Quem foi Jorge Luis Borges?

Achava-se poeta mas ganhou fama enquanto contista. Ficou cego mas não deixou de escrever. Criava complexos labirintos de texto. Referenciava livros que nunca existiram. Morreu há 30 anos. Como se tornou Jorge Luis Borges um dos mais importantes escritores de todos os tempos?


SOBRE JORGE LUIS BORGES

– Nasceu em Buenos Aires, na Argentina, a 24 de agosto de 1899.
– Interessou-se pela leitura graças à biblioteca do pai, composta quase exclusivamente por livros em inglês.
– Herdou do pai um problema na visão que o cegou ainda relativamente jovem. Nunca aprendeu a ler em braile.
– Trabalhou como publicitário, escrevendo anúncios a iogurtes.
– Viveu a maior parte da vida com a mãe, que lhe costumava ler e escrever o que ditava.
– Casou duas vezes: a primeira aos 68 anos – durou três anos – e a segunda algumas semanas antes de morrer, com a assistente que contratou para substituir a mãe.
– Morreu em Genebra, na Suíça, a 14 de junho de 1986. Tinha 86 anos.

BORGES EM DISCURSO DIRETO

“Um livro não é um ser isolado; é um relacionamento, um eixo de inúmeros relacionamentos.”
“Sempre imaginei que o paraíso seria algum tipo de biblioteca.”
“Não tenho a certeza de que eu exista. Sou todos os escritores que li, todas as pessoas que conheci, todas as mulheres que amei, todas as cidades que visitei, todos os meus antepassados.”
“A realidade nem sempre é provável. Mas se escrevemos uma história temos de a fazer tão plausível quanto possível, ou a imaginação do leitor rejeitá-la-á.”
“Há muito que desejo escrever sob pseudónimo uma crítica feroz contra mim próprio.”
“Não fales a não ser que possas melhorar o silêncio.”
“Não consigo dormir a não ser que esteja rodeado de livros.”

Estamos em 1938. É véspera de Natal e em Buenos Aires sente-se um calor húmido e desconfortável. Jorge Luis Borges sobe apressado a calle Ayacucho, empolgado com a ideia de convidar uma amiga para jantar. Pelo caminho, talvez atraiçoado pela fraca visão que desde jovem o atormenta, embate com força contra uma janela aberta, acabada de pintar. Os vidros rasgam-lhe a testa, deixando cortes profundos. O seu sangue espalha-se pela rua suja. Conduzem-no ao hospital mais próximo, mas esquecem-se de lhe limpar convenientemente a ferida. Resultado: Borges vive entre a insónia e o delírio nas duas semanas que se seguem. Fica perto de morrer. Salva-se por pouco, graças a uma intervenção cirúrgica bem-sucedida, mas teme que o acidente lhe tenha afetado as capacidades mentais. Receia já não saber escrever. E este cenário apresenta-se-lhe tão assustador como a própria morte.

O NASCIMENTO DO CONTISTA

Antes do acidente, Jorge Luis Borges considerava-se um poeta. É desta arte que provêm alguns dos autores que mais admira, nomes como Walt Whitman, William Shakespeare ou Luís de Camões. Para ganhar a vida, publica poemas – assim como crónicas e ensaios – em revistas e jornais. Mas, mais do que isto, a escrita representa para Borges um importante ponto de contacto com o mundo, ou não se tratasse de um homem profundamente introvertido e solitário. “Eu sei que não consigo viver sem escrever”, confessa um dia. O acidente põe tudo isto em causa. Borges não suporta a ideia de já não ser capaz de escrever poesia e decide testar as capacidades com um formato que nunca tentou: o conto de ficção. Parece-lhe um golpe mais suave. Sempre pode justificar um eventual falhanço com a inabilidade específica na escrita de ficção. Acontece que “Pierre Menard, autor do Quixote”, a história que resulta deste exercício, se revela um sucesso. “Se não fosse aquele golpe que levei na cabeça, talvez nunca tivesse escrito contos”, admite mais tarde o argentino.

A CONSAGRAÇÃO

Os anos passam e a visão dissipa-se até se extinguir por completo. Mas Jorge Luis Borges continua a escrever contos, ditando-os primeiro à mãe e, após a morte desta, a uma assistente. Reúne-os em coleções como Ficções, O Aleph e O Livro de Areia. Mistura factos e fantasias em cenários que exploram ideias tão complexas quanto inesquecíveis. É disto exemplo “A Biblioteca de Babel”, um conto sobre um arquivo colossal de livros compostos por todas as combinações possíveis de letras – o que significa que disponibiliza todos os livros alguma vez escritos e todos os livros que o poderão eventualmente ser. A literatura é, de resto, um dos motivos mais recorrentes de Borges, que preenche com frequência as histórias com alusões e críticas a livros e autores que nunca existiram. Não é uma leitura fácil. E, no entanto, o argentino afirma-se gradualmente como um dos mais importantes e influentes autores do século XX. Acaba por morrer sem vencer o Prémio Nobel de Literatura, talvez devido ao conservadorismo de algumas das suas ideias políticas ou ao apoio que manifesta um dia para com o ditador chileno Augusto Pinochet. Ainda assim, nada mal para um homem que acredita que um escritor não deve nunca ser julgado pelas suas ideias, mas antes pelo prazer que proporciona e pelas emoções que provoca.

 


5 AUTORES INFLUENCIADOS POR BORGES

Umberto Eco

O Nome da Rosa, o mais célebre romance deste italiano, foi fortemente influenciado pelo estilo de Jorge Luis Borges, ao ponto de ser por muitos tido como um tributo a este. A comprová-lo está a gigantesca biblioteca que serve de elemento central ao enredo, gerida por um livreiro cego chamado Jorge… de Burgos.

Italo Calvino

Outro italiano que tem Borges como influência é Italo Calvino. São vários os paralelos na obra de ambos: o experimentalismo, a exploração da linguagem e a subversão do papel do escritor. Isto é particularmente evidente em obras como As Cidades Invisíveis e Se Numa Noite de Inverno um Viajante.

Thomas Pynchon

Jorge Luis Borges é de tal modo uma influência que Pynchon chega a referi-lo no seu Arco-Íris da Gravidade. Também o romance O Leilão do Lote 49 terá supostamente sido baseado num conto do argentino.

Gonçalo M. Tavares

Entre os escritores portugueses, o autor de livros como Atlas do Corpo e da Imaginação e Matteo Perdeu o Emprego é o que apresenta mais semelhanças para com o estilo de Borges. Nada que se estranhe: Gonçalo M. Tavares já assumiu ser leitor do argentino e até já escreveu sobre ele em Biblioteca.

Paul Auster

O americano incitou a ira dos argentinos quando um dia considerou Jorge Luis Borges um “genial escritor menor”. Tenha ou não a desvalorização sido intencional, a verdade é que a Trilogia de Nova Iorque de Auster apresenta claras semelhanças com a obra de Borges, desde logo por partir de um mistério para explorar linguagem.


Texto: Tiago Matos | Ilustração: Gonçalo Viana

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