Péter Gárdos: “Durante sete anos não consegui escrever, mas esteve sempre nos meus planos”

Fotografia: Bruno Colaço/4SEE.

O húngaro Péter Gárdos fala sobre o seu primeiro romance e a influência da família no percurso enquanto escritor e realizador.

Carta à Mulher do Meu Futuro

O primeiro romance do realizador húngaro Péter Gárdos tem por base as cartas trocadas entre o pai e a mãe, a partir das quais reconstruir a sua história de amor, tendo como pano de fundo um dos acontecimentos mais marcantes da europa contemporânea, a Segunda Guerra Mundial.

 


Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Os Meus Amores.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho enquanto escritor e realizador?

Já realizei 10 filmes e oito relatam a história da minha vida e da minha família. Tenho uma família bastante louca, desde a minha avó até à minha tia. E eu próprio tenho tido uma vida bastante aventureira até agora, por isso tenho sempre matéria para trabalhar.

O que é para si um bom livro?

Um bom livro é aquele que começo a ler e não consigo parar. Eu leio quase tudo, de policiais a tragédias gregas. Como tirei o curso de Literatura, durante cinco anos tive de ler quase tudo o que dizia respeito à literatura universal. Tive exames em que durante uma semana tinha de me preparar e ler 30 romances! Por isso também aprendi a ler a um ritmo mais acelerado. Hoje em dia também não me consigo deitar sem ler 30 ou 40 páginas.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

O que trouxe comigo para esta viagem foi os contos de um autor húngaro, do século XIX. Todos os anos costumo ler os contos dele.

Já leu algum livro de um autor português?

Acho que sim, mas agora não consigo dizer o nome… Saramago!

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Quando estou a trabalhar tenho regras rigorosas. A regra número um é que tenho sempre de escrever na mesma altura do dia. Normalmente costumo escrever de manhã, quando ninguém e nada me incomoda. A segunda regra é que quando acabo de escrever não posso ler no mesmo dia, tenho de ler no dia a seguir. Outra regra é que se não gosto não começo a corrigir, deito fora e começo a escrever de novo. Se acredito numa história, mesmo que não tenha ideias no momento, não desisto de escrever. Tenho uma amiga que é dramaturga na Hungria e ela é a primeira pessoa que lê os meus textos quando acabo. Pode sempre dizer o que quiser que nunca fico magoado. As outras críticas não me interessam. Acredito muito na opinião e na qualidade do trabalho dela.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Durante muito tempo não imaginei deixar de escrever à mão. Mesmo quando existiam máquinas de escrever, escrevia sempre à mão. Mas hoje em dia escrevo tudo no computador. No outro dia percebi uma coisa e fiquei um pouco triste. Reparei que o que tinha escrito à mão era estilisticamente melhor. Desde que escrevo à máquina ou no computador, os textos são mais assombrados e menos coloridos.

Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

No início tenho de saber muito bem o que quero escrever e qual é o meu objetivo. Mas depois deixo-me levar pela escrita. São grandes aventuras porque costumo andar enquanto estou a trabalhar. Fecho-me no quarto como um leão solitário, de um lado para o outro. Esses momentos costumam ser bastante surpreendentes porque a escrita tem as suas próprias leis e quando descobrimos essas leis o texto escreve-se sozinho.


“Se alguém provasse, preto no branco, que o meu trabalho não é bom, suicidava-me.”


Como lhe surgiu a ideia de Carta à Mulher do Meu Futuro? Pode descrever o momento do seu primeiro contacto com a história?

O meu pai faleceu há 17 anos. Três dias depois, a minha mãe mostrou-me uma caixa de café, de latão, com dois pacotes de cartas lá dentro. Eram mais de 100 cartas atadas com fitas coloridas e perguntou-me se tinha vontade de as ler. Só nessa altura é que soube que eles tinham trocado cartas antes do casamento. O mais surpreendente é que tinham guardado as cartas durante 50 anos.

Em relação à história familiar, sabia que eles tinham travado conhecimento na Suécia e que eram sobreviventes do Holocausto. Mas imaginei uma cena completamente diferente, como um encontro num hospital onde dois doentes se encontram no corredor e se apaixonam um pelo outro. Nessa altura ficou claro que eles estavam separados por 1200 quilómetros e trocaram cartas a partir de agosto de 1945. Inicialmente de dois em dois dias e, quatro meses depois, três vezes por dia. Numa noite de agosto de 1998, levei as cartas para casa e li-as de uma vez. Foi um encontro muito marcante e emocionante. Para mim, foi como quando uma criança espreita pela porta do quarto dos pais.

As primeiras cartas eram uma forma de se conhecer, uma espécie de dança inicial. Mas depois essa correspondência tornou-se mais apaixonante. A partir de 1 de dezembro de 1945, quando já se tinham encontrado pessoalmente, as cartas tornaram-se diferentes, com alusões eróticas. Não sei se é bom entrar até este ponto tão íntimo de uma relação, ver as intimidades tão fortes entre duas pessoas, principalmente dos pais. Isso só aconteceu depois da morte do meu pai, 50 anos depois da troca de cartas. Houve vários momentos, vários pormenores nas cartas que me diziam que valia realmente a pena fazer algo com elas.

As cartas foram todas guardadas por ordem cronológica. Um pacote tinha as cartas do meu pai e outro as cartas da minha mãe. Quando tirava uma carta do meu pai, vinha logo a resposta da minha mãe. Era como se tivesse lido um romance, o nascimento de um amor. Apesar de terem vivido o inferno alguns meses, nunca relataram isso nas cartas. Tinham uma experiência muito forte, principalmente sobre o futuro, relativamente a um amor que podia ser vivido no futuro. Era tão surpreendente para mim, mas ao mesmo tempo chocante como duas pessoas queriam tanto viver. Nessa altura percebi que tinha um diamante nas minhas mãos. Esse foi o meu primeiro encontro com a história.

De que forma a história dos seus pais foi uma inspiração para a sua vida enquanto escritor e realizador?

Como cineasta percebi logo que este era um tema muito importante para mim e que podia fazer um filme. Não só por causa dos documentos que tinha nas mãos, mas pelo facto de ter igualmente podido interrogar a minha mãe. Apesar de ela não ter falado sobre o Holocausto durante 50 anos, nem sobre as vivências na Suécia, no momento em que comecei a fazer perguntas, ela não mais parou de falar. A minha mãe tinha recordações tão pormenorizadas desses dias como se tivesse escrito um diário. Como realizador, percebi que tinha uma grande história nas mãos e o cúmulo dessa história é que tinha igualmente a correspondência dos meus pais. O que eu ouvi da minha mãe comprovou esses acontecimentos.

Como foi o processo para a escrita do livro? Quanto tempo demorou a escrevê-lo?

Durante sete anos não consegui escrever, mas esteve sempre nos meus planos. Falava muitas vezes com os meus amigos sobre essa história e toda a gente ouvia com olhos abertos e dizia que tinha de escrever, que tinha de trabalhar nisto. É estranho que cada vez que conseguia relatar melhor, com mais humor os acontecimentos, escrevia coisas piores.

O meu método de trabalho é escrever qualquer coisa de manhã e na manhã a seguir reler o que escrevi. Por exemplo, às vezes estava satisfeito com o resultado no próprio dia mas no dia a seguir pensava que estava horrível. Aconteceu durante anos. Um dia, um amigo meu perguntou-me se não queria conhecer uma senhora que também tinha vivido horrores como os da minha mãe. Quando visitei a senhora falámos durante sete ou oito horas sobre as suas experiências. Ela relatou de uma forma completamente diferente da minha mãe os acontecimentos da Suécia. Lembro-me que no caminho para casa imaginei uma fila de senhoras num cais na Suécia, com o vento a levantar-lhes as saias. Gostei tanto dessa imagem que decidi que isso seria a imagem inicial do meu filme.

Assim que cheguei a casa escrevi a cena. No dia a seguir, reli e gostei. Sentei-me e escrevi mais 15 páginas. Consegui assim superar o problema e em três meses escrevi o cenário para o filme. Quando acabei, entreguei o trabalho à associação húngara que apoiava os filmes mas passados três meses esta foi extinta. Fiquei mesmo com muita raiva porque já tinha o cenário na mão, um cenário que tinha trabalhado durante nove anos. Então decidi que não ia perder essa oportunidade e escrevi um romance. Em três meses consegui escrever o livro.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Sim. O livro remonta a 1792 e não tem nada a ver com o estilo deste último livro. Trata-se da história de um homem húngaro muito conhecido, conselheiro da monarquia austro-húngara que vivia em Viena. O seu nome é Wolfgang von Kempelen e foi o primeiro a inventar a “máquina de xadrez”. Em dois anos, entre 1792 e 1794, esta máquina venceu toda a gente. Isso é um facto histórico. A minha ficção é que um génio do xadrez, uma pessoa real, estava sentada lá dentro. O romance relata o relacionamento entre esse génio e o inventor. Segundo a minha ficção, essa relação é má. Mas a situação obriga-os a criar um certo tipo de amizade.

Qual é a pior parte de ser escritor?

O pior seria se percebesse que o que escrevo é mau. Como realizador também sinto a mesma coisa. As dúvidas são muitas relativamente à obra que nós criamos. Essa dúvida é mesmo importante porque sem ela não podemos escrever livros e fazer filmes. Se alguém provasse, preto no branco, que o meu trabalho não é bom, suicidava-me.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Acho que a única coisa que posso dizer é que sejam maníacos, sejam obcecados. Eu digo, por experiência própria, que às vezes a vontade é mais importante do que o talento. Tenho muitos amigos que tinham talento mas não tinham vontade suficiente para concretizar a escrita. Ser maníaco e obcecado é uma coisa muito importante na vida, digo isso também às minhas filhas e aos meus netos.

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