Os livros que os escritores não terminaram

Nem só de narrativas fechadas e livros concluídos se faz a literatura. Alguns grandes nomes da escrita deixaram inacabados romances que se tornaram clássicos.

 

 


O Processo

Franz Kafka

Livros do Brasil

O Processo foi um dos muitos textos inacabados que Franz Kafka deixou na hora da morte. Coube ao seu amigo Max Brod editá-lo e torná-lo público, tal como fez com O Castelo e O Desaparecido, que também poderiam facilmente figurar nesta lista. Ao bom jeito kafkiano, o protagonista de O Processo é um gerente bancário chamado Joseph K. que, sem explicação, se vê uma manhã surpreendido por três homens que o querem prender. A história tem um fim, embora seja apresentada de forma fragmentada, chegando mesmo um dos capítulos a terminar a meio de uma cena.


 

O Rei Pálido

David Foster Wallace

Quetzal

Em 1997, no seguimento da publicação de A Piada Infinita, David Foster Wallace começou a trabalhar no texto que se viria a tornar O Rei Pálido. Dez anos e mais de 1000 páginas depois, estimou que tivesse completado cerca de um terço do livro. Não teve muito mais tempo para o terminar. No dia 12 de setembro de 2008, dirigiu-se à sua garagem, escreveu um bilhete de despedida, dispôs de forma evidente o manuscrito de O Rei Pálido para que a mulher o pudesse encontrar e enforcou-se numa viga do pátio. O livro foi posteriormente editado por um amigo e, depois de publicado, foi um dos finalistas do prémio Pulitzer.


 

O Homem Sem Qualidades

Robert Musil

Dom Quixote

Robert Musil levou mais de 20 anos a escrever três volumes de uma história que, na edição portuguesa, totaliza 1840 páginas. E que, apesar disso, está incompleto. O escritor austríaco morreu em 1942, enquanto trabalhava no terceiro volume, exilado em Genebra depois de anos de perseguição por parte do regime nazi. O Homem Sem Qualidades conta a história de um jovem matemático que busca um sentido para a sua vida. Não o chega a encontrar. O romance termina com notas dispersas e inconclusivas quanto ao seu futuro.


 

O Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek

Tinta da China

Jaroslav Hašek pensou O Bom Soldado Švejk como um livro em seis volumes, mas morreu enquanto se encontrava a escrever o quarto. Isso não impediu que a obra ganhasse uma enorme popularidade, acabando por se tornar a mais traduzida de sempre da literatura checa. Publicada entre 1921 e 1923 (data da morte do autor), esta narrativa episódica tem lugar no Império Austro-Húngaro e serve de sátira à Primeira Guerra Mundial. Termina de forma algo abrupta, mas não deixa de ser uma das mais elogiadas e influentes comédias negras da literatura mundial.


 

O Silmarillion

J. R. R. Tolkien

Publicações Europa-América

O Silmarillion não termina abruptamente. Em princípio também não lhe faltam capítulos. Mas J. R. R. Tolkien morreu sem o conseguir rever e estruturar devidamente. O livro consiste numa coleção de textos que descrevem os acontecimentos que ajudaram a moldar a Terra Média, lugar onde decorre a narrativa de O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Após a morte de Tolkien, coube ao seu filho Christopher a tarefa de editar e publicar a obra, aproveitando para lhe juntar textos antigos do pai.


 

N.° 44, Um Estranho Misterioso

Mark Twain

Quidnovi

Mark Twain trabalhou no seu último romance entre 1897 e 1908. Escreveu três versões distintas da história. E morreu sem a terminar. A narrativa decorre na Áustria, no ano de 1490, e tem um tom muito diferente de títulos como As Aventuras de Tom Sawyer ou As Aventuras de Huckleberry Finn. Tudo começa quando um grupo de crianças se depara com um estranho chamado Satanás, sobrinho do anjo caído com o mesmo nome. Twain não estaria inteiramente satisfeito com o resultado, mas não teve tempo para refazer a história uma quarta vez.


 

O Primeiro Homem

Albert Camus

Livros do Brasil

Albert Camus morreu no dia 4 de janeiro de 1960, num acidente de carro. No bolso do seu casaco foi encontrado um bilhete de comboio. Camus planeara viajar nele com a família, mas decidiu à última hora fazer a viagem de carro com o seu editor (que também morreu no acidente). A alguns passos dos destroços, enterrado na lama, estava o manuscrito inacabado de O Primeiro Homem, um romance com elementos autobiográficos que Camus esperava que viesse a ser a sua obra-prima e o primeiro volume de uma trilogia. Acabou por ser o seu último livro.


Por: Tiago Matos

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