Piketty, ou a economia de um bestseller

Fazer contas ao capital com letras de quem escreve um romance é coisa para muito poucos. Em O Capital no Século XXI, Thomas Piketty analisa um conjunto exclusivo de dados de 20 países durante mais de três séculos para discernir os padrões socioeconómicos fundamentais. “Escrevi este livro não para os políticos mas para as pessoas que leem livros. Afinal, são as pessoas que decidem o que os políticos fazem, e é mais importante convencê-las a elas”, assegura Piketty. O livro fala sobre as dinâmicas que
regem a acumulação e a distribuição de capital e questiona os temas ligados à evolução da desigualdade a longo prazo, à concentração da riqueza e as perspetivas de crescimento económico que estão, muitas vezes, no centro da economia política mas para as quais é difícil obter respostas devido à falta de dados e de teorias. E o que podemos aprender com este Capital?

4 COISAS QUE PODEMOS APRENDER COM PIKETTY

 

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1. Que um livro sobre capital e economia também tem lugar nas estantes das livrarias e nos tops dos mais vendidos. A versão Inglesa de O Capital no Século XXI catapultou o economista para o estrelato. No dia seguinte ao lançamento o livro liderava as vendas da Amazon. O livro mudou a vida ao autor: Piketty fez capa de revistas de grande circulação global e foi convocado por políticos dos dois lados do Atlântico para explicar ao vivo e a cores o conteúdo e as implicações da linhas do livro. E até Paul Krugman se rendeu aos encantos das contas de Piketty, que defende a fórmula R > G: a taxa de rendimento do capital “(r) tende a ser, em média e no longo prazo, maior do que a taxa de crescimento da produção (g)”. “Parece seguro afirmar que (…), é o mais importante livro de economia do ano — e talvez desta década”, referiu o Nobel da Economia sobre o livro.

2. Que um tema de sempre pode ser um novo tema. Quem lê as críticas a O Capital no Século XXI pode até pensar que Piketty — que já foi comparado a Marx — descobriu a pólvora mas o livro revela outra coisa: o economista limitou-se a explorar a ideia de que os
ricos devem pagar mais do que os pobres para podermos chegar a um equilíbrio. Muitas vezes recorrendo a exemplos literários como Balzac ou Austen para iluminar a economia.

3. Que o capitalismo é mesmo uma causa de agravamento da crise. Piketty conta que, nos últimos 40 anos, o fosso económico entre os países mais ricos e os mais pobres se alargou, propondo um aumento de impostos aos mais ricos como tentativa para contrariar
a tendência. As melhorias das condições de vida na Europa e nos EUA, associada à expansão do capitalismo, assim como a redução da pobreza na China e na Índia, não convencem o francês de que o capitalismo é bom para o mundo. E será mesmo?

4. Que um livro sobre economia não é só para economistas. São 700 páginas na versão em inglês, quase 1000 na francesa e elogios que vêm desde Krugman — Nobel da Economia — a outros nomes como Stiglitz, Solow e Milanovic, entre outros. Mas não se pense que O Capital no Século XXI é um livro apenas para quem gosta ou percebe de números. Piketty escreve, antes, para todos. E o volumoso livro lê-se como um livro de história económica que acaba por ser quase um romance.

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TOMAS PIKETTY
O francês de 43 anos é professor na École des Hautes Études en Sciences Sociales e na École d’Économie de Paris.
Recebeu o Yrjö Jahnsson, atribuído pela European Economic Association.

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