Pseudónimos: Uma perspetiva histórica

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Foram muitos os autores, que ao longo dos tempos, fugindo da fama que os perseguia ou desejando explorar novos géneros, recorreram a nomes falsos na hora de assinar os livros. Eis alguns dos principais.


Mais pseudónimos utilizados
Entre os séculos XVII e XVIII, Daniel Defoe, o autor de Robinson Crusoé, usou 198 pseudónimos diferentes em mais de 400 obras, entre livros, ensaios, canções, panfletos e reportagens.
Mais livros sob um único pseudónimo
Sob o popular pseudónimo “Dr. Seuss”, Theodor Geisel publicou 56 livros infantis: 49 em vida e sete de forma póstuma, incluindo um este ano.

1790

Elmano Sadino

Bocage

É a tradição, mais que o desejo ou a necessidade, que levam Bocage a escrever sob pseudónimo durante alguns meses da sua vida. Fá-lo ao juntar-se à Arcádia Lusitana, uma academia literária na qual todos os membros usam nomes falsos. Opta por um anagrama do primeiro nome (Manoel) e uma referência à cidade de nascença (Setúbal). O resultado: Elmano Sadino.


1846

Irmãos Bell

Irmãs Brontë

No século XIX, a literatura é tida como ofício de homens. Mulheres como as irmãs Brontë veem-se, por isso, obrigadas a adotar nomes masculinos para poderem ser levadas a sério no meio literário. É assim que Charlotte, Emily e Anne Brontë passam a “Currer, Ellis e Acton Bell”. Começam por assinar com estes nomes uma antologia poética conjunta, mas fazem-no depois com os principais êxitos das respetivas carreiras: Jane Eyre, de “Currer”, é um sucesso imediato; A Inquilina de Wildfell Hall, de “Acton”, é outro fenómeno; só O Monte dos Vendavais, de “Ellis”, é criticado. Tudo porque a crítica o considera escrito por “um homem com uma mente depravada”.


1859

George Eliot

Mary Ann Evans

Como tantas mulheres do seu tempo (século XIX), Mary Ann Evans adota um pseudónimo masculino para que os seus romances sejam levados a sério. Isto apesar de até já ter créditos firmados na área das letras, trabalhando como editora num jornal. É como “George Eliot” que publica Middlemarch, por muitos considerado o melhor romance do período vitoriano.


1930

Mary Westmacott

Agatha Christie

Dez anos depois de se iniciar na escrita de policiais, Agatha Christie escreve Entre Dois Amores, um romance trágico, bastante distinto das obras anteriores. Assina-o com o nome “Mary Westmacott”. Pretende com isto que o livro seja julgado pelos próprios méritos e não à luz do que publicou no passado. O desejo é satisfeito e a obra é bem recebida pela crítica – que, curiosamente, suspeita que a verdadeira autora seja Mary Roberts Rineheart, conhecida como a Agatha Christie americana –, inspirando a autora a manter o pseudónimo. “Mary Westmacott” publica mais cinco romances; a Rainha do Crime, por sua vez, guarda o segredo durante quase duas décadas.


1933

George Orwell

Eric Arthur Blair

Duvidoso da qualidade do seu primeiro livro, Na Penúria em Paris e em Londres, o autor que virá a ser conhecido por obras como 1984 e A Quinta dos Animais, entrega-o ao editor com uma lista com quatro pseudónimos possíveis: P. S. Burton, Kenneth Miles, H. Lewis Allways e George Orwell. Utilizará o último para sempre.


1954

Pauline Réage

Anne Desclos

Quando o chefe (e namorado) lhe diz que nenhuma mulher é capaz de escrever um livro erótico, a jornalista francesa Anne Desclos encara-o como um desafio. Em 1954, publica o obsceno História de Ó, assinando com o pseudónimo “Pauline Réage”. A crítica assume de imediato que o nome é falso, mas só porque não acredita que uma mulher o possa ter escrito. Só 40 anos após a publicação, Desclos dá enfim a cara e assume-se como autora do polémico romance.


1977

Richard Bachman

Stephen King

Os críticos de Stephen King costumavam dizer que o seu nome se tornara tão valioso que o autor podia publicar a lista da lavandaria e mesmo assim venderia um milhão de exemplares. King decide testá-lo. Cria um pseudónimo – “Richard Bachman” –, atribui-lhe uma fotografia e uma falsa biografia e até se esforça por lhe dificultar a vida, publicando-lhe os livros com o mínimo esforço de marketing possível. Não obstante, são bem recebidos. O segredo dura oito anos, até que um livreiro americano descobre semelhanças demasiado suspeitas na escrita dos dois autores e faz a denúncia. King anuncia então, publicamente, a morte de Bachman. Dedica-lhe mais tarde A Metade Sombria, sobre um escritor que descobre que o pseudónimo ganhou vida própria.


1982

Jane Somers

Doris Lessing

Em 1982, 25 anos antes de ser distinguida com o Prémio Nobel de Literatura, Doris Lessing envia para publicação um romance, Diário de Uma Boa Vizinha, sob o pseudónimo “Jane Somers”, e é surpreendida pela rejeição da sua própria editora. De acordo com Lessing, a experiência é demonstrativa da extrema dificuldade que um autor desconhecido encontra para ser publicado.


1995

J. D. Robb

Nora Roberts

Conhecida pelos enredos românticos, Nora Roberts decide, em 1995, explorar novos caminhos e cria um pseudónimo, “J. D. Robb”, que rapidamente se equipara, em popularidade, ao nome da autora. No espaço de 20 anos publica 50 romances policiais com o falso nome, chegando a tocar no campo da ficção científica.


2013

Robert Galbraith

J. K. Rowling

Se no início da carreira Joanne Rowling passa a J. K. Rowling para tornar menos evidente o facto de ser mulher – a editora não acreditava que rapazes quisessem ler livros escritos por mulheres –, é por sua própria iniciativa que, em 2013, assina Quando o Cuco Chama com um pseudónimo. Cansada da imensa pressão que envolve cada novo livro e desejosa de experimentar o seu género literário favorito – o policial –, a autora de Harry Potter cria “Robert Galbraith” para assinar em seu lugar. E se as vendas de Quando o Cuco Chama são, numa primeira fase, modestas, a obra é muito elogiada pela crítica. Tão elogiada que suscita suspeitas. Uma comparação linguística acaba por desmascarar Rowling e o livro passa de imediato a bestseller. A autora decide, porém, manter o pseudónimo e até escreve, mais tarde, dois novos policiais assinados por Galbraith: O Bicho-da-Seda e Career of Evil.


Por Tiago Matos
Ilustração de Richard Câmara

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