Primeiro Capítulo:
O Espião Inglês (Daniel Silva)

O mais recente thriller de Daniel Silva chega às livrarias no dia 29 de fevereiro, editado pela Harper Collins. Para aguçar a curiosidade, leia aqui o primeiro capítulo de O Espião Inglês.


GUSTÁVIA, SAINT-BARTH

Nada teria acontecido se Spider Barnes não tivesse apanhado uma valente piela no Eddy’s duas noites antes da partida prevista do Aurora. Spider gozava da reputação de melhor chefe de cozinha do mar das Caraíbas, irascível, mas absolutamente insubstituível, um génio louco de jaleca e avental impolutamente brancos e engomados. Spider, como irão ver, tivera uma formação clássica: passara uma temporada em Paris, estivera em Londres, passara por Nova Iorque e São Francisco, e, após uma escala desafortunada em Miami, abandonara de vez o negócio da restauração e embarcara na liberdade marítima. Trabalhava em grandes iates, o tipo de barco que as estrelas de cinema, rappers, magnatas e exibicionistas alugam sempre que pretendem impressionar alguém. E, quando Spider não estava à frente dos fogões, estava invariavelmente empoleirado no balcão dos melhores bares em terra firme. O Eddy’s era um dos cinco melhores da bacia das Caraíbas, porventura do mundo inteiro. Começou às sete horas daquela tarde com umas quantas cervejas, às nove
fumou um charro no jardim sombrio e às dez estava a contemplar o seu primeiro copo de rum com baunilha. Tudo corria sobre rodas. Spider Barnes estava alcoolizado e no paraíso.
Mas eis que avistou Veronica e a noite tomou um rumo perigoso. Ela era nova na ilha, uma rapariga perdida, uma europeia de origem duvidosa que servia bebidas a turistas ocasionais na taberna do lado. Mas era bonita — bonita qual arranjo floral, comentou  Spider ao seu companheiro de copos anónimo — e apaixonou-se por ela em menos de dez segundos. Pediu-a em casamento, a estratégia preferida de Spider, e, quando ela recusou, propôs-lhe uma cambalhota rápida como alternativa. Estranhamente, resultou e, por volta da meia-noite, ambos foram vistos a cambalear sob uma bátega torrencial. Foi essa a última vez que alguém lhe pôs os olhos em cima, às 00h03 de uma noite de chuva em Gustávia, encharcado até aos ossos, ébrio e novamente apaixonado.
O capitão do Aurora, um iate de luxo de 47 metros de comprimento com sede em Nassau, era um homem chamado Ogilvy, Reginald Ogilvy, ex-militar da Marinha Real Britânica, um ditador benevolente que dormia com uma cópia do regulamento na mesa de cabeceira, juntamente com a Bíblia do Rei Jaime pertencente ao seu avô. Nunca antes se preocupara com Spider Barnes, pelo menos até às nove horas da manhã seguinte, quando Spider não compareceu à reunião habitual da tripulação e do pessoal de bordo. Não era uma reunião banal, já que o Aurora se preparava para receber uma convidada muito importante. Apenas Ogilvy estava a par da identidade da passageira. Também sabia que a sua comitiva incluiria uma equipa de seguranças e que ela era, no mínimo, exigente, o que explicava o desassossego de Ogilvy perante a ausência do afamado chefe.
Ogilvy informou a guarda costeira de Gustávia da situação, a qual informou devidamente a polícia local. Dois agentes bateram à porta da casinha de Veronica no sopé da montanha, mas também não havia qualquer vestígio dela. Seguidamente, empreenderam uma busca pelos vários pontos da ilha onde os bêbedos e os infelizes no amor costumavam dar à costa após uma noite de farra. Um sueco de tez encarniçada alegou ter pagado uma Heineken a Spider naquela manhã, no Le Select. Outra pessoa disse que o viu a deambular pela praia de Colombier e até havia rumores, nunca confirmados, de uma certa criatura inconsolável que uivava à lua nos confins do Hotel Le Toiny.
Os gendarmes seguiram cada pista a par e passo. Seguidamente, vasculharam a ilha de norte a sul, da popa à proa, tudo em vão.  Poucos minutos depois do pôr do sol, Reginald Ogilvy informou a tripulação do Aurora de que Spider Barnes se tinha esfumado e que um substituto à altura teria de ser encontrado com brevidade. A tripulação espalhou-se por toda a ilha, dos restaurantes à beira-mar de Gustávia aos bares de praia de Grand Cul-de-Sac. E, pelas nove da noite, no mais improvável dos lugares, encontraram o homem.

Chegara à ilha no auge da temporada dos furacões e instalara-se num chalé de madeira num dos extremos da praia de Lorient, tendo como únicas posses uma mochila de lona, uma pilha de livros já muito usados, um rádio de onda curta e uma motoreta velha adquirida em Gustávia por algumas notas encardidas e um sorriso.
Os livros eram grossos, pesados, eruditos; o rádio era de uma qualidade raramente vista nos dias que corriam. Pela noite dentro, quando se sentava no alpendre carcomido, a ler à luz de um candeeiro a óleo, o som da música flutuava sobre o farfalhar das palmeiras e o vaivém suave da ondulação. Sobretudo, jazz e música clássica, e, às vezes, um pouco de reggae das estações de além-mar. Ao sinal horário, baixava o livro para ouvir atentamente as notícias da BBC. Então, findo o noticiário, procurava nas ondas da rádio algo do seu agrado e as palmeiras e o mar voltavam a dançar ao ritmo da sua música.
De início, era uma incógnita se estava de férias, de passagem, escondido ou se planeava fazer da ilha a sua morada permanente. O dinheiro não aparentava ser um problema. De manhã, quando se abastecia de pão e café na boulangerie, gratificava sempre generosamente as empregadas. E à tarde, quando parava no pequeno mercado perto do cemitério para beber a sua cerveja alemã e comprar os seus cigarros americanos, nunca se dava ao trabalho de recolher as moedas de troco que tilintavam ao cair pela máquina de tabaco. O seu francês era razoável, mas tingido de um sotaque indecifrável. O espanhol, que falava com o dominicano que servia ao balcão do JoJo Burger, era muito melhor, mas o tal sotaque persistia. As me ninas da boulangerie tinham decidido que era australiano, mas os rapazes do JoJo Burger consideravam-no africânder. Havia-os por
todo o Caribe, os africânderes. A maioria era gente decente, mas alguns tinham interesses empresariais que eram tudo menos legais.
Os seus dias, embora errantes, não pareciam totalmente desprovidos de propósito. Tomava o pequeno-almoço na boulangerie, passava pelo quiosque em Saint Jean para ir buscar uma pilha de jornais ingleses e americanos do dia anterior, fazia rigorosamente os seus exercícios na praia, lia volumes densos de literatura e história com um panamá bem enfiado na cabeça até aos olhos. E, uma vez, alugou uma lancha e passou a tarde a mergulhar no ilhéu Tortu. Porém, a sua ociosidade parecia mais forçada do que voluntária, aparentando ser um soldado ferido desejoso de retornar à frente de batalha, um exilado que sonhava com a pátria perdida, onde quer que a dita pátria fosse.
Segundo Jean-Marc, um funcionário alfandegário do aeroporto, chegara num voo oriundo de Guadalupe, munido de um passaporte venezuelano válido onde ostentava o peculiar nome de Colin Hernández, pelo visto fruto de um breve casamento entre uma mãe anglo-irlandesa e um pai espanhol. A mãe dava-se ares de poetisa; o pai fizera algo obscuro relacionado com dinheiro. Colin abominava o velho, mas falava da mãe como se a sua canonização fosse uma mera formalidade. Trazia uma fotografia dela na carteira. O menino louro ao seu colo não se parecia muito com Colin, mas o tempo pregava as suas partidas.
O passaporte atribuía-lhe a idade de trinta e oito anos, que parecia acertada, e referia como ocupação «homem de negócios», o que poderia significar praticamente qualquer coisa. As raparigas da boulangerie imaginavam-no um escritor em busca de inspiração. Caso contrário, como se explicaria o facto de ele nunca andar sem um livro? Já as raparigas do mercado tinham conjurado uma teoria louca, inteiramente carente de fundamento, de que tinha assassinado um homem em Guadalupe e estava escondido em Saint Barth até que a tempestade amainasse. O dominicano do JoJo Burger, ele,  sim, um fugitivo, achava a hipótese ridícula. Colin Hernández, declarava, era apenas mais um vadio indolente que vivia à custa da fortuna de um pai que odiava. Ficaria na ilha até ser vencido pelo tédio ou até as finanças escassearem. Então, partiria para outras bandas e um ou dois dias depois já ninguém lhe recordaria o nome.
Finalmente, um mês após a sua chegada, vislumbrou-se uma ligeira mudança na sua rotina. Depois de almoçar no JoJo Burger, dirigiu-se para o salão de cabeleireiro de Saint-Jean e, quando saiu, a sua cabeleira preta desgrenhada estava aparada, esculpida e lustrosamente besuntada. Na manhã seguinte, quando apareceu na boulangerie, estava barbeado e vestia umas calças caquis e uma camisa branca impoluta. Tomou o pequeno-almoço habitual — uma chávena grande de café crème e uma fatia de pão caseiro —, demorando-se na leitura do The Times londrino do dia anterior. Então, em vez de voltar para a sua casinha, montou-se na motoreta e acelerou rumo a Gustávia. E, ao meio-dia, esclareceu-se finalmente por que motivo aquele homem chamado Colin Hernández tinha ido para Saint Barth.

Dirigiu-se primeiramente para o antigo e imponente Hotel Carl Gustaf, mas o chefe de cozinha, ao sabê-lo carente de formação específica, recusou-se a conceder-lhe uma entrevista. Os proprietários do Maya’s descartaram-no polidamente, à semelhança da gerência dos estabelecimentos Wall House, Ocean e La Cantina. Ainda tentou no La Plage, mas o La Plage não mostrou interesse. Também não demonstraram interesse o Eden Rock, o Guanahani, o La Crêperie, o Le Jardin ou o Le Grain de Sel, o solitário fortim com vista do sapal de Saline. Inclusive no La Gloriette, criado por um exilado político, não quiseram nada com ele.
Sem se desalentar, tentou a sua sorte nas joias ocultas da ilha: o snack-bar do aeroporto, o bar crioulo do outro lado da rua, o diminuto quiosque de pizas e panini no estacionamento do supermercado L’Oasis. E foi lá que a sorte finalmente lhe sorriu, pois soube  que o chefe do Le Piment abandonara intempestivamente o trabalho após uma longa e já velha discussão sobre o número de horas de trabalho e o salário. Pelas quatro da tarde, depois de exibir as suas aptidões na cozinha do Le Piment, que mais parecia uma casinha de bonecas, conseguiu o emprego. Fez o seu primeiro turno nessa noite. As críticas foram unanimemente fantásticas.
Na verdade, não demorou muito para que a notícia das suas proezas culinárias percorresse a pequena ilha. O Le Piment, até então poiso de moradores e habitués, foi imediatamente assolado por uma renovada clientela que fazia rasgados elogios ao recente e misterioso chefe de estranho nome anglo-espanhol. O Carl Gustaf tentou roubá-lo, tal como o Eden Rock, o Guanahani e o La Plage, todos sem sucesso. Então, o capitão do Aurora, Reginald Ogilvy, apareceu no Le Piment sem reserva, na noite posterior ao desaparecimento de Spider Barnes, de péssimo humor. Forçado a conter o temperamento durante trinta minutos de espera no bar antes de finalmente lhe concederem uma mesa, pediu três entradas e três pratos. Depois de experimentar cada um deles, pediu para dar uma palavrinha ao chefe. Dez minutos passaram antes de o seu desejo ser atendido.
— Com fome? — perguntou o homem chamado Colin Hernández, olhando para os pratos de comida.
— Não, nem por isso.
— Então, porque veio cá?
— Queria ver se era tão bom como toda a gente parece pensar que é.
Ogilvy estendeu a mão e apresentou-se: patente e nome, seguidos do nome do seu navio.
O homem chamado Colin Hernández arqueou um sobrolho inquisidor.
— O Aurora é o barco do Spider Barnes, não é?
— Conhece o Spider?
— Acho que em tempos bebi um copo com ele.
— Não foi o único.
Ogilvy escrutinou a figura de pé à sua frente. Era compacto, duro, formidável. Para o olho aguçado do inglês, parecia um homem que navegara por mares agitados. De sobrancelhas escuras e fartas, queixo robusto e resoluto, tinha um rosto, pensou Ogilvy, perfeito para levar um soco.
— É venezuelano — disse ele.
— Quem diz isso?
— Dizem-no todos aqueles que se recusaram a contratá-lo quando andava à procura de trabalho.
Os olhos de Ogilvy deslizaram do rosto para a mão apoiada nas costas da cadeira defronte. Não havia quaisquer evidências de tatuagens, o que ele interpretava como um sinal positivo. Ogilvy considerava a cultura moderna da tinta uma forma de automutilação.
— Você bebe? — perguntou.
— Não como o Spider.
— Casado?
— Apenas uma vez.
— Filhos?
— Não, credo…
— Vícios?
— Coltrane e Monk.
— Já matou alguém?
— Que eu me lembre, não.
Disse-o com um sorriso e Reginald Ogilvy retribuiu-lho.
— Estava aqui a pensar se conseguiria tentá-lo a afastar-se de tudo isto — disse ele, olhando de relance para a modesta sala de jantar ao ar livre. — Estou disposto a pagar-lhe um salário generoso. E, quando não estivermos embarcados, vai ter muito tempo livre para fazer o que quer que goste de fazer quando não está a cozinhar.
— Quão generoso?
— Dois mil por semana.
— Quanto é que o Spider ganhava?
— Três — respondeu Ogilvy após um instante de hesitação —, mas o Spider estava comigo há duas temporadas. — Ele não está consigo agora, pois não?
Ogilvy fingiu pensar.
— Que sejam três — disse ele. — Mas preciso que comece de imediato.
— Quando zarpam?
— Amanhã de manhã.
— Nesse caso — disse o homem chamado Colin Hernández —, quer parecer-me que vai ter de me pagar quatro mil.
Reginald Ogilvy, capitão do Aurora, inspecionou os pratos de comida antes de se levantar solenemente.
— Às oito horas — disse. — Não se atrase.

François, o marselhês irritadiço proprietário do Le Piment, não aceitou bem a notícia. Proferiu um chorrilho de afrontas no dialeto próprio do sul, houve promessas de represálias. E houve também a garrafa vazia de um belíssimo Bordeaux, estilhaçada em mil cacos verde-esmeralda quando arremessada contra a parede da cozinha minúscula. Mais tarde, François negaria ter pretendido atingir o seu quase ex-chefe. Mas Isabelle, uma empregada de mesa que testemunhou o incidente, questionaria a sua versão dos acontecimentos. François, jurava ela, tinha arremessado a garrafa, qual punhal, diretamente à cabeça de monsieur Hernández. E monsieur Hernández, relembrava Isabelle, tinha evitado o objeto com um movimento tão discreto e ágil que acontecera num piscar de olhos. Depois, fitara longa e friamente François, como se decidisse a melhor forma de lhe partir o pescoço. Então, calmamente, tirara o impecável avental branco e montara-se na motoreta.
Passou o resto da noite na varanda do chalé, a ler à luz do candeeiro a óleo. E a cada sinal horário baixava o livro e ouvia as notícias na BBC, enquanto as ondas rebentavam e recuavam na praia e as folhas de palmeira vaiavam a noite ventosa. De manhã, após um revigorante mergulho no mar, tomou banho, vestiu-se e guardou os seus pertences na mochila de lona: a roupa, os livros, o rádio.  Além disso, arrumou duas coisas que lhe tinham sido deixadas no ilhéu Tortu: uma pistola Stechkin de 9 milímetros com um silenciador enroscado no cano e um pacote retangular, de trinta por cinquenta centímetros. O pacote pesava exatamente sete quilos e duzentos e sessenta gramas. Colocou-o no meio da mochila para que se mantivesse equilibrado quando transportado.

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