Receita Literária: Estoril de Dejan Tiago-Stanković

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Dejan Tiago-Stanković coloca o chapéu de chef e revela-nos os segredos do seu último romance, Estoril: Um Romance de Guerra.

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Estoril: Um Romance de Guerra
O chef:
Dejan Tiago-Stanković Nasceu em Belgrado mas naturalizou-se português. Além de romancista, foi responsável pela tradução de um livro de José Saramago para sérvio.

PRINCIPAIS INGREDIENTES

“Lembram-se da abertura do filme Casablanca? Estoril poderia ter a mesma introdução. São muitas as histórias cruzadas que acontecem numa pequena riviera, neste cantinho de Europa onde reina a paz e os dias são de sol. Os refugiados ficavam por aqui à espera como se nada de estranho estivesse a acontecer, numa vida de fausto, na praia e no Casino, assistindo a corridas de carros, de cavalos, a festas nos salões de hotéis e noites de fado.

A história tem também uma parte invisível a olho nu. Nesses tempos, em Lisboa, havia uma guerra escondida entre os serviços secretos dos países beligerantes, tudo sobre o escrutínio atento da PIDE. Mas, por trás de tudo isso, sentia-se uma tristeza profunda. Saint-Exupéry, que passou por Portugal nessa época, a caminho dos Estados Unidos, chamou a Estoril o ‘paraíso triste’.”

MODO DE PREPARAÇÃO

“Escrevo lentamente e com muito prazer. Não sou o único que gosta de histórias. Tal como existe fome por comida ou por amor, existe no ser humano uma carência básica e instintiva para ouvir histórias de outras pessoas. Diferentes pessoas tratam essa necessidade de maneiras distintas: uns seguem o que se passa na vizinhança, outros veem reality shows, filmes ou séries. Ainda há quem leia. O trabalho do escritor é fornecer histórias a quem gosta de livros.”

O TRUQUE DO CHEF

“Não existe um truque ou uma receita segura para um bom livro. Porém, há muitas coisas que um livro bom não pode ser. Por exemplo, não pode ser chato. Os leitores têm cada vez menos tempo e mais distrações. Não podemos aborrecê-los e testar a sua paciência. Por isso, um livro bom não pode ter palavras a mais. Tem de existir uma razão para cada frase. Se o escritor sabe o que está a fazer, isso transparece. Se não, também se nota logo.”

INDICADO PARA…

“Júlio Cortázar guardava, na sua sala, um caleidoscópio que lhe servia para testar os convidados. As visitas que mostravam interesse no estranho objeto ficavam ‘qualificadas’ para serem suas amigas. É assim que eu imagino os meus leitores: são aqueles que pegam logo no caleidoscópio, os mesmos que, em criança, gostavam de ouvir histórias antes de ir dormir.”

QUEM DEVE (MESMO) LER ESTA RECEITA

“Quem procurar bem ao longo do romance, vai encontrar pequenas homenagens aos escritores que traduzi e com cuja obra aprendi a escrever: José Saramago, Fernando Pessoa, Ivo Andrić. Se estivessem vivos, gostaria que encontrassem essas homenagens pessoalmente. Visto que me atrasei, talvez envie um livro a Pilar del Río na esperança de que goste, que ela sempre soube reconhecer boa escrita.”

NÃO ESQUECER!

“Os leitores são, por definição, inteligentes. Não ter isso sempre em mente é faltar-lhes ao respeito. Quando o escritor lhes dá a papinha feita, os leitores não só ficam aborrecidos como até se ofendem por sentir a condescendência.”

DICA FINAL

“O escritor faz apenas metade do trabalho. Conta a história. Outra parte compete ao leitor. Cada um lê como lhe dá mais prazer. Se tivesse que escolher um único conselho, diria talvez para que tentassem ler como se estivessem a ver um filme.”


Fotografia: Branislav Mihajlovic

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