Que segredos esconde Alice no País das Maravilhas?

revista-estante-alice-no-pais-das-maravilhas-ilustracao

revista-estante-alice-personagens

Personagens


Alice
Destemida, impaciente e irremediavelmente curiosa. Alice aventura-se pelo imprevisível País das Maravilhas, tornando-se mais adulta ao longo da estadia.

Coelho Branco
Assustadiço e atrapalhado, quase o oposto exato de Alice, condu-la involuntariamente ao País das Maravilhas ao passar por ela apressado, de colete e relógio na algibeira.

Lagarta
É lacónica, dada a filosofias e não se separa do cachimbo de água. A lagarta azul que Alice encontra a fumar no topo de um cogumelo dá-lhe conselhos para a ajudar a tornar-se maior.

Duquesa
Vive numa pequena casa junto ao bosque, com os lacaios, um bebé que não para de chorar e o Gato de Cheshire. Comporta-se de forma quase bipolar para com Alice.

Gato de Cheshire
Figura emblemática do universo de Alice, aparece e desaparece sempre que lhe apetece, deixando por vezes apenas o sorriso. É o principal conselheiro de Alice.

É ao longo de uma rotineira viagem de barco, numa tarde amena de verão, que Alice se vê pela primeira vez transportada para o País das Maravilhas.

A cena passa-se a 4 de julho de 1862. Charles Lutwidge Dodgson, professor de Matemática da Faculdade de Christ Church, entretém as três filhas do reitor – entre as quais Alice Pleasance Liddell, de apenas dez anos – com um mirabolante improviso, a história de uma menina chamada Alice que segue um apressado coelho branco até um mundo bizarro, repleto de extravagantes personagens: o País das Maravilhas.

A narrativa satisfaz de tal forma o trio de ouvintes que Dodgson passa os anos que se seguem a transpô-la para o papel. Acaba por a publicar em 1865, sob o pseudónimo “Lewis Carroll” e o título Alice no País das Maravilhas. Sem o saber, está a imortalizar a pequena Alice Liddell, de quem tanto gosta, e a assinar uma das mais influentes obras da história da literatura infantil.

O apelo de Alice

Contos de animais falantes e mundos de fantasia já existem há muito, mas Alice marca a diferença no panorama literário pela espontaneidade e sinceridade apresentadas. A protagonista Alice é fascinante porque, ao contrário de outros protagonistas de histórias infantis, se mostra sempre obstinada, casmurra e imperfeita. Como uma criança real. Porque foi moldada numa criança real.

Por outro lado, se todas as anteriores narrativas infantis têm uma razão formativa ou moral, Alice é criada com o único propósito de entreter. O autor não a concebe para o público, mas para uma única pessoa, a sua jovem Alice Liddell. Este despretensiosismo permite-lhe entregar-se por inteiro à história, acrescentando-lhe, no processo, a sua própria visão da sociedade, entre logicismos e símbolos matemáticos.

Como resultado, Alice no País das Maravilhas torna-se alvo eterno de análise, na busca de significados políticos, sociais e filosóficos. Das suas inúmeras interpretações nascem novas obras, novos estilos. Nunca um livro infantil recebeu tanta atenção adulta.

Possíveis simbolismos

Aos leitores de Alice no País das Maravilhas são permitidos dois caminhos: desfrutar a história aceitando o seu absurdo ou vasculhá-la procurando símbolos obscuros que a expliquem. Aqueles que optam pela segunda opção deparam-se com jogos de palavras, críticas à sociedade da época, referências a temas pouco infantis, jogos de lógica e lições de relações inversas.

Ora é a Lagarta a aconselhar Alice a experimentar cogumelos, ora é a Pomba a acusar Alice de ser uma serpente e não uma menina (pois as meninas são pequenas e as serpentes são grandes e comem ovos; se Alice é grande e come ovos, será logicamente uma serpente e não uma menina), ora é o Chapeleiro a notar que ver o que se come não é o mesmo que comer o que se vê. Será, no entanto, impossível encontrar um sentido para todos os elementos de Alice, até porque certos pormenores, como a adivinha “Porque é que um corvo se parece com uma escrivaninha?”, foram especialmente pensados para não ter sentido.

Mais importante que tudo isto parece, portanto, ser o charme peculiar de uma história que, um século e meio depois, permanece tão ou mais especial do que quando foi publicada, a de uma criança aborrecida que, ao perseguir um coelho falante, dá consigo num lugar estranhíssimo.


 

LEWIS CARROLL E ALICE: UMA LIGAÇÃO PERIGOSA


revista-estante-fotografo-e-a-rapariga-mario-claudio

O Fotógrafo e a Rapariga

O mais recente livro de Mário Cláudio, centrado na relação entre Charles Dodgson e Alice Liddell, conclui uma trilogia sobre relações entre pessoas de idades muito distintas, iniciada com Boa Noite, Senhor Soares e Retrato de Rapaz. Na capa surge a própria Alice Liddell, vestida de mendiga numa fotografia tirada por Dodgson em 1858.

revista-estante-mario-claudio-o-fotografo-e-a-rapariga

Mário Cláudio

O autor afirma só ter descoberto em adulto o apelo de Alice no País das Maravilhas: “Foi um livro que li na infância, mas não foi um dos livros que mais me tocaram. Era demasiado surreal, e eu sempre preferi âmbitos mais reais. Só mais tarde redescobri o livro e é na atualidade uma referência constante, mas não foi na altura uma leitura gratificante. Alice é mais para adultos que ainda são crianças do que para crianças que já são adultos”.
Fotografia de Mário Cláudio por Rogério Ribeiro 

Ele tinha 30 anos, ela apenas 10. O invulgar relacionamento entre autor e musa de Alice no País das Maravilhas é ainda hoje quase tão debatido como a própria história, sendo o tema central do mais recente livro do escritor português Mário Cláudio.

Charles Dodgson

O homem que o mundo hoje conhece como Lewis Carroll tinha o hábito de fotografar crianças, sempre do sexo feminino, e estabelecer com elas relações de invulgar proximidade. A sua grande “paixão” terá, contudo, sido Alice Liddell, na qual se baseou para criar Alice no País das Maravilhas. O caso inspirou o escritor Mário Cláudio à escrita de O Fotógrafo e a Rapariga, o último volume de uma trilogia dedicada a relações entre pessoas de idades muito diferentes.

Uma área nebulosa

“Um dos reptos que me lançou foi tentar saber as fronteiras da pedofilia”, explica o autor. Lewis Carroll seria, então, pedófilo? “Um dos riscos que corremos é colocar rótulos em tudo. Há áreas de penumbra. Estou convencido que Carroll era pedófilo. É a minha convicção pessoal. Deixo, contudo, ao entender dos leitores”, refere, acrescentando que “Alice nem terá tido consciência da pulsão pedofílica dele. Carroll provavelmente teria, mas foi homem suficiente para não lhe ceder e evitar cair na concretização dos seus afetos”.

Diferença de classes

A mãe de Alice, por sua vez, parece ter tido todas as certezas de que algo de errado se passava, chegando a certa altura a proibir a filha de o ver. Mário Cláudio revela, contudo, que as suas razões eram outras: “Todas as biografias de Alice Liddell referem que a preocupação da mãe eram os estatutos sociais. O conceito de pedofilia não estava devidamente elaborado na época, não se pensava nisso. E Carroll chegou a propor casamento com a Alice quando esta tinha 12 anos, para quando tivesse 14 e fosse de idade legal para casar. O que deixou a mãe aterrorizada foi o facto de a filha se poder vir a unir com um elemento de estatuto social inferior”.

Eternamente Alice

Apanhada neste turbilhão, Alice Liddell viu-se forçada desde muito jovem a aprender a lidar com a fama, algo que, de acordo com Mário Cláudio, lhe terá deixado sequelas: “O grande drama da vida dela foi deixar de ser ela e passar a ser ‘Alice’. Toda a gente sabia que ela tinha sido a modelo da história. Era sempre confrontada com esta identidade de ficção. O seu universo andava sempre à volta da ficção”. Alice Liddell haveria de morrer em 1934, confessadamente exausta de ser “Alice”.


Por: Tiago Matos
Ilustrações: Richard Câmara

Gostou? Partilhe este artigo: