Os livros (também) inspiram canções

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A arte tem destas coisas e, por vezes, interligam-se os ramos. Assim se explica que célebres canções tenham por vezes origem em ainda mais célebres livros.

A música e a literatura são, de certo modo, artes irmãs e se escritores como Tolstói, Proust ou Murakami já se deixaram influenciar por melodias para construir as suas narrativas, é natural que também alguns cantores se tenham inspirado em livros para compor os seus temas.

O exemplo mais imediato e memorável é o de Kate Bush, que no início de 1978, com apenas 19 anos, se lançou para a fama com “Wuthering Heights”, um tema assombroso sobre o não menos assombroso clássico de Emily Brontë, O Monte dos Vendavais. A prodigiosa cantora faz uso de alguns excertos do livro e imagina um desfecho arrepiante para os seus protagonistas. Esta não foi, no entanto, a única ocasião em que Bush viu na literatura uma inspiração. Em “In Search of Peter Pan”, a britânica aborda Peter Pan, de J. M. Barrie; “The Sensual World” parte de um solilóquio de Ulisses, de James Joyce; e o álbum The Red Shoes é parcialmente baseado no conto Os Sapatos Vermelhos, de Hans Christian Andersen.

Músicos literários

Lana Del Rey é outra cantora que integra com frequência livros nas suas composições, em especial Lolita, de Vladimir Nabokov, no qual baseou, por exemplo, a canção “Off to the Races”. Del Rey explora, de resto, em vários dos seus temas, dinâmicas relacionais próximas às da obra de Nabokov: mulheres jovens e submissas e homens mais velhos e dominantes. Também o tema “Body Electric” nasce de um poema de Walt Whitman, incluído em Folhas de Erva, já para não falar de “Ultraviolence”, cujo título provém de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess.

Também em Portugal os livros são fontes de inspiração para certas canções. Num dos seus mais célebres temas, “Opium”, os Moonspell têm por base (e chegam a incluir um excerto de) Opiário, poema escrito por Fernando Pessoa sob o pseudónimo de Álvaro de Campos e incluído em Poemas Escolhidos de Álvaro de Campos. A reconhecida banda de heavy metal transpõe ainda o infame contrato de Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe, para o tema “Mephisto” e faz de O Perfume, de Patrick Suskind, base de “Herr Spiegelmann”.

Os suspeitos do costume

Alguns livros parecem ser mais influentes na música que outros. O Perfume, por exemplo, não serviu apenas de inspiração para os Moonspell. Também os Nirvana criaram o tema “Scentless Apprentice” tendo por base o bizarro protagonista da história. O livro de Suskind deu ainda azo ao tema “Du Riechst So Gut”, dos Rammstein, sobre um predador que segue a presa pelo cheiro.

Outra obra frequentemente visitada é Romeu e Julieta, de William Shakespeare. A tragédia sobre uma paixão proibida, centrada em dois jovens capazes de morrer um pelo outro, inspirou inúmeras óperas e temas tão famosos como “Fever”, de Peggy Lee, “(Don’t Fear) The Reaper”, dos Blue Öyster Cult, ou “Join Me in Death”, dos HIM.

No entanto, o livro que mais adaptações à música conheceu será provavelmente Mil Novecentos e Oitenta e Quatro. A distopia de George Orwell, sobre um governo opressor e sempre vigilante que manipula as notícias e mantém o povo oprimido, é a razão da existência de um álbum inteiro de David Bowie (Diamond Dogs), diversos temas dos Muse (em especial no álbum The Resistance) e canções como “2+2=5” dos Radiohead, entre muitas outras.

Clássicos que geram clássicos

Sem alguns clássicos da literatura não existiriam alguns clássicos da música. Não haveria “For Whom the Bell Tolls”, dos Metallica, sem Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway. Ou “The Ghost of Tom Joad”, de Bruce Springsteen, sem As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Ou “Sympathy for the Devil”, dos Rolling Stones, sem O Mestre e Margarita, de Mikhail Bulgakov. Ou “Over the Hills and Far Away”, dos Led Zeppelin, sem O Hobbit, de J. R. R. Tolkien. Ou “White Rabbit”, dos Jefferson Airplane, sem Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. E se parece ser verdade que são as bandas mais pesadas que mais vezes se socorrem de livros para escrever as suas letras, também existem exceções. Afinal, o popular tema “Firework”, de Katy Perry, é parcialmente inspirado no clássico Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac.


Por: Tiago Matos

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