Oito Séculos da Língua Portuguesa

portugesDe uma língua velha de oito séculos poder-se-ia temer algum desgaste. Com o português passa-se exatamente o oposto: falado por cerca de 250 milhões de pessoas à escala global, idioma oficial de oito países, marca presença em praticamente todos os continentes e é uma das principais línguas dos negócios.Por tudo isto, não falta quem veja no português um dos idiomas do futuro.

Foi em português que Luís Vaz de Camões teceu Endechas a Bárbara Escrava, Vinícius de Moraes cantou a beleza da A Garota de Ipanema, José Saramago venceu o prémio Nobel da Literatura, Mia Couto revelou ao Mundo o universo do maravilhoso moçambicano e Pepetela narrou o presente e o passado de Angola. E foi também em português que José Afonso cantou Grândola Vila Morena, Mariza lembrou Povo da Minha Terra, Sérgio Godinho cantou Namoro e, mais recentemente, Boss AC pôs meio país a ansiar por Sexta-Feira (Emprego bom já).
Língua oficial de Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, o português tem hoje caráter global. A sua expansão está intimamente ligada com a história dos Descobrimentos portugueses e, ainda hoje, em certas ruas de Goa, na Índia, de Malaca, na Malásia, ou de Macau, na China, se podem ouvir ecos do português.
Mas, se no passado foi Portugal a expandir a língua, hoje são países lusófonos como o Brasil, Angola ou Moçambique os principais responsáveis pelo cada vez maior interesse que o português gera.

ORIGENS
Com origem no latim, do qual evoluiu para o galaico-português, a língua que viria a ser o português começou a ser falada no Noroeste da Península Ibérica cerca do século vi. Com a reconquista cristã foi-se expandindo para sul, ao mesmo tempo que ganhava novos cambiantes com as influências do árabe. Com as fronteiras do país delimitadas e a transferência do poder político para Lisboa, aos poucos a língua foi-se fixando.  Notícia de Fiadores, de 1175, é o documento mais antigo conhecido que reproduz a linguagem da altura.
Mas o testamento do rei Afonso II, de 1214, é considerado um dos mais antigos documentos escritos em português. Foram feitas duas cópias do testamento de Afonso II: a primeira foi enviada ao arcebispo de Braga e guardada no cartório da Mitra daquela cidade e o egundo foi enviado ao arcebispo de Santiago. Esta era uma prática comum na época, justificada pelo facto de as cortes serem itinerantes levando os reis a depositar os documentos importantes em instituições eclesiásticas de confiança, de modo a garantir a segurança dos mesmos. O testamento de Afonso II arca o início do período do português arcaico, que irá durar até à publicação do primeiro livro em português moderno, Os Lusíadas. Apesar de ter sido lavrado há 800 anos, o texto do testamento não põe grandes dificuldades aos falantes do século xxi. Começa assim: “En’o nome de Deus. Eu rei don Afonso pela gracia de Deus rei de Portugal, seendo sano e saluo, temëte o dia de mia morte, a saude de mia alma e a proe de mia molier dona Orraca, e de meus filios e de meus uassalos e de todo o meu reino, fiz mia mada per que de pos de mia morte mia molier e meus filios e meu reino e meus uassalos e todas aquelas cousas que Deus mi deu en poder sten en paz e en folgãcia”.
Contudo, foi necessário esperar pelo reinado de D. Dinis para que todos os documentos públicos passassem a ser escritos no português de então e pelos Lusíadas, de Luís de Camões, para que a língua fosse dividida entre “arcaica” (pré-Lusíadas) e “moderna” (pós-Lusíadas). Nas ruas, a evolução foi acontecendo ao longo dos séculos, até hoje, com a influência de outros idiomas, a criação de novas palavras e a adoção de novas  rafias. Contestado desde o início, o novo Acordo Ortográfico – cujo principal objetivo era uma maior homogeneização do idioma nos diferentes países em que é falado – é o último capítulo conhecido desta “história”.

UMA LINGUA, VÁRIAS IDENTIDADES
A forma como a língua é usada no dia-a-dia denuncia, muitas vezes, quem a fala. Adolescente ou idoso, transmontano, lisboeta, brasileiro ou angolano, do meio popular ou da chamada “classe alta”. O vocabulário, sotaque e entoação de cada um são uma forma de reforçar a inclusão num determinado grupo. Hoje, como o fez ao longo dos séculos, a língua portuguesa atua como elemento de unificação. Não só em Portugal onde, quase desde a formação da nacionalidade, houve um homogeneizar da língua usada, como na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Afinal, entre línguas indígenas e idiomas de imigrantes, nos países da CPLP falam-se 339 línguas, das quais 220 apenas no Brasil. O português funciona assim: não só o elemento de ligação entre os vários países, como entre os povos e etnias que os compõem.
A presença das línguas autóctones, o contato com idiomas estrangeiros e a época em que tomaram contato com o português, podem ser apontados como alguns dos fatores que estão na base das diferenças entre o português falado nos vários países da CPLP. No entanto, as diferenças nunca foram tão marcantes que impedissem a compreensão mútua.
Na história recente o português representou um papel fundamental nos países africanos lusófonos.

Muitos dos líderes dos movimentos independentistas que, em Angola, Moçambique e Cabo Verde precederam a guerra colonial eram também intelectuais de renome e foi através de revistas como Mensagem, em Angola, e Brado Africano, em Moçambique que foram divulgados os ideais anticolonialistas.

O GIGANTE BRASIL
Com 194,9 milhões de habitantes, o Brasil é o país com maior número de falantes de português. Seguem-se Moçambique (23,3 milhões), Angola (19,8 milhões), Portugal (10,6 milhões), Guiné-Bissau (1,5(milhões), Timor-Leste (1,1 milhões), Cabo Verde (496 mil) e São Tomé e Príncipe (165 mil). No entanto, só em Portugal e no Brasil é que toda a população é contabilizada como falante de português.
Em conjunto, Portugal e Brasil têm assumido a promoção e divulgação do português como um dos pontos-chave das respetivas agendas.  A nível internacional os dois países atuam muitas vezes em conjunto, nomeadamente na reforma da Organização das Nações Unidas (ONU), onde  Portugal tem feito lobby para que o Brasil passe a integrar o Conselho de Segurança.
A nível económico as relações têm evoluído nos últimos tempos, com investimentos feitos de ambos os lados do Atlântico. No entanto, os empresários portugueses têm muitas vezes que lutar com as medidas protecionistas do mercado brasileiro.

O PORTUGUÊS ECONÓMICO
Das novas jazidas de petróleo e gás natural descobertas na última década, metade encontra-se em países lusófonos.
Brasil e Moçambique são os dois países à cabeça do ranking das dez maiores descobertas de hidrocarbonetos dos últimos anos. A importância crescente –quer em termos económicos, mas também culturais– de países como o Brasil, Angola e Moçambique, tem feito crescer a importância da língua portuguesa enquanto idioma de negócios. No final de 2012, a revista Monocle teve um número inteiramente dedicado ao português, que titulou “Geração Lusofonia”. Mais recentemente, um estudo do British Council indicou o português como uma das dez línguas mais importantes no Reino Unido nos próximos 20 anos. O relatório do estudo, intitulado Languages for the future (Línguas para o futuro), teve em conta tanto fatores económicos, geopolíticos,culturais e educacionais como a relevância do idioma na Internet ou as necessidades das empresas britânicas nos seus negócios no estrangeiro.
A inclusão da língua portuguesa foi justificada com o facto de ser a quinta língua mais falada na Internet e pela sua presença em organismos internacionais. Além da UE, o português marca ainda presença na Organização dos Estados Ibero-Americanos, na Comunidade para o desenvolvimento da África Austral, na União Africana e na União das Nações Sul-americanas.
Tudo isto leva a que o ranking da Bloomberg, que coloca o português como a sexta língua mais usada em negócios à escala mundial, não cause grande surpresa.
Para construir o ranking, a Bloomberg deixou de fora o inglês, analisou 25 línguas, contabilizou o número de falantes à escala mundial e o total de países que têm um determinado idioma como língua oficial e cruzou esta informação com as línguas oficiais que integram o G-20. Feita a análise, o mandarim subiu ao primeiro lugar do pódio, seguido do francês. Logo depois do português, em sétimo e oitavo lugares aparecem o japonês e o alemão, sendo o fim da tabela ocupado pelo italiano e pelo coreano.
Não é pela situação económica ou geográfica de Portugal que a língua portuguesa é vista atualmente como uma “língua do futuro”, mas isso não invalida que o país não possa tirar proveito da cada vez maior popularidade do idioma. Numa entrevista ao Diário Económico, o economista Joseph Nye, autor de O Futuro do Poder e criador da expressão soft power, não teve dúvidas em afirmar que Portugal devia usar o soft power da sua língua e cultura nas suas relações com o Brasil e com os países africanos lusófonos.

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As variantes do Português

Fenómenos locais, tanto o barranquenho como o minderico são falados até hoje por algumas centenas de portugueses.
Na vila alentejana de Barrancos, o barranquenho é conhecido pelos locais há vários séculos.
Trata-se de um dialeto raiano, bastante influenciado pelos dialetos andaluz e estremenho que marcam o lado de lá da fronteira. Foi o filólogo e etnólogo português Leite de Vasconcelos quem descreveu este dialeto no livro Filologia Barranquenha. O falar barranquenho carateriza-se pela modificação do final de vários vocábulos: o “s” e o “z” finais são aspirados, o “l” e o “r” caem e, tal como no estremenho, no fim de uma palavra o “e” passa a “i”.
Ou seja, Manuel passa a “Manué”, pobre a “pobri” e por aí adiante.
A história do minderico tem outra origem. Foi a partir do século xVIII que os fabricantes e comerciantes de mantas de Minde, no concelho de Alcanena, criaram um código próprio que lhes permitia falar na presença de estranhos sem serem entendidos.
Com o tempo, o minderico alargou-se aos outros grupos sociais da comunidade de Minde e passou a ser usado no
dia-a-dia, perdendo o caráter secreto. Com duas variantes, a de Minde e a de Mira de Aire, muitas das palavras e expressões do minderico têm origem nas imagens do quotidiano. E, apesar das cinco edições do seu glossário e de ser ainda conhecido da maioria da população adulta de Minde, o minderico caiu em desuso.

Susana Torrão

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