Policiais: Nórdicos vs. Clássicos

Siga o raciocínio: será a crueza do crime ou a expetativa da descoberta?

 

Os policiais oriundos dos países do Norte da Europa têm vindo a conquistar cada vez mais leitores. A fórmula, que inclui descrições
duras e cruas dos crimes, situações de violência sobre as mulheres, tráfi co de droga e prostituição, não deixa ninguém indiferente.
Para Francisco José Viegas, escritor, jornalista e apaixonado por este género de literatura, a diferença entre os policiais nórdicos e os clássicos não advém apenas de uma questão de estilo. “A questão é que durante muito tempo tínhamos dos países nórdicos a ideia de uma espécie de subcontinente cheio de felicidade, lagos, neve, liberdade sexual, bem-estar social e um crescimento económico contínuo. Mas estes livros vieram mostrar que afi nal o paraíso não existe.” O modelo ideal do bem-estar nórdico era  penas uma ficção e o custo foi demasiado alto, “estes ditos paraísos tinham produzido monstros, vítimas e horrores, tudo  escondido sob aquele manto de neve e de felicidade em que só a neve era real”, continua Francisco José Viegas. A paisagem é,  aliás, outro contraste com os policiais clássicos: em nenhum tipo de policial como no nórdico se dá tanta atenção à paisagem. “A crise económica da década de 1990 levou os nórdicos a repensarem o seu modelo de vida — e a fazerem a verdadeira história  aquela sociedade e daqueles subterrâneos. A imagem que daí resulta nem sempre é agradável. É uma realidade estranha que às vezes pode ser bem aterradora. A ‘social-democracia nórdica’, e isso já estava escrito nos policiais dos anos 60 e 70, era apenas uma boa consciência que esperava a implosão”. São os pormenores perturbadores, que não existem no género policial clássico, que podem explicar a dificuldade inicial de aceitação dos autores nórdicos pelo resto da Europa, como foi o caso de Os Homens que Odeiam as Mulheres, que Stieg Larsson teve difi culdade em publicar. Se por um lado existe sempre uma entidade coletiva em jogo (a sociedade, a comunidade local ou a cidade), por outro, ao contrário da “inocência” dos romances policiais clássicos, alguns dos autores nórdicos assumiram compromissos políticos fortes. Existe também a diferença entre os detetives e investigadores dos dois estilos. “Nos chamados policiais nórdicos são sempre pessoas reais, às vezes demasiado reais, como no caso dos livros de Jø Nesbo,
Liza Marklund, Mons Kallentoft ou Yrsa Sigurðardóttir”, afi rma Francisco José Viegas, enquanto nos clássicos as personagens são construídas com particularidades bem vincadas e difi cilmente reais. A perspicácia e doçura de Miss Marple, os tiques  e a personalidade orgulhosa, mas cómica, de Hercule Poirot ou a atenção dedicada do comissário Maigret de Georges Simenon.

Nos policiais nórdicos a culpa não é o que interessa, mas sim a história que explica a culpa. ao tentar encontrar o assassino, mergulha-se numa realidade estranha, por vezes aterradora.

 

PENSAR A SOCIEDADE VS. DESCOBRIR O ASSASSINO

Ao contrário dos clássicos, nos nórdicos encontrar o assassino não é o objetivo principal, se bem que todos os detetives procuram encontrá-lo, dar-lhe um nome, identificá-lo. “É uma sociedade que necessita de identifi car culpados e pretende fazer justiça. Tudo isto pode ser perigoso. Por exemplo, nos livros de Arnaldur Indriðason o passado regressa sempre para desarrumar aquela ordem aparente das coisas — e há culpados, se bem que nos interesse muito mais a ‘história’ dessa culpa… Em certa medida, o seu inspetor, Erlendur, é uma espécie de historiador, biógrafo, colecionador de memórias do país.A mesma coisa acontece com Jø Nesbo. Talvez Camilla Läckberg e a Yrsa Sigurðardóttir sejam quem tem menos necessidade de encontrar um criminoso”, diz José Viegas. Na Literatura policial clássica toda a história foca-se na descoberta do mistério e praticamente todas as personagens são suspeitas. A arte destas narrativas é fornecer todas as pistas ao leitor ao longo do livro envolvendo-o na resolução do crime, mas fazendo-o  hegar ao fi m sem saber o que de facto aconteceu. Quando o relê, identifica as pistas deixadas pelo autor e interroga-se como não foi capaz de descobrir.

 

AgathaChristie

Autora de cerca de 80 livros traduzidos em mais de 100 línguas, criou Hercule Poirot e Miss Marple. Agatha Christie é especialista da fórmula Whodunnit? (abreviatura de Who Done It?) segundo a qual há vários suspeitos de um crime e a identidade do culpado, quase sempre surpreendente, só é revelada nas últimas páginas do livro.

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Stieg_Larsson

Jornalista e escritor, foi fundador da revista sueca Expo, que denuncia grupos neofascistas e racistas. É autor da trilogia Millenium,
onde aborda o problema da emancipação das mulheres e da “família disfuncional”, outro mito nórdico. A ideia de uma sociedade sem machismo, sem violência, onde tudo se resolve com transparência, cai por terra nas obras do autor.

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