Quais são os livros que nos fazem rir?

O país conhecido pela melancolia do fado, pela severidade dos padres e da religião, o país das viúvas de negro, inventor da saudade, afinal também sabe rir. E tem quem faça do riso um ofício.

 


O HUMOR DOS GRANDES ROMANCISTAS



O COMPLEXO DE PORTNOY
Philip Roth

Philip Roth é um dos expoentes máximos do humor judaico. O Complexo de Portnoy, uma viagem pelas neuroses de um adulto que ainda não se livrou da influência da mãe, foi a sua confirmação como um dos grandes da literatura americana.


PNIN
Vladimir Nabokov

Pnin é considerado o mais divertido livro de Nabokov, misturando de forma notável realismo e fantasia. Conta a história de um professor russo, emigrados nos Estados Unidos, que os alunos consideram um fenómeno raro.


BONS AUGÚRIOS
Neil Gaiman e Terry Pratchett

Publicado em 1990, Bons Augúrios é um romance crítico e mordaz, com uma pitada de humor negro, sobre o fim do mundo. Entre piadas, Neil Gaiman e Terry Pratchett fazem ainda uma série de observações mais ou menos filosóficas sobre o mundo e o papel do homem.


A IMPORTÂNCIA DE SER EARNEST
Oscar Wilde

É uma comédia de costumes, com um estilo irónico, inteligente e acutilante, que satiriza os comportamentos da classe alta da sociedade vitoriana. Sobre ela, o próprio Wilde disse: “Devemos levar todas as questões triviais muito a sério e todas as questões sérias da vida com uma trivialidade sincera e estudada.”


QUATRO LIVROS EMBLEMÁTICOS


01
A Vida e opiniões de tristram Shandy
Laurence Sterne

Originalmente publicado em nove volumes entre 1759 e 1767, o “livro dos livros” – pela forma como quebra todas as regras do romance convencional – é considerado uma obra-prima da sátira e do humor.

02

Uma Conspiração de Estúpidos
John Kennedy Toole

Vencedor do Pulitzer de Ficção, começou por ser recusado pelas maiores editoras norte-americanas. Publicado já depois do suicídio de John Kennedy Toole, é visto com uma tragicomédia, entre o burlesco e o disparatado.

03

À Boleia pela Galáxia
Douglas Adams

Primeiro livro de uma série de seis, À Boleia pela Galaxia agrega à sua volta uma fiel legião de fãs. Combina ficção científica com o humor nonsense tão típico de Monty Python.

04

A Sorte de Jim
Kingsley Amis

Lançado em 1954, A Sorte de Jim é uma comédia do absurdo que satiriza a vida académica de um jovem professor universitário. É considerado um marco da literatura do pós-guerra.

Começou há séculos com as cantigas de escárnio e maldizer, com os autos de Gil Vicente, a poesia de Bocage, e nunca mais parou. Um povo que se leva demasiado a sério, que prefere rir à porta fechada e que tem dificuldade de rir de si mesmo conseguiu ver nascer autores capazes de fazer rir os portugueses. O humorista Nuno Markl, que também é escritor, argumentista e radialista, não duvida que somos um país com “sentido de humor, mas com flutuações e particularidades”. A saber: “Rimos muito facilmente do outro. Mas ficamos revoltados quando se riem de nós.” E, acima de tudo, “ainda nos ofendemos demasiado com tudo”.

Nada que desencoraje quem faz do humor uma arte e uma arma. Prova disso são as duas edições de Antologia do Humor Português, com a última a pegar no ponto em que a primeira parou. O primeiro livro, editado em 1969, começa nas cantigas de escárnio e maldizer e atravessa toda a história portuguesa, passando por Gil Vicente e Fernão Mendes Pinto, e detendo-se em Bocage, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós. São 62 autores que incluem ainda Gervásio Lobato, Mário Cesariny e Luiz Pacheco. O livro, uma seleção de Vergílio Martinho e Ernesto Sampaio, pode ser difícil de encontrar sem ser em algum alfarrabista.

Mais acessível é a edição de Nuno Artur Silva e Inês Fonseca Santos, de 2009. São quase 500 páginas de uma seleção que fornece coordenadas de leitura para a bibliografia de cada um dos autores, esmiuçando os tipos de humor sem esquecer os contextos socioeconómicos, políticos e culturais da sua génese. “O humor vive muito da sua circunstância”, mas por mais voltas que a Terra dê sobre si mesma, há nomes intemporais e incontornáveis, reconhece Inês Fonseca Santos: Dinis Machado em O Que Diz Molero, Nuno Bragança “em alguns momentos de A Noite e o Riso”, e depois um conjunto alargado de poetas que exploram uma vertente do humor ligada à ironia. “São filhos de Alexandre O’Neill, como Manuel António Pina, Jorge Sousa Braga ou Daniel Maia-Pinto Rodrigues, que combinam o humor com uma certa melancolia.”

LITERATURA COM HUMOR OU LITERATURA DE HUMOR?

É difícil falar de uma literatura de humor em Portugal. O que sobressai são “textos com humor, um recurso como qualquer outro, de que se aproveitam os escritores”, diz Inês Fonseca Santos. Na Antologia é evidente a importância crescente da blogosfera e do jornalismo, a par da proliferação de textos que nasceram na rádio e espetáculos de comédia de stand-up. É isto que distingue a maior parte destes textos da literatura de humor: o livro não é o princípio, mas uma forma de dar credibilidade.

João Cerqueira, autor das sátiras A Tragédia de Fidel Castro e A Segunda Vinda de Cristo à Terra, é muito crítico do atual estado da arte. Lembra que “o humor e a sátira já foram um elemento fundamental da nossa literatura”. Dá o exemplo de Gil Vicente, Camilo, Eça, Ramalho Ortigão ou Almada Negreiros, que “satirizaram sem piedade a sociedade em que viveram”. Mas hoje “a sátira parece estar fora de moda e o humor rareia”.

Nuno Markl partilha de parte desta opinião. “Não temos muitos escritores de humor como o Mário-Henrique Leiria ou, citando um exemplo mais distante, o meu tio-tetravô, Gervásio Lobato. Mas vamos tendo alguém como o Mário Zambujal, que continua em grande forma.” O que abunda são “ótimos autores de humor”. Dá como exemplo Ricardo Araújo Pereira [RAP] ou João Quadros, acreditando que, apesar de estarem focados em plataformas, “qualquer um deles [conseguiria] assegurar uma obra literária humorística tremenda”.

Inês Fonseca Santos concorda que RAP tem “ambições literárias legítimas”. RAP é considerado um dos mais notáveis escritores de humor da atualidade, com um estilo marcado pela ironia e pelo desapego ao politicamente correto. Como diz Inês, remetendo para as crónicas do autor, Ricardo “tem uma maneira de olhar para os assuntos que quase nos prega uma rasteira e é essa surpresa constante que nos atrai”. Para a apresentadora do programa Os Livros, RAP faz parte da geração que aprendeu a rir com os Monty Python, mas também com Jerry Seinfeld, ainda que em Ricardo reconheça muitas referências literárias que agora surgem na coleção de humor que dirige na Tinta da China: Charles Dickens, Denis Diderot ou Robert Benchley. RAP antecipa que a coleção venha a ser enriquecida com a reedição de Obra Ântuma, de José Sesinando, que incluirá textos inéditos, e The Diary of a Nobody, de George Grossmith, ambos sem data de publicação prevista.

INFLUÊNCIAS E REFERÊNCIAS DOS AUTORES DE HUMOR

Nuno Markl e Inês Fonseca Santos concordam que RAP é um caso particular. “Os autores portugueses de humor, talvez pela necessidade profifissional de escrever para televisão, sempre foram mais inflfluenciados pela televisão”, diz Markl. Nessa lista de referências há outro nome incontornável: Herman José e “tudo o que escreveu a partir de 1983 e de Tal Canal”, tendo o próprio ido beber ao nonsense dos Monty Python. São referências que Markl partilha, mas o humorista confessa que para ele tudo começa e acaba com Contos do Gin-Tonic e Novos Contos do Gin-Tonic, de Mário-Henrique Leiria: “Esses dois livros foram a abertura de todas as portas e janelas, para mim.”

A propósito do seu próximo livro, A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar – Uma Espécie de Manual de Escrita Humorística, a publicar pela Tinta da China em setembro, RAP explicou ao Público que fazer humor não é um dom, mas uma forma de ver o mundo. “Aquilo a que chamamos sentido de humor é um modo de raciocinar, tal como a filosofia”, disse. Nuno Markl e Inês Fonseca Santos concordam. Ela reconhece no humor “uma forma de modelar o pensamento” capaz de “produzir um discurso sobre o mundo que tem os mesmos parâmetros da filosofia”, enquanto Markl fala de “um modo de raciocinar que se torna viciante para quem faz dele vida”.

João Cerqueira assume-se como “um escritor que recorre ao humor”, marcando uma clara distinção para com os “humoristas que escrevem”. O autor diz utilizar o humor para “satirizar a sociedade contemporânea, e mediante esse processo [acaba] a ter uma visão mais nítida do mundo”. Mas, ao contrário de RAP, afirma que ter graça é uma dádiva: “O motivo por que algumas coisas nos fazem rir será sempre um mistério e encontrar graça nos acontecimentos mais vulgares é um dom – ou uma forma de loucura – com o qual alguns foram agraciados.”

 


DOS PALCOS PARA A ESTANTE, GRANDES NOMES DO HUMOR EM LIVROS 

É extensa a lista de comediantes que saltaram do pequeno e do grande ecrã para as livrarias. Nomes como Woody Allen, John Cleese ou Jerry Seinfeld viram o humor pelo qual ficaram conhecidos, outrora lido ou representado, transformar-se em tinta impressa no papel dos livros. O mais frequente é encontrar compilações de crónicas ou argumentos já antes usados, como é o caso de Prosa Completa de Woody Allen, que confirma o característico humor neurótico, nonsense e inteligente do judeu mais famoso de Nova Iorque. Ou de Linguagem Seinfeld, de Jerry Seinfeld, uma compilação de textos que utilizava nas rotinas de stand-up. Também há quem tenha contado em livro uma vida ao serviço da comédia, como fizeram John Cleese ou Steve Martin. Cleese, um dos emblemáticos fundadores dos Monty Python, escreveu Ora, Como Eu Dizia Num terceiro grupo podemos encaixar Jon Stewart ou Stephen Colbert, portadores de um humor fortemente politizado e que permitiu extravasar o espaço da comédia de stand-up.

 


PARA OS MAIS NOVOS

O humor pode ser um bom ponto de partida para criar hábitos de leitura. Há muitas opções e algumas coleções têm conseguido um vasto número de fãs. As Aventuras do Capitão Cuecas, de Dav Pikey, vão já no 12.o volume. A série conta a história de George e Harold, dois amigos que criam os seus próprios livros de banda desenhada, nos quais vive o Capitão Cuecas, um super-herói que enfrenta os vilões vestindo apenas um par de cuecas e uma capa, e que acaba por sair dos livros para o mundo real. O maior sucesso de vendas em Portugal pertence, no entanto, a O Diário de um Banana, de Jeff Kinney, que conta o dia a dia de um rapaz chamado Greg através de situações e pensamentos que criam facilmente identificação entre o público mais jovem. A versão feminina de Greg é Nikki, protagonista de Diário de uma Totó, de Rachel Renée Russell. Nesta lista, espaço ainda para David Walliams, mais conhecido pela participação na série Little Britain, mas que tem vindo a ganhar relevo na literatura infantil. O primeiro livro de Walliams foi Avozinha Gângster.

 


HUMOR NO FEMININO

Num mundo dominado por homens, há algumas mulheres que se impõem. Tina Fey e Amy Poehler conheceram-se nos bastidores da The Second City, a primeira empresa de comédia de improviso nos Estados Unidos, mas foi no programa televisivo Saturday Night Live que deram nas vistas. Em 2008, juntaram-se num sketch em que Fey era Sarah Palin e Poehler vestia a pele de Hillary Clinton, que em menos de uma semana atingiu seis milhões de visualizações na Internet. Das duas, será Fey que maior reconhecimento consegue junto do público. Senhora de um humor incisivo, por vezes duro e um pouco absurdo, ficou ainda conhecida como autora, argumentista e protagonista da série 30 Rock, que lhe valeu sete Emmys. Pode ser lida em Bossypants. Tal como Fey e Poehler, também Lena Dunham saltou dos ecrãs para os livros. Atriz e argumentista, Dunham é apelidada de Bridget Jones da atualidade. Conhecida pela série Girls, escreveu Não Sou Esse Tipo de Miúda.

 

O Diário de Bridget Jones
Helen Fielding

No final dos anos 90, Helen Fielding inaugurou uma nova literatura de humor dirigida às mulheres. Bridget Jones, uma londrina em busca do homem ideal e em constante batalha contra o peso, o álcool e os cigarros, chegou ao cinema em 2001.


Texto: Hermínia Saraiva

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