Palavras que nasceram em livros

Para alguns escritores a liberdade criativa deve ser total, inclusive a nível de vocabulário. Conheça algumas palavras comuns que nasceram em livros.

Nerd

Origem: If I Ran the Zoo (Dr. Seuss)
Significado original: Espécie animal que o narrador ambiciona ter no seu jardim zoológico
Significado atual: Pessoa intelectual com comportamentos pouco sociais

Freelance

Origem: Ivanhoé (Walter Scott)
Significado original: Mercenário que usa a espada (ou a lança) em defesa de quem melhor lhe paga
Significado atual: Profissional independente

Manager

Origem: Sonho de Uma Noite de Verão (William Shakespeare)
Significado (original e atual): Aquele que gere ou é responsável por alguém ou alguma coisa

O dicionário não tem palavras suficientes para ilustrar as ideias de alguns escritores. Vai daí, estes são forçados a inventar as suas próprias. E algumas até acabam por pegar. Ao ponto de não nos conseguirmos lembrar do nosso vocabulário sem estas, mesmo que nunca tenhamos sequer lido os livros que as originaram. Um dos exemplos mais evidentes é o da palavra “robô”, hoje muito mais popular do que o texto onde surgiu pela primeira vez, a peça de ficção científica R. U. R., publicada em 1920 pelo checo Karel Čapek. Os robôs deste autor são descritos como um tipo simplificado de humanos, criados para lhes servir de escravos. A expressão espalhou-se como um vírus pelo mundo científico. Anos mais tarde, outro escritor de ficção científica, Isaac Asimov, baseou-se nela para cunhar o termo “robótica”. E a provar que não há duas sem três, foi também num romance de ficção científica – Neuromante – que William Gibson deu a conhecer a palavra “ciberespaço”. Isto embora nem tivesse grande noção do que estava a escrever: “Pareceu-me uma palavra chamativa e eficaz, evocativa e essencialmente sem sentido. Era sugestiva mas não tinha qualquer significado semântico real, mesmo para mim quando a vi emergir na página.”

Neologismos lusófonos

Também na literatura de língua portuguesa proliferam os neologismos. Os autores formam novas palavras através da combinação ou modificação de palavras já existentes, atribuindo-lhes um novo sentido. Um dos nomes mais criativos nesta área é o do moçambicano Mia Couto, para quem os neologismos são tão frequentes que podem ser resumidos no seu próprio neologismo: “falinventar”. Mas os seus livros contêm muitos outros exemplos, como “antecoisa” (uma coisa que ainda não é), “distratividade” (uma atividade para distrair) ou “orativo” (alguém ativo em orações). Porém, não se pense que a arte de criar palavras é uma invenção moderna. Já Luís de Camões, no século XVI, inventava ou determinava um novo sentido para palavras como “crepitante”, “láctea” ou “estupendo”. E até Eça de Queirós se aventurou, em A Relíquia, a introduzir o verbo “cervejar” como sinónimo de “beber cerveja”. A criatividade aplicada ao vocabulário por escritores que, nas palavras de Urbano Tavares Rodrigues, são mestres em “escreviver”.


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