Pelas 7 partidas do mundo em livros

Se está a ler este artigo é porque a sua viagem já começou. Se está a olhar para esta ilustração de Ricardo Cabral é porque já não está onde julga. Tudo o que lemos, observamos ou absorvemos torna- -nos diferentes. Únicos. Passando pelos cinco continentes, a história que começa a seguir promete levá-lo numa viagem inesquecível. Esta é a sua viagem. Parado a apanhar sol através de uma imagem, em plena Patagónia, imerso na aparente confusão indiana ou na misteriosa África. Esta viagem é sua. Aproveite.

A melhor maneira de viajar é com um livro. Não, a frase anterior não é bem verdade; a única maneira de realmente conhecer um sítio é ir lá em pessoa. mas o mundo é grande e, mesmo com companhias aéreas de baixo custo e hotéis reservados na internet, ninguém consegue conhecer as cinco partidas do mundo. Às vezes, a melhor ou a única maneira de viajar é mesmo com um livro. Poucos de nós poderemos ir à Patagónia,  às Fiji ou a Timbuktu. Temos a sorte de haver quem já lá foi, que nos pode contar o que viu. Um livro de viagens conta histórias, ambientes, estados de alma. Um bom livro de viagens é ter um amigo que se fez ao caminho e nos conta como foi.

Europa

Ninguém encontra Almeida Garrett na secção de viagens das livrarias, mas a sua obra mais conhecida representa um exemplo magnífico do género. Viagens na Minha Terra é o drama dos amores de Joaninha e Carlos, mas é sobretudo o relato de uma viagem entre Lisboa e Santarém, que serve a Garrett para refletir sobre e/ou troçar da literatura e da política da época. Para um leitor contemporâneo, o tom de afeto desencantado com que o autor descreve Portugal nas Viagens parecerá  surpreendentemente familiar. Eis o que Garrett escreve ao chegar ao pinhal da Azambuja: “Isto é que é o pinhal da Azambuja? Não pode ser. Esta, aquela antiga selva, temida quase religiosamente como um bosque druídico? (…) Uns poucos pinheiros raros e enfezados através dos quais se estão quase vendo as vinhas e olivedos circunstantes!… é o desapontamento mais chapado e solene que nunca tive na minha vida — uma verdadeira logração em boa e antiga frase portuguesa.” Ora, o trajeto de Lisboa para Santarém, ou para qualquer canto de Portugal continental, faz-se hoje rapidamente de autoestrada. Em 2008, Nuno Ferreira resolveu fazer o caminho da extremidade mais a sul (Sagres) até à ponta mais a norte (Cevide, perto de Melgaço). Mas não foi de carro. Foi a pé. Por este longo caminho, que durou mais de dois anos a percorrer, Ferreira foi escrevendo crónicas sobre um país de que a maior parte dos portugueses, aglomerados nas cidades do litoral, conhece pouco. O resultado foi Portugal a Pé, coleção de crónicas detalhando uma épica série de caminhadas. “Quando mais algum político engravatado desejar discursar sobre o estado da nação ou a não resignação à desertificação, esta é seguramente uma estrada a visitar, conjuntamente com outras que visitei ao longos dos últimos meses”, escreve Ferreira algures a caminho de Nisa. “Aqui já não se coloca a aplicabilidade de medidas estratégicas para o bem dos portugueses, simplesmente porque já não vive aqui ninguém.” Portugal é dos poucos cantos da Europa que nunca aparece nos escritos de Bill Bryson, um dos mais populares escritores de viagens dos dias de hoje. Bryson é um americano que viveu 20 anos em Inglaterra, assumindo assim um estatuto duplamente estrangeiro no Velho Continente. Entre Estocolmo e Istambul, Nem Aqui Nem Ali (não confundir com Por Aqui e Por Ali, narrativa das caminhadas de Bryson pelos Apalaches, nos EUA) tem o humor caraterístico do autor. Esse humor baseia-se aqui muito em estereótipos, como quando Bryson se queixa do serviço num hotel da Bélgica francófona, notando que a rececionista lhe responde com “um daqueles encolheres de ombros gauleses, em que o queixo cai até ao cinto e as orelhas e os ombros sobem ao cimo da cabeça”. Volta e meia Bryson surpreende os leitores com observações inesperadas. Por exemplo, ei-lo na Escandinávia: “Uma das caraterísticas mais marcantes da Suécia e da Noruega é a quantidade enorme de embriaguez em público.” O livro é de 1991 e contém passagens já muito datadas – especialmente os capítulos na Jugoslávia pré-guerra. Bryson quase não entrou na Europa para lá da antiga “cortina de ferro”, países que há 25 anos eram quase interditos aos turistas. Essa Nova Europa é o título e o tema de uma das muitas obras de Michael Palin. Famoso sobretudo pelos seus tempos como membro dos Monty Python, o ator inglês passou as últimas três décadas a calcorrear o mundo (sobretudo de comboio, o seu meio de transporte favorito). As suas digressões estão documentadas em séries televisivas para a BBC e em diários de viagem, vários deles publicados em Portugal: Palin já deu A Volta ao Mundo em 80 Dias, já foi De Polo a Polo, já partiu À Aventura com Hemingway. Em A Nova Europa, Palin atravessa duas dezenas de países, da Eslovénia à Ucrânia, da Bósnia à Polónia, passando pelo enclave russo de Kaliningrado. Sempre com bom humor – não a sátira corrosiva dos Monty Python mas antes uma curiosidade inabalável, um entusiasmo contagiante por conhecer novas terras e fazer novos amigos.

Ásia

As Viagens de Marco Polo são o primeiro e talvez mais famoso exemplo do relato de uma expedição a um Oriente que, para os  uropeus, era misterioso e exótico. O mercador veneziano seguiu o caminho da Rota da Seda até à corte de Kublai Khan, neto de Ghenghis, e as suas memórias continuam a marcar o imaginário europeu sobre a Ásia. Foram os navegadores portugueses a abrir o caminho para o Oriente, e esse é o tema da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Edição póstuma de 1614, narra acontecimentos de meados do século xvi a era áurea do domínio português sobre os oceanos. Não se pode saber até que ponto o relato é fiel, exagerado ou ficcional (daí o célebre “Fernão, mentes? Minto!”). Mas ler a Peregrinação é seguir os passos dos navegadores por lugares como Goa, Diu, Ormuz, Nanquim ou Malaca, onde ainda hoje subsistem vestígios da passagem portuguesa. Mendes Pinto descreve os povos e as terras que encontra mas, na sua versão, os Descobrimentos não são uma aventura heróica. Um exemplo: a caminho do Camboja, o junco do narrador naufraga, e “tanto chins marinheiros como escravos nossos” constroem uma jangada para se salvarem; os portugueses ficam com ela à força: “…arremetemos vinte e oito portugueses que éramos, todos num corpo, aos quarenta chineses que já então estavam na jangada, nós com as nossas espadas e eles com as machadinhas que tinham nas mãos, e baralhámo-nos uns com os outros de tal maneira que no espaço de três ou quatro credos os quarenta chins foram todos mortos (…) coisa decerto nunca cuidada nem imaginada, e em que se pode ver claramente a miséria da vida humana”. Quatro séculos depois, o romancista italiano Alberto Moravia foi à Índia em busca não de especiarias mas das raízes da civilização ocidental. No início de 1960, percorreu o subcontinente na companhia do cineasta Pier Paolo Pasolini e Uma Ideia da Índia foi o resultado dessa viagem. A leitores contemporâneos esta coleção de crónicas pode parecer paternalista, até mesmo cruel, na sua descrição desoladora da vida quotidiana dos indianos. Os retratos que Moravia pintou da miséria de Bombaim ou Calcutá continuam contudo a influenciar a forma como no Ocidente se imagina a Índia. A Índia ocupa também grande parte de O Grande Bazar Ferroviário, relato de uma épica viagem do americano Paul Theroux que o levou até Istambul, Teerão, Nova Deli, Colombo, Osaka – sempre de comboio. O regresso foi pelo Transsiberiano, pela imensidão do Leste da Rússia, por “milhares de quilómetros de territórios sem nome”. Theroux realizou a viagem de Bazar em 1975. Três décadas depois, refez o percurso, e registou as diferenças noutro grande livro de viagens, Comboio Fantasma para o Oriente. Em algumas paragens, a modernidade desilude Theroux. A China que encontra, por exemplo, é “o sonho ganancioso de desenvolvimento de um campónio”, com uma “paisagem estragada por fábricas e um ar irrespirável”. Noutras a surpresa é positiva, como em Saigão, que o escritor encontra “revitalizada, febril, não bela mas enérgica”.

Oceânia

Paul Theroux é conhecido sobretudo pelas suas viagens pela Ásia e por África, mas já deu várias voltas ao mundo e visitou os seus cantos mais recônditos – incluindo as ilhas do Pacífico em The Happy Isles of Oceania. Olhando para um mapa, Theroux concluiu que “mais que um oceano, o Pacífico é como um universo”, uma vasta imensidão pontilhada por micronações de nomes que, aos ocidentais, continuam a parecer exóticos: Vanuatu, Taiti, Fiji, Tonga, Samoa, e resolveu andar de canoa por eles. As distâncias entre estes arquipélagos são consideráveis e de canoa Theroux não as teria conseguido percorrer, mas “os aviões são as botas de sete léguas” da era moderna e permitiram a Theroux visitar meia centena de ilhas, com um caiaque dobrável na bagagem. Theroux conta histórias da beleza deslumbrante destas “ilhas felizes”, mas também não ignora o lado menos idílico destas terras distantes. Por exemplo, nas ilhas Marquesas a água local não tem qualidade para consumo, e espanta-se por “ninguém questionar o absurdo de ter de comprar esta garrafinha de água [de uma marca francesa] vinda do outro lado do mundo”. A maior das ilhas ou o menor dos continentes, a Austrália exerce um grande fascínio sobre os escritores de viagens ocidentais. Talvez pela sua extraordinária fauna. Mais do que os koalas e os cangurus, o que impressionou mesmo Bill Bryson foi “as coisas que nos podem matar, o que na Austrália é quase tudo”. Por exemplo, as dez cobras mais venenosas do mundo “são todas australianas”. Quem tenha lido In a Sunburned Country não se esquece tão depressa a descrição da vespa do mar, “a mais venenosa criatura na Terra”, um “pequeno saco de letalidade”. Mas In a Sunburned Country não é um alerta para não ir à Austrália – pelo contrário, Bryson apaixona-se pela terra e pelos seus habitantes, “informais e otimistas”. Os primeiros australianos e a sua cultura são o objeto de O Canto Nómada, do inglês Bruce Chatwin – o escritor que celebrizou um certo conceito romântico do escritor de viagens, que se faz à estrada de mochila às costas e caderno Moleskine na mão. Percorrendo o outback pelos “caminhos invisíveis” dos aborígenes australianos, para quem “toda a Austrália é sagrada”, Chatwin tece uma narrativa em que a realidade e a ficção nem sempre são fáceis de distinguir.

América

Mais ainda do que a Austrália, a Patagónia, no extremo meridional do continente americano, tem reputação de ser “o fim do mundo”. Era a ideia de um sítio tão remoto que fascinava Bruce Chatwin. Escrevendo ainda no tempo da guerra fria e da ameaça da guerra nuclear, a Patagónia parecia-lhe um bom “sítio para viver quando o resto do mundo rebentasse”. Em Na Patagónia, Chatwin procura a lenda do bandido americano Butch Cassidy e os vestígios dos dinossauros (que, ainda no início do século xx, se julgava ser possível encontrar vivos nestes confins da Argentina) – e cruza-se com a herança de “Magellan” – como em inglês se chama ao navegador português Fernão de Magalhães, que deu à Patagónia o seu nome. É do “maior navegador português da história” que trata Nos Passos de Magalhães, uma volta ao mundo de Gonçalo Cadilhe, talvez o nome mais conhecido da literatura de viagens portuguesa contemporânea. Nesta “biografia itinerante”, Cadilhe seguiu os passos do explorador que, ao serviço dos reis de Espanha, conduziu a primeira circumnavegação do globo. É um longo caminho – afinal, ainda antes da sua grande viagem, Magalhães “estivera em todo o lado”, de África à Índia. Os capítulos mais cativantes são contudo os que Cadilhe passa na América do Sul, onde Magalhães deixou mais marcas – é a ele que a capital do Uruguai deve o nome, há uma região da Patagónia chilena chamada Magallanes e, claro, há o estreito. Ao chegar à passagem do Atlântico para o Pacífico, Cadilhe encontra um “lugar irreal, desumano, vazio de referências”, mas mesmo assim “mágico”. No Brasil atual falar em “navegador” e “circumnavegação” é código para Amyr Klink, velejador que, em 1998, encetou uma volta ao mundo pelo caminho marítimo mais curto possível – mas mesmo assim um caminho terrível: circundando o continente gelado da Antártida. Mar sem Fim é o livro de bordo da viagem de Klink, que retirou o título de um poema de Fernando, Pessoa, que lhe serve também de epígrafe: “E ao imenso e possível oceano/ Ensinam estas Quinas, que aqui vês / Que o mar com fim será grego ou romano: / O mar sem fim é português.” Não é contudo o gelo antártico que  associamos ao Brasil. A sua porta de entrada é o Rio de Janeiro, “cidade‑palavra que convoca inúmeras imagens na mente de qualquer pessoa que escuta o seu nome”, que Daniel Blaufuks quis retratar em fotografias em Hoje é Sempre Ontem – mas não apenas o Rio dos postais ilustrados, de Samba e Carnaval, nem o da violência e das favelas. Blaufuks apresenta uma coleção de “fragmentos de uma geografia intensa”, na impossibilidade de captar a experiência do Rio num único livro. Igualmente impossível de encaixar num único livro é o grande vizinho a norte, os Estados Unidos, sobre o qual já foram escritos volumes infindáveis de literatura de viagens, tanto por americanos como por forasteiros. Um dos primeiros foi Da Democracia na América, resultado de uma viagem pela América em 1831 do francês Alexis de Tocqueville. O objetivo de Tocqueville era investigar o sistema penal dos EUA; acabou por fazer uma descrição concisa mas rica de um país então ainda jovem. O seu livro trata sobretudo de ideias e de política, mas Tocqueville dedica igualmente atenção à cultura e ao cenário natural da América. Ei-lo por exemplo comovido pela majestade do maior rio dos Estados Unidos: “O vale do Mississippi é, no cômputo geral, a mais magnífica moradia concebida por Deus para a residência do homem.”

África

O maior dos continentes ocupa um lugar importante na história portuguesa, mas até ao século XIX os viajantes portugueses pouco se aventuravam para lá das costas. É já em 1877 que partem as expedições de Alexandre Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens. Quase século e meio mais tarde, é complicado olhar para estas viagens sem considerar a herança do colonialismo e da história política do “mapa corde- rosa”. Como Atravessei África, narrativa da viagem de Serpa Pinto, contém passagens cujo racismo chocará um leitor contemporâneo: “O nosso exército da metrópole é bom, porque o português é bom soldado; o nosso exército das colónias é mau, porque o preto é mau soldado.” Mas Serpa Pinto é produto da sua era; para lá do contexto histórico, sobra de Como Atravessei África uma extraordinária aventura, que rivaliza com as dos famosos exploradores britânicos Henry Stanley e David Livingstone – sobre quem está publicado em português um excelente livro de Martin Dugard, À Descoberta de África. Já no século xxi, dois portugueses publicaram relatos de travessias de África. Tiago Carrasco foi Até Lá Abaixo; Gonçalo Cadilhe fez o caminho inverso, África Acima. Ambos encontraram um continente imenso e em que o reverso da miséria e da guerra é “a amizade, o humor, a tolerância”. Ambos apresentam estatísticas impressionantes – para Carrasco foram “150 dias, 21 países, 30 mil quilómetros”; Cadilhe, “oito meses, 15 países, 27 mil quilómetros”. Carrasco, na companhia do fotógrafo João Henriques e do operador de câmara João Fontes, partiu na direção da África do Sul para assistir ao Mundial de Futebol de 2010. Cadilhe, caminhando para norte, tinha um projeto mais vago mas não menos ambicioso, “um devaneio orientado por um simples objetivo: regressar a casa”. Para ambos, mais importante do que o destino foi a viagem.

Pedro Ribeiro

Ilustrações Ricardo Cabral

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