A Metamorfose

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A Metamorfose

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“Uma noite, um amigo emprestou-me um livro de contos escrito por Franz Kafka. Regressei à pensão onde estava alojado e comecei a ler A Metamorfose. A primeira frase quase me fez cair da cama. Fiquei tão surpreendido. […] Não sabia que era permitido escrever coisas assim. Se o soubesse, teria começado a escrever há muito tempo.”
Gabriel García Márquez

“Os escritores a que estou sempre a voltar são Montaigne, Pessoa e Kafka. O primeiro porque somos a matéria do que escrevemos, o segundo porque somos muitos e não um, o terceiro porque esse um que não somos é um coleóptero.”
José Saramago

 

 

Assinala-se este ano o centésimo aniversário da publicação de A Metamorfose, um dos raros trabalhos que Franz Kafka publicou em vida. Cem anos depois, o mesmo encanto. E uma introdução que não se esquece.

Franz Kafka era, em 1912, um homem insatisfeito. Trabalhava numa seguradora, mais para satisfazer a família do que por necessidade pessoal, mas, por muito que se esforçasse, sentia-se incapaz de contrariar a reprovação dos que lhe eram próximos. Sentia-se deprimido. Temia que o achassem repulsivo. Os pais exigiam-lhe que ficasse mais horas no escritório, o que, como escreveu no seu diário, lhe era “insuportável, porque interfere com o meu único desejo e vocação, que é a literatura. Como não sou nada a não ser literatura, como não consigo nem quero ser nada senão isso, o meu emprego nunca tomará posse de mim. Pode, contudo, estilhaçar-me por completo, e isto não é sequer uma possibilidade remota”. Também a irmã mais nova, sua habitual aliada, se pôs contra ele nesta questão e a “traição” afetou-o de tal modo que chegou a contemplar o suicídio. Em vez disso, escreveu, no espaço de três semanas, aquela que viria a ser a sua mais popular e influente novela: A Metamorfose.

Publicada em 1915 na revista literária Die Weißen Blätter, a história inicia-se com uma frase que é hoje icónica por si só: “Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco inseto.” Kafka dá ao absurdo pressuposto um tom realista, espelhando na tragédia de Samsa a sua própria alienação e questionando os limites da compreensão humana: até que ponto é, afinal, possível amar alguém tão desajustado à vida regular em sociedade?

A Metamorfose foi um dos poucos trabalhos que Kafka publicou em vida, mas não o livrou do relativo anonimato. O próprio autor se tornou, a certa altura, seu crítico, considerando que o final, em particular, era “impossível de ler”. Mais tarde, às portas da morte, exigiu que todos os seus textos, publicados ou não, fossem destruídos. Ao incumprimento desta ordem se deve hoje a apreciação de um dos mais talentosos – e influentes – escritores do século XX.

 


Por Tiago Matos

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