Achas que não gostas de poesia? Desafiamos-te a ler estes poemas

Ainda não te rendeste aos encantos da poesia? Pode ser que mudes de ideias quando leres estes poemas de Fernando Pessoa, Rupi Kaur, Leonard Cohen, Walt Whitman, John Keats e Sophia de Mello Breyner Andresen.

REPRESENTAÇÃO

a representação
é vital
de outra forma a borboleta
rodeada de traças
incapaz de se ver a ela própria
continuará a tentar ser como as traças

É um poema especial porque…

Ilustra a importância do distanciamento e de nos mantermos fiéis a nós próprios para continuarmos a evoluir não obstante as origens ou aqueles que nos rodeiam.


Sobre o livro

Depois do gigantesco sucesso obtido com Leite e Mel, a canadiana Rupi Kaur, que iniciou a carreira na poesia através das redes sociais, tem em O Sol e as Suas Flores uma segunda coleção de poemas e ilustrações sobre os temas que mais a perturbam.

EU CANTO O CORPO ELÉTRICO

Eu canto o corpo elétrico,
Os exércitos daqueles que amo envolvem-me e eu envolvo-os,
Não me libertam até partir com eles, até lhes responder
E purificá-los, e carregá-los por completo com a carga da alma.
Há quem duvide que aqueles que corrompem os seus próprios corpos se escondam?
E se aqueles que descuram os vivos forem tão maus como aqueles que descuram os mortos?
E se o corpo não executa a sua tarefa tão plenamente como a alma?
E se o corpo não for a alma, o que é a alma?

É um poema especial porque…

A primeira das nove secções que compõem “Eu Canto o Corpo Elétrico”, um dos poemas originais da coleção, explora a ideia de que não existe uma real separação entre corpo e alma e que, por isso, o corpo não a pode corromper – logo, deve ser livre.


Sobre o livro

Em Folhas de Erva, obra-prima de Walt Whitman e um dos mais poderosos trabalhos poéticos de todos os tempos, o autor americano desafia as métricas convencionais do seu tempo e reflete sem restrições sobre os grandes temas da vida.

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

É um poema especial porque…

Reflete sobre a peculiar relação estabelecida entre um escritor (ou, neste caso, um poeta) e os seus leitores. É que, embora a criação poética possa surgir do “fingimento”, acaba por se tornar mais real do que o real ao transmitir certas sensações do particular para o geral.


Sobre o livro

Em Antologia Poética encontramos os mais célebres poemas de Fernando Pessoa (ortónimo), bem como dos seus três principais heterónimos: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis.

A CHAMA
Leonard Cohen
Edição em inglês:
The Flame

AQUILO QUE FAÇO

Não é que eu goste
de viver num hotel
num sítio como a Índia
e escrever sobre D-us
sempre atrás de mulheres
Mas parece que é
Aquilo que faço

É um poema especial porque…

Se é verdade que, em boa parte dos seus trabalhos, Leonard Cohen falava de Deus ou de mulheres, também o parece ser que o autor não conseguiria fugir destes temas mesmo que o desejasse. Neste curto poema, Cohen reflete sobre a inabilidade que por vezes temos de escapar da nossa própria natureza. E, se é assim, será preferível combatê-lo ou aceitá-lo?


Sobre o livro

Publicado dois anos após a morte de Leonard Cohen, A Chama é uma coleção de poemas, letras, excertos de diários, discursos e até ilustrações do célebre cantor e escritor canadiano.

QUANDO

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

É um poema especial porque…

Aborda a insignificância da existência humana, não em si mesma mas quando comparada com a natureza que a rodeia.


Sobre o livro

Com quase mil páginas, Obra Poética reúne toda a poesia escrita por Sophia de Mello Breyner Andresen, incluindo vários poemas inéditos.

WHAT CAN I DO TO DRIVE AWAY

Touch has a memory. O say, love, say,
What can I do to kill it and be free
In my old liberty?

É um poema especial porque…

Logo nos seus primeiros versos encontramos uma ideia tão simples quanto cativante, a de que o toque também tem memória – e que isto pode nem sempre ser bom.


Sobre o livro

Selected Poems, coleção em capa dura de um dos mais celebrados – e influentes – poetas do século XIX, serve de exemplo à versatilidade do tendencialmente romântico John Keats.

Por: Tiago Matos

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