemente a Villanueva de los Infantes
Aqui o viajante poderá encontrar os monumentos mais importantes de La Mancha. É também perfeito para observar as aves migratórias na sua viagem entre África e a Europa.
3. Villanueva de los Infantes a Almagro y Calatrava la Nueva
A terceira parte da rota de Dom Quixote foi onde o cavaleiro começou a planear seriamente as suas aventuras futuras.
4. De Alcabacete a Alcaraz y Bienservida
Esta parte da rota aproveita uma linha de caminhos-de-ferro que nunca se chegou a utilizar e chega aos limites da Sierra Morena.
5. Da hoz do Río Dulce a Siguenza y Atienza
O último itinerário leva o viajante ao limite norte de Castilla-La Mancha.

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MIGUEL DE CERVANTES

O autor de Dom Quixote de la Mancha nasceu a 29 de setembro de 1547, em Alcalá de Henares. A sua obra é uma referência a nível mundial e a sua influência no castelhano é tão grande que é muitas vezes apelidado “a língua de Cervantes”, à semelhança da língua portuguesa com Luís de Camões.

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Apócrifo determinante

Em setembro de 1614 é publicada uma falsa sequela de Dom Quixote de la Mancha. O autor não é Miguel de Cervantes. Em Segundo Tomo del Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha, que contiene su tercera salida: y es la quinta parte de sus aventuras, compuesto por el licenciado Alonso Fernández de Avellaneda, natural de la villa de Tordesillas, um autor cuja verdadeira identidade é ainda hoje desconhecida imagina uma sequela em que Quixote já não está apaixonado por Dulcineia e Sancho Pança é marcadamente malicioso e materialista. As diferenças são demasiadas e a obra é imediatamente condenada pela crítica. “Cervantes tinha uma visão do mundo muito mais humana e amável, perdoava os defeitos das pessoas”, explica Gómez Canseco em entrevista ao El Cultural. E, no entanto, esta estranha imitação tem o condão de estimular Cervantes a completar a sua própria sequela. “Nas mãos de Cervantes, o Quixote de Avellaneda converte-se num instrumento totalmente excecional para mudar a história da literatura”, sublinha Gómez Canseco. “Por isso se diz que a história da literatura moderna começa nesse momento.”

O homem por trás da obra

ESTADIA EM LISBOA

Foi na expectativa de acompanhar um herói – no caso, um rei – que Miguel de Cervantes chegou a Lisboa, quando a cidade estava em alerta por causa da peste. O autor integrava o séquito de Filipe II, o primeiro da dinastia Filipina em Portugal. Em Espanha fica a família falida e a vontade de não voltar: Cervantes via Lisboa, onde viveu entre a primavera de 1581 e a de 1583, como a oportunidade de trabalhar para o rei e eventualmente emigrar para a América a fim de se dedicar a tempo inteiro às paixões poéticas e amorosas.

Os dias e noites do espanhol em Lisboa eram passados entre as tarefas ordenadas por Filipe II e as considerações sobre o povo português. “São agradáveis, corteses, liberais e apaixonados porque são discretos; e a beleza das suas mulheres admira e apaixona”, escreveu. Foi tal a experiência que alguns historiadores acreditam que pode ter sido na capital portuguesa que nasceu a sua filha, Isabel de Saavedra.

O MITO DA POBREZA

Além da missão em Lisboa, Miguel de Cervantes desempenhou outros cargos públicos bastante bem remunerados – e, diga-se, pouco compatíveis com o mito da sua pobreza. A revelação, uma das últimas relacionadas com as investigações em torno da história do autor, foi concluída após a descoberta de quatro documentos em La Puebla de Cazalla que referiam que a sevilhana Magdalena Enríquez, fabricante de biscoitos e quarta mulher do escritor, recebia o seu salário quando se ausentava.

UMA VIDA ATRIBULADA

Um manuscrito datado de 5 de março de 1593, dando Cervantes como comissário da Fazenda Real e, como tal, encarregado por Filipe II de assegurar o abastecimento de trigo e cevada da Armada, despoletou a curiosidade do investigador José Cabello Núñez que, ao longo de quase três anos, pesquisou, um a um, os milhares de documentos sobre o autor depositados no Arquivo do Distrito Notarial de Morón de la Frontera. Os achados de Núñez lançaram novas pistas sobre a vida de Cervantes: lutou em Lepanto, foi capturado por turcos em 1575 e esteve cinco anos em cativeiro. Sabe-se ainda que tinha lesões no esterno resultantes de tiros de arcabuz, que os ossos da sua mão esquerda apresentavam deformações graves e tinha apenas seis dentes. Estes pormenores têm ajudado uma equipa de cientistas a vasculhar o interior do antigo Convento das Trinitárias Descalças, em Madrid, em busca dos restos mortais do autor, que terá sido ali sepultado em 1616. No início de 2015 foi encontrado um caixão com as iniciais “M. C.” de ferro. Será o de Cervantes?

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