Paula Hawkins: “É inevitável que escreva sobre mulheres”

Assume-se feminista, sem hesitar.

Tal como afirma, também sem hesitar, que escreve sobre mulheres porque as histórias, as lutas e os desafios das mulheres lhe interessam. Mas não escreve para mulheres e rejeita, uma vez mais sem hesitar, essa visão das suas obras. A primeira, A Rapariga no Comboio, foi o livro mais vendido de 2015 em Portugal e esteve 13 semanas consecutivas a liderar o top de vendas. A segunda, Escrito na Água, promete seguir-lhe o sucesso. As semelhanças são muitas – além da protagonista feminina, o ambiente claustrofóbico, a múltipla narrativa na primeira pessoa, o suspense. Há crime, naturalmente, mas o que interessa a esta autora britânica nascida no Zimbabué há 44 anos são as motivações, os comportamentos. E é da vida real que se alimenta. Também assim será certamente na terceira obra, que ganha já alguns contornos na sua cabeça e à qual Paula Hawkins promete dedicar-se a fundo em 2018.


PAULA HAWKINS
EM NÚMEROS
1972 
Ano de nascimento, na cidade de Harare, no Zimbabué
17
Idade com que se mudou para Londres
4 
Livros publicados sob o pseudónimo “Amy Silver”
antes de se dedicar aos thrillers psicológicos
20 milhões
Número estimado de exemplares de A Rapariga no Comboio vendidos em todo o mundo até à data
10 milhões 
Dólares faturados entre 2015 e 2016,
segundo a Forbes

Depois do sucesso de A Rapariga no Comboio sentiu pressão para um segundo livro? Foi fácil mergulhar numa nova história?

Sei que alguns autores lutam para escrever o segundo livro, mas eu, mal acabei o primeiro, quis logo escrever este. A minha intenção era acabá-lo antes de A Rapariga no Comboio ser publicado, mas não consegui. E, quando foi publicado, a minha vida mudou bastante, tive de viajar, o que dificultou o processo de escrita.

Como é esse processo? Mais impulsivo ou mais disciplinado?

É bastante disciplinado. Gosto de escrever em casa, onde tenho um pequeno escritório. Gosto de me sentar à secretária e escrever durante a manhã, quando tudo está em silêncio e não há distrações. É o meu modo perfeito. Claro que nem sempre o consigo, porque não estou sempre em casa, mas é o ideal. No início de um livro, costumo definir um objetivo – mil ou duas mil palavras por dia. E tento cumprir. Depois, à medida que entro na escrita, isso muda, mas no princípio gosto de ser disciplinada. Encaro-o como um emprego.

O que acontece quando abre um documento e começa a escrever? De onde vem a primeira palavra?

A primeira palavra que se lê no livro não é necessariamente a primeira que escrevo. Aliás, nem sei qual foi a primeira palavra que escrevi… Em geral, escrevo cronologicamente. Costumo ter um plano, embora vago. Sei que quero ir aqui e ali, mas não com muito pormenor. Sei o fim, mas não sei mais nada. Há muito entre o princípio e o fim que, quando começo a escrever, desconheço. Não sei como vou lá chegar, mas gosto de saber para onde vou. De outra forma, receio perder-me no caminho ou nunca encontrar o fim certo.

Tudo o resto desenvolve-se enquanto vou escrevendo, todas as ligações, as reviravoltas. E neste novo livro houve muitas mudanças, muitos rascunhos. Mudei o modo como contava a história, por exemplo: por vezes começava do ponto de vista de uma personagem, mas depois concluía que era melhor contá-la de outro ponto de vista. Houve muita reescrita.


As histórias que conto são sobre mulheres porque me interesso particularmente pelas lutas das mulheres, pelos desafios que enfrentam na sociedade atual. É inevitável que escreva sobre mulheres.


ESCRITO NA ÁGUA:
NOVO FILME A CAMINHO?
A Rapariga no Comboio foi adaptado ao cinema por Tate Taylor. E Escrito na Água pode seguir o mesmo caminho, pois a Dreamworks já comprou os direitos. Diz Paula Hawkins que ter um livro convertido em filme é “um processo interessante”. Reconhece que houve leitores que ficaram incomodados com a adaptação, mas sublinha que um filme nunca é o que lemos. E não pode ser, desde logo pela necessidade de condensar a narrativa em pouco mais de 90 minutos. Mas gostou. Gostou do desempenho da atriz Emily Blunt no papel de Rachel. E gostou que o filme tivesse mantido “o coração” do livro. Reconhece que adaptar Escrito na Água será mais difícil, dada a complexidade da história. Mas vai ler o guião e envolver-se mais, sabendo – repete – que não é possível incluir todo o livro num filme.

Alguma vez sentiu a síndrome da página em branco?

Não tanto a página em branco, mas a insatisfação pelo modo como contava a história. Por isso, ia mudando e mudando…

Onde se inspira? De onde vêm as ideias?

De todos os lugares. Para o Escrito na Água comecei com a ideia das irmãs, da sua relação complicada e fraturada e, mais especificamente, de como nos lembramos da infância, de como construímos as nossas memórias. Lembramo-nos de um acontecimento de forma diferente.

Aconteceu comigo, embora nada dramático, mas foi surpreendente descobrir: sobre um dado episódio, podia jurar que tinha sido de uma maneira e a minha mãe disse-me que não tinha sido nada assim… Então comecei a questionar-me sobre a importância das coisas que recordamos e a falta de fiabilidade dessas recordações.

A minha inspiração é a vida real. Às vezes, leio algo num jornal ou vejo na televisão e interrogo-me como as pessoas chegaram ali ou como vão continuar a partir dali. Não sou daquelas pessoas que passam semanas na biblioteca. Leio muito, claro, mas não há muita pesquisa.

Como define a sua escrita? Revê-se no conceito de thriller psicológico?

Não defino. As pessoas chamam-lhes thrillers psicológicos e eu alinho. Mas, se me pedirem para definir o que é um thriller psicológico, não sei… É uma história de crime, focada nas motivações, mais no “porquê” e menos no “como”. É mais pensar no que leva as pessoas a cometerem um crime e não tanto no ato de violência, nas provas forenses ou na investigação. Compreendo que são rótulos úteis para o marketing e para as vendas, talvez para o leitor, mas não para o escritor.

Há uma continuidade intencional entre os dois livros?

Sim, definitivamente. Em ambos os livros falo de mulheres, dos problemas das mulheres, das relações que têm umas com as outras, do lugar que ocupam na sociedade. Há obviamente a questão do confronto da memória, da falta de fiabilidade do que nos lembramos do passado. E também se mantém a atmosfera – uma certa escuridão, uma claustrofobia.

Escrito na Água passa-se numa pequena terra onde todos se conhecem e A Rapariga no Comboio decorre nos subúrbios, onde todos espreitam por detrás da cortina. A semelhança existe também no modo como a narração acontece, pois nos dois livros há múltiplos narradores, no primeiro três e neste seis. Mas a narrativa é sempre na primeira pessoa, embora com diferentes perspetivas sobre o mesmo evento.


Penso que Escrito na Água é um livro feminista. Não me sentei e pensei ‘vou escrever um livro feminista’, mas as minhas ideias transparecem quando estou a escrever.


O QUE LÊ PAULA HAWKINS?
Na idade certa, isto é, na adolescência, Paula Hawkins leu muita AGATHA CHRISTIE, que foi, aliás, a sua “primeira experiência no crime”. Mas atualmente prefere o suspense, livros com uma atmosfera negra. GILLIAN FLYNN, autora dos romances Em Parte Incerta, Objetos Cortantes e Lugares Escuros, e TANA FRENCH, que tem editados títulos como O Sítio Secreto, Sombras do Passado e Desaparecidos, estão entre as suas preferências. Lugar de destaque ocupam também KATE ATKINSON, pelas histórias “cheias de tragédia, mas também de esperança”, e PAT BARKER, pelas temáticas da Primeira Guerra Mundial. O último livro que leu ainda não foi publicado, mas chegou-lhe entre os muitos originais que lhe propõem: My Absolute Darling, de GABRIEL TALLENT.

Essa abordagem com múltiplos narradores não torna o processo de escrita mais complexo? Não arrisca dificultar a leitura?

Certamente torna o processo de escrita mais complexo, mas gosto mesmo da narrativa múltipla e na primeira pessoa, gosto do imediatismo. Sei que há limites e tive de ser muito cuidadosa no modo como construí a história. Admito que, inicialmente, possa ser algo confuso para o leitor, mas não demora a perceber-se quem é quem. É um universo limitado, no qual todas as pessoas estão ligadas. Penso que olhar para a história apenas através de uma pessoa permite ver muito pouco.

Todas as personagens são femininas. Também aqui há uma intenção?

As histórias que conto são sobre mulheres porque me interesso particularmente pelas lutas das mulheres, pelos desafios que enfrentam na sociedade atual. É inevitável que escreva sobre mulheres. Não vou dizer que será assim para sempre mas, por agora, são as histórias que considero mais interessantes para contar.

Mas escreve para as mulheres?

Só porque é uma história de mulheres, não quer dizer que apenas as mulheres se interessem. Se alguém escreve um livro sobre homens, isso não significa que eu não me interesse. Estamos todos ligados – há homens nas famílias, homens de quem gostamos. Acho estranho que digam – mas é a sociedade em que vivemos – que são livros para mulheres.

No cinema acontece o mesmo. O Padrinho, por exemplo, é um filme com homens, sobre homens, mas as mulheres também o veem. Espero que os homens se interessem pela vida das mulheres, pelas suas lutas, porque, afinal, são as suas mulheres, as suas filhas, as suas mães.


Não estava interessada em escrever A Rapariga no Comboio 2. E penso que não é isso que os leitores esperam. As pessoas não querem ler o mesmo livro.


Paula Hawkins (Créditos - Paula Hawkins)

2018ANO DE ESCRITA
Paula Hawkins anda em digressão pelo mundo. Antes de Lisboa esteve em Madrid, e a viagem ainda vai levá-la a outros destinos, incluindo a América do Sul. Antes de setembro, não deverá parar. Mas depois terá tempo para escrever. Tenciona, aliás, dedicar o próximo ano apenas à escrita. E, quando se sentar à secretária, não vai partir do zero: “Tenho algumas ideias, estou a pensar em algumas personagens, tomei notas, mas ainda não comecei a escrever. Ainda não sei para onde vou.”

Assume-se feminista? 

Sim. E penso que este é um livro feminista. Não que me tenha sentado e pensado “vou escrever um livro feminista”, mas as minhas ideias transparecem quando estou a escrever.

Escrever thrillers foi uma escolha, imagino. Porquê? 

Sim, claro. Interessam-me as histórias mais negras. Não sei porquê, pois não tive uma vida difícil. Mas interessa-me o modo como lidamos com o medo, o sofrimento, o trauma, e o modo como recuperamos – ou não. Nos jornais sou sempre atraída pelas histórias de pessoas comuns, de como algo corre mal nas suas vidas e chegam a fazer coisas terríveis umas às outras.

Podia ter sido psicóloga mas, antes de se dedicar à escrita, era jornalista. 

Era, e nem era jornalista de crime, mas de finanças. Nunca pensei em psicologia. E quando fui para jornalismo o que queria era ser correspondente externa, andar pelo mundo, cobrir guerras… Mas teria sido uma correspondente terrível. Era apenas uma ideia romântica.

Sente a responsabilidade de corresponder às expetativas dos leitores? A revista Time escreveu que Escrito na Água era o livro mais aguardado do ano…

Pensei, obviamente, no facto de os leitores terem expetativas. Temos de pensar no que esperam de nós. Mas isso não pode ditar o que escrevemos. Sei que as pessoas procuram no livro uma história entusiasmante, alguma escuridão, inclusive algo assustador, e esses elementos estão lá, mas escrevi uma história mais complexa. Nunca se colocou a questão de escrever o mesmo. Não estava interessada em escrever A Rapariga no Comboio 2. E penso que não é isso que os leitores esperam. As pessoas não querem ler o mesmo livro. Podem querer uma sensação semelhante, mas uma história diferente.


Entrevista: Fátima de Sousa
Fotografias: Kate Neil, Alisa Connan e Paula Hawkins

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